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Maria Carolina Trevisan

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Bolsonaro desafia o pesar e potencializa pressão das ruas por vacina

29.maio.2021 - Cartaz pede "Fora Bolsonaro" em ato na Avenida Paulista - José Dacau/UOL
29.maio.2021 - Cartaz pede "Fora Bolsonaro" em ato na Avenida Paulista Imagem: José Dacau/UOL
Maria Carolina Trevisan

Maria Carolina Trevisan é jornalista especializada na cobertura de direitos humanos, políticas públicas sociais e democracia. Foi repórter especial da Revista Brasileiros, colaborou para IstoÉ, Época, Folha de S. Paulo, Estadão, Trip e Marie Claire. Trabalhou em regiões de extrema pobreza por quase 10 anos e estuda desigualdades raciais há oito anos. Coordena a área de comunicação do projeto Memória Massacre Carandiru e é pesquisadora da Associação Nacional de Direitos Humanos, Pesquisa e Pós Graduação. É coordenadora de projetos da Andi - Comunicação e Direitos. Em 2015, recebeu o diploma de Jornalista Amiga da Criança por sua trajetória com os direitos da infância.

Colunista do UOL

02/06/2021 09h37

Quanto mais acuado, com mais agressividade reage o presidente Jair Bolsonaro (sem partido). Os protestos do último sábado (29), que pediam vacina e o afastamento do presidente da República, mexeram com Jair e seu clã.

O impacto foi tanto que Bolsonaro resolveu revidar: submeterá o Brasil à realização de um grande evento esportivo, a Copa América, no meio da ascensão de uma terceira onda da pandemia; nomeou o ex-ministro da Saúde general Eduardo Pazuello para a Secretaria de Assuntos Estratégicos, simbolizando um prêmio ao antigo gestor da Saúde e desafiando o Exército, que não decidiu se vai punir seu general pela presença em palanque no Rio, atitude vetada pela Justiça Militar; e seguiu esgarçando os limites ao declarar, nesta terça (1º), que pode "porventura" tomar medidas que extrapolem a Constituição.

"Nós não tomamos nenhuma medida que ultrapassa as quatro linhas da Constituição, mas pode ter certeza, se porventura tomarmos, todos os 22 ministros estarão perfeitamente alinhados conosco. Acima do Poder Legislativo, do Poder Executivo e do Poder do Judiciário, está o poder do nosso povo", disse Bolsonaro, em evento no Palácio do Planalto. Afrontou assim, ao mesmo tempo, todos os três Poderes, governadores, prefeitos e as Forças Armadas.

Sentiu

No entanto, a atitude que mais denuncia que Bolsonaro sentiu a pressão imposta pela CPI da Covid, referendada e ampliada pelas manifestações antibolsonaro, foi a publicação infantil em suas redes sociais de uma foto sua com os dizeres: "imorrível, imbroxável e incomível" (sic). A frase virou uma espécie de lema que Jair repete quando não tem como responder às cobranças.

Não é necessário amplo conhecimento em psicologia para saber que homens que lançam mão do falo para se justificar estão, na realidade, morrendo de medo. É a insegurança que move as provocações produzidas pelo presidente do Brasil. Tudo como se o país não tivesse perdido mais de 2.300 vidas em um dia para a covid-19, maior média em 8 dias.

Tudo como se não fosse a omissão e negligência de seu governo — que patrocinou um medicamento contraindicado e atrasou a obtenção de vacinas — que nos expõe diariamente à letalidade do vírus.

Pesar

Mas não se desafia o pesar. Foram olhos tristes que ocuparam as ruas no sábado passado. Essa informação não é irrelevante, não é uma interpretação. É o ponto central. As ruas foram tomadas pela expressão do luto que nos engole.

O medo da morte deu lugar à indignação. A dor da perda se mostrou nos cartazes que informavam a morte de um parente. Esse sentimento, ao encontrar uma causa comum e superior à disputa político partidária como é a bandeira da vacina para todos, é capaz de mobilizar por muito mais.

Com a CPI demonstrando diariamente os equívocos na gestão da crise sanitária, com a fome, a inflação e o desemprego avançando, com insumos chegando a conta-gotas, com a vacinação paralisada em muitos municípios e as dúvidas sobre a segunda dose, com a falta de planejamento por parte dos ministros, com o fim do auxílio emergencial, é mesmo o caso de Bolsonaro se preocupar.

Sua popularidade vem caindo. Não há futebol que tape os problemas do país.

Não se desafia o pesar. O pesar se respeita.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL