PUBLICIDADE

Topo

Maria Carolina Trevisan

Trump não condenou supremacistas brancos e mandou recado a extremistas

Maria Carolina Trevisan

Maria Carolina Trevisan é jornalista especializada na cobertura de direitos humanos, políticas públicas sociais e democracia. Foi repórter especial da Revista Brasileiros, colaborou para IstoÉ, Época, Folha de S. Paulo, Estadão, Trip e Marie Claire. Trabalhou em regiões de extrema pobreza por quase 10 anos e estuda desigualdades raciais há oito anos. Coordena a área de comunicação do projeto Memória Massacre Carandiru e é pesquisadora da Associação Nacional de Direitos Humanos, Pesquisa e Pós Graduação. É coordenadora de projetos da Andi - Comunicação e Direitos. Em 2015, recebeu o diploma de Jornalista Amiga da Criança por sua trajetória com os direitos da infância.

Colunista do UOL

02/10/2020 04h00

No debate presidencial americano desta terça (29), o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, não só recuou de condenar a violência de supremacistas brancos como também lançou uma mensagem a grupos de extrema-direita, como o Proud Boys (Garotos Orgulhosos), descritos como violentos, racistas, nacionalistas, antissemitas, islamofóbicos, transfóbicos e misóginos. Agora com Covid-19, pode evitar se explicar.

A pergunta do moderador Chris Wallace, da Fox News, era clara e direta: "O senhor condena os supremacistas brancos e grupos milicianos?". Em vez de dar uma resposta refutando de maneira inequívoca o comportamento do grupo, Trump enrolou, foi questionado sobre o que diria aos Proud Boys e respondeu: "Proud Boys, deem um passo atrás e aguardem".

A mensagem ligou o sinal de alerta para especialistas que acompanham organizações de ódio. "As pessoas que trabalham no monitoramento e desradicalização, que estudam grupos de poder branco, estão emitindo alertas vermelhos e enviando sinais de emergência sobre o aumento da violência de agora até a eleição e depois, independentemente do vencedor", disse a historiadora Kathleen Belew, que estuda o movimento supremacista branco, a violência armada e os paramilitares, autora de "Bring the War Home - The White Power Movement".

Jonathan Greenblat, CEO da Anti-Defamation League (ADL), afirmou em seu Twitter que os Proud Boys passaram a usar a frase de Trump como grito de guerra. A ADL é uma organização fundada em 1913, que se dedica a defender a democracia de ameaças, cyberódio, bullying, preconceito nas escolas e no sistema de justiça criminal, terrorismo, crimes de ódio, coerção de minorias religiosas e desprezo por quem é diferente. Para Greenblat, Trump "deixa a porta aberta e isso é chocante", afirmou, em entrevista à rede CBS News.

O senador negro, conservador e republicano Tim Scott disse que o presidente Trump deve desculpas ao país. "A supremacia branca deve ser denunciada a cada passo. Acho que o presidente se equivocou e precisa corrigir isso. Se ele não corrigir, então não errou." Ou seja, ele espera que o presidente se retrate para não ser interpretado como racista e defensor de movimentos de ódio.

O líder dos Proud Boys, Enrique Tarrio, compreendeu bem a mensagem e respondeu na rede social Parler (em que também figuram os Bolsonaros): "No aguardo, senhor". E em outra mensagem disse: "Esse é o meu presidente!".

O país vem passando por uma série de protestos antirracistas de dimensões gigantescas, a ponto de influenciar outras nações do mundo, após o assassinato de George Floyd por policiais que o sufocaram, em maio, em Mineápolis. O presidente americano tem usado uma retórica conhecida também no Brasil. Ao ser obrigado a se posicionar sobre ataques de grupos de extrema direita e antidemocráticos, Trump reclama dos antifascistas, como se essa equivalência fosse verdadeira.

Na semana passada, o secretário de Segurança Interna dos Estados Unidos, Chad Wolf, disse, em audiência no Senado, que os supremacistas brancos representam "a ameaça mais persistente e letal quando falamos sobre extremistas violentos domésticos". Relatórios de sua agência indicam que esses grupos planejam ameaças de terrorismo significativas e representam risco real ao país, mais do que os atores internacionais.

Racismo estrutural

Assim como Bolsonaro no Brasil, Trump não vê racismo estrutural nos Estados Unidos. Foi o que relatou ao jornalista do The Washington Post Bob Woodward em junho. Por aqui, o presidente brasileiro fala em povo miscigenado, como se fosse sinônimo de "paraíso racial". Ambos minimizam o racismo, seus efeitos ao longo do tempo e evitam qualquer reparação histórica ou reconhecimento.

No episódio de Charlottesville, Virgínia, em 2017, quando supremacistas brancos organizaram um evento violento que terminou com a morte de uma mulher antirracista, atropelada por um neonazista, e 19 feridos, o presidente americano, no calor dos acontecimentos, primeiro se mostrou indignado. Depois Trump disse que "há culpa dos dois lados", comentário que foi lembrado por Joe Biden no debate presidencial. Ele também disse que tinha "gente boa dos dois lados" dos protestos.

Um ano depois, ao se referir à violência em Charlottesville, Trump falou em "todos os tipos de racismo", como se existisse o racismo reverso.

Os Estados Unidos têm sido palco de uma série de protestos antirracistas por todo o país. Desde a morte de George Floyd, milhares de pessoas têm se manifestado contra o racismo nas ruas. Trump tentou usar a força contra os manifestantes. Falou que o racismo não existe no país. Mas os protestos continuaram.

Em agosto, um supremacista branco de 17 anos matou dois manifestantes do Black Lives Matter em Kenosha, Wisconsin. Trump disse que foi "legítima defesa". A onda de protestos na região começou depois que um homem negro de 29 anos, Jacob Blake, foi baleado várias vezes por policiais pelas costas.

Dias depois, em Portland, Oregon, epicentro dos protestos do movimento Black Lives Matter, uma pessoa morreu durante a manifestação antirracista. A cidade tem tradição progressista e seu prefeito é o democrata Ted Wheeler.

A ofensiva da extrema-direita tem sido poderosa. Na semana passada, cerca de mil apoiadores dos Proud Boys, alguns armados, se reuniram em Portland. Desde o debate presidencial, seus membros, que se vestem com camisas pólo pretas, adotaram o slogan de Trump, em inglês, "stand back, stand by".

Diante dos acontecimentos e da declaração de Trump no debate, a congressista do partido democrata Alexandria Ocasio-Cortez, representante de Nova York na Câmara, disse, no Twitter: "Donald Trump é um supremacista branco." Acometido pelo coronavírus, o presidente americano dá um passo atrás.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL