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Russomanno tem intenção de voto pouco consolidada mesmo com Bolsonaro

Maria Carolina Trevisan

Maria Carolina Trevisan é jornalista especializada na cobertura de direitos humanos, políticas públicas sociais e democracia. Foi repórter especial da Revista Brasileiros, colaborou para IstoÉ, Época, Folha de S. Paulo, Estadão, Trip e Marie Claire. Trabalhou em regiões de extrema pobreza por quase 10 anos e estuda desigualdades raciais há oito anos. Coordena a área de comunicação do projeto Memória Massacre Carandiru e é pesquisadora da Associação Nacional de Direitos Humanos, Pesquisa e Pós Graduação. É coordenadora de projetos da Andi - Comunicação e Direitos. Em 2015, recebeu o diploma de Jornalista Amiga da Criança por sua trajetória com os direitos da infância.

Colunista do UOL

25/09/2020 04h00

O presidente Jair Bolsonaro (sem partido) acenou a favor do deputado federal Celso Russomanno (Republicanos), candidato a prefeito de São Paulo. Estiveram juntos na reabertura do aeroporto de Congonhas e fizeram uma dobradinha nas redes sociais minimizando a alta do arroz. Mas a amizade do presidente não deve impulsionar Russomanno na eleição municipal. A conjuntura é mais complexa.

As três pesquisas dos institutos Datafolha, Ideia Big Data e Ibope, publicadas nesta semana, indicam que Russomanno lidera a intenção de votos no cenário estimulado. Porém, isso não significa que tenha vantagem concreta. Ele aparece com 29% no Datafolha, 21% no Ideia Big Data e 24% no Ibope. Em duas delas, ele está tecnicamente empatado com o atual prefeito, Bruno Covas (PSDB).

Há dois aspectos importantes que precisam ser considerados. O primeiro é que, a menos de dois meses do pleito, o número de indecisos, brancos e nulos é muito alto em todas as pesquisas. Isso mostra que a eleição municipal não entrou no radar dos eleitores. "Mais da metade do eleitorado não sabe em quem votar espontaneamente, significa que vamos ter muita volatilidade, haverá muitas mudanças nas pesquisas", afirma o economista Mauricio Moura, fundador do instituto de pesquisa Ideia Big Data e professor da George Washington University.

pesquisa 1 - Exame Ideia - Exame Ideia
Primeiro turno - cenário estimulado
Imagem: Exame Ideia

O segundo aspecto é que Russomanno perdeu no primeiro turno de todas as eleições majoritárias que disputou (para prefeito de São Paulo em 2012 e 2016, Santo André em 2000 e governo paulista em 2010), mesmo com bom desempenho nas pesquisas. O que acontece é que a sua intenção de votos é pouco consolidada: a relação entre o cenário espontâneo (quando a pergunta é aberta) e o cenário estimulado (quando são apresentadas as opções) é ruim. Aponta para o que aconteceu em eleições anteriores, em que os indecisos optaram por outro candidato quando se aproximou o dia da votação.

"O desafio de Russomanno é consolidar o voto, fazer com que espontaneamente as pessoas o escolham", explica Moura. Na pesquisa do Ideia Big Data, o prefeito Bruno Covas e Guilherme Boulos (PSOL) são os que apresentam intenção de voto mais consolidada.

Por fim, os estudos mostram que a rejeição de Jair Bolsonaro (sem partido), do ex-presidente Lula (PT) e do governador paulista, João Dória (PSDB), é grande, o que faz deles péssimos cabos eleitorais.

Memória de outros tempos

pesquisa 2 - Exame Ideia - Exame Ideia
Primeiro turno - cenário espontâneo
Imagem: Exame Ideia

Celso Russomanno desfruta do que os analistas políticos chamam de "recall". Seu nome é conhecido, sua imagem como justiceiro dos consumidores foi amplamente veiculada e sua herança malufista ainda encontra abrigo em parte dos eleitores da capital paulista, composta por pessoas da classe média média e da periferia, de perfil conservador, muitos evangélicos e com idades entre 45 e 50 anos. Russomanno, Covas, Boulos e Márcio França (PSB) são os quatro candidatos mais conhecidos em São Paulo, segundo Moura. No segmento jovem, de 16 a 24 anos, as três pesquisas mostram que o Boulos é o preferido.

A eleição na cidade de São Paulo tem uma característica que se repete desde 1988: no primeiro e no segundo lugar disputam um candidato com votos no campo popular contra um candidato com votos no campo azul, que corresponde ao centro expandido da capital paulista. "Hoje, nas pesquisas, Russomanno está ocupando o lugar do campo popular e Bruno Covas está ocupando o lugar no campo azul. Por isso, a disputa pela vaga no segundo turno será contra algum candidato que queira se colocar no campo popular", diz Moura.

Mas na eleição 2020 há uma mudança em relação às anteriores: pela primeira vez, o PT não tem um candidato forte. As três pesquisas divulgadas nesta semana mostram que Jilmar Tatto (PT) está em um patamar muito baixo. Tradicionalmente, o Partido dos Trabalhadores esteve na primeira ou na segunda posição. Por isso, a corrida pelo voto popular deve se dar entre Russomanno e Boulos.

"No caso de Covas, para se garantir no segundo turno, ele precisa potencializar o voto no campo azul", explica Moura. O histórico das últimas duas eleições, vencidas pelo PSDB, mostra que toda vez que um candidato de esquerda cresce, há voto útil no outro candidato. "Foi o que permitiu que Dória ganhasse no primeiro turno em 2016. Fernando Haddad (PT) arrancou na reta final e muita gente votou no Dória, com medo do PT." Ou seja, se Boulos ou Russomanno mostrarem que são alternativas fortes, muito provavelmente haverá voto útil em Covas.

França como incógnita

Quem ainda não se posicionou foi o candidato do PSB, Márcio França, ex-governador de São Paulo. Ele terá de escolher se se situa no campo popular ou no campo azul. "Não dá para jogar nos dois lados no primeiro turno. São eleitores muito diferentes", afirma o fundador do Ideia Big Data. É uma situação complicada para sua campanha. Se França se posiciona mais à esquerda, perde competitividade num possível segundo turno. Se se colocar à direita, os eleitores de esquerda podem escolher Bruno Covas.

A antipolítica como arma eleitoral desgastada

Ir "contra tudo o que está aí", lema da campanha eleitoral de Jair Bolsonaro, não é mais eficaz. Isso porque não existe caminho mágico, a política é necessária para gerir um país, um estado ou um município. É preciso lidar com parlamentares, negociar alianças. A antipolítica, ou a "nova política", acaba de vitimar Wilson Witzel (PSC), governador afastado do Rio de Janeiro. Com o passar do tempo os falsos herois são desmascarados.

As eleições municipais de 2020 refletem essa frustração e o desejo de opções mais seguras, focadas nos políticos tradicionais. "Essa é uma eleição de incumbentes e conhecidos. Os incumbentes ganharam projeção na pandemia", explica Moura. "Os candidatos de 2018 de fora da política agora estão governando. As pessoas estão vendo que não existe milagre, que não basta ser fora da política para resolver tudo."

Foi o que aconteceu em outros países, como Itália, França e Espanha e inclusive nos Estados Unidos. A eleição pós a narrativa " contra tudo o que está aí" é muito mais dura para os partidos que se elegeram com essa bandeira. Nas eleições de 2020, a tendência é que temas locais e a continuidade dominem a preferência dos eleitores.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL