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Sim, faça terapia. Mas não espere milagres

Maqui Nóbrega

Maqui Nóbrega é designer, produtora de conteúdo para internet, feminista, gorda, um pouco chata, bastante legal e nada romântica.

Colunista do UOL

15/09/2020 04h00

Preciso admitir aqui: eu acho que tenho romantizado uma coisa. Não sei quantas vezes eu já falei pras pessoas, algumas até aqui nessa coluna, "faça terapia". Calma, não mudei de ideia sobre terapia, eu ainda acho que todo mundo devia fazer mesmo, mas se algum dia eu fiz parecer que terapia é um milagre ou a solução instantânea para todos os problemas da vida, queria pedir desculpas!

Eu já venho pensando nisso faz tempo, mas desde que comecei a assistir a nova temporada de "Sessão de Terapia", série original do GNT, dirigida (e agora estrelada) pelo Selton Mello, ficou mais urgente falar sobre isso. Minha última sessão de terapia, inclusive, foi sobre "Sessão de Terapia". Minha terapeuta amou a metalinguagem!

Eu adoro essa série e assisto desde que começou, em 2012. O terapeuta principal, Theo, era interpretado pelo ZéCarlos Machado e, durante as três primeiras temporadas, histórias lindas foram contadas através do processo terapêutico dos pacientes que sentaram na frente dele. Aí rolou uma pausa de cinco anos, ZéCarlos não estava mais disponível, acho que Selton tomou coragem pra assumir a poltrona do terapeuta e a série voltou em 2019. E aí que começou meu incômodo.

De 2012 pra cá, o mundo mudou demais! Natural então que as questões das pessoas em terapia também mudassem, né? Essa temporada nova traz praticamente um checklist dos problemas mundiais atuais e isso já me deixou meio assim, bleh. Mas acho que o que mais me incomodou foi como retrataram a jornada dos pacientes. Em 6 sessões de 20 minutos, parece que todos os problemas da vida deles foram resolvidos. Com muitas frases de efeito, olhadas poéticas pra janela e silêncios dramáticos, todos saíram dali pessoas diferentes. Isso me irritou demais!

Eu pensei "caramba, será que todo mundo tem sessões de terapia densas assim toda semana e só eu não? Será que toda sessão tem que trazer um insight mágico e eu tô fazendo errado?". Comecei a perguntar para todo mundo que eu conheço que faz terapia e a experiência das pessoas era mais parecida com a minha do que com a série. Não tô falando que a terapia daquele jeito não existe (quem sou eu pra afirmar isso?), mas minha impressão é de que tudo ali foi romantizado até não poder mais, para virar um bom programa de TV. E um programa de TV sobre algo tão real não me lembrou em nada a realidade.

E aí pensei que talvez eu também pudesse estar contribuindo para essa aura mágica da terapia que, hoje, eu acho que só serve pra afastar as pessoas dela. Talvez você pense que terapia não é pra você porque não tem questões profundas pra resolver com urgência. Ou pode ter medo de chegar lá e não saber o que falar. Vergonha de que os seus problemas não são tão importantes ou suas dúvidas tão inteligentes quanto as dos personagens das séries. O processo terapêutico é longo e é isso, um processo. Não é mágico e, na maior parte do tempo, não é nada gostoso. Não é instantâneo e muito menos uma resolução rápida pros problemas que te afligem. Quando eu digo "faça terapia", não estou indicando uma receitinha milagrosa, cinco passos para mudar a sua vida. Quem faz isso é coach!

Quando eu digo "faça terapia", eu tô dizendo: vá se conhecer. E tem muitos jeitos de se conhecer! Seja num consultório, do jeito "tradicional", ou em casa, vendo uma série que você achou meia boca, todas essas são oportunidades para você exercitar seu autoconhecimento. O meu incômodo com a série diz muito sobre mim, por exemplo.

Autoconhecimento é o aprendizado mais valioso de todos e você tem ele nas mãos. O simples fato da gente existir é uma oportunidade de ouro pra nos aprofundarmos em quem somos.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.