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Maqui Nóbrega

Não se deixe enganar: os filtros do Instagram são o novo Photoshop

A pele perfeita não existe - s-cphoto/Getty Images/iStockphoto
A pele perfeita não existe Imagem: s-cphoto/Getty Images/iStockphoto
Maqui Nóbrega

Maqui Nóbrega é designer, produtora de conteúdo para internet, feminista, gorda, um pouco chata, bastante legal e nada romântica.

Colunista do UOL

18/08/2020 04h00

Esses dias fiz uma publicidade de um demaquilante no meu Instagram e postei um "antes e depois" pra mostrar o efeito do produto. No antes, meu rosto maquiado, no depois, meu rosto limpo, a pele rosa (tenho rosácea), as marcas de espinha, os poros...

A maioria das minhas seguidoras entendeu a proposta, mas algumas me mandaram mensagens questionando se eu não havia errado a ordem das fotos. Como podia o "depois" ser pior que o "antes"? A partir disso, entrei numa reflexão que já dura dias. Sobre a indústria do "antes e depois" (farei um post sobre isso), sobre os filtros do Instagram, sobre skincare, sobre a busca pela pele (e pela vida) perfeita.

Eu não devia ter que escrever isso em 2020, mas vamos lá: pele perfeita não existe. Trabalhei em revistas por muito tempo e vocês não tem ideia de quanto tempo um maquiador leva para fazer a pele de uma modelo de 18 anos, que já é "perfeita", e, mesmo assim, a foto ainda passa por um tratamento. Sei que nos últimos anos isso mudou bastante, celebridades exigiram que suas fotos não fossem mais tratadas nas capas, marcas anunciaram que deixariam de usar Photoshop em suas campanhas, vimos algum avanço a favor da imagem real na mídia. Mas aí vieram os filtros do Instagram…

Felizmente, ao passo que os filtros aumentam, iniciativas como o "Movimento Pele Livre" surgem pra fazer o contraponto. Infelizmente, ainda é pouco. Todas as mulheres precisam contribuir com essa desconstrução.

Quando recebi as mensagens dessas pessoas surpresas com a minha pele sem maquiagem, entendi que a culpa era minha. No dia a dia dos meus Stories, eu era adepta de um único filtro que deixava a imagem meio amarelada, botava um glitter nos meus olhos e dava uma alisada na pele. Se no meio dessa pandemia, o maior contato que temos com as pessoas é online, será que eu estava me desfigurando para as pessoas que me assistem? Será que estamos esquecendo como as pessoas são de verdade? Como eu posso falar de autoaceitação e usar um filtro que modifica, mesmo que pouco, a minha cara? Bom, parei de usar filtros. E peço desculpa por ter enganado quem eu enganei.

Mas agora estou aqui pra te encorajar: não se deixe enganar! Pela pele limpa com filtro, pelo discurso sem defeitos, pela casa sempre arrumada, pela felicidade 24/7. Sinto que esse post é uma versão atualizada de outros que pipocam na internet de tempos em tempos, mas nunca é demais lembrar que o que a gente vê nas redes sociais é uma edição da vida das pessoas. Assim como nas revistas, em que 397298374 fotos são tiradas e apenas uma é escolhida para a capa, depois de tratada com muito cuidado.

Tem gente que edita mais, tem gente que edita menos, mas todo mundo edita e, pode crer, o que fica de fora dos posts é o que o @ percebe como seu pior. Mas esse pior existe. O pior, junto com todo o resto, faz da gente quem a gente é. E quem a gente é, é imperfeito, ainda bem. O "depois" da minha pele é quem eu sou, e eu não vou mais deixar ninguém esquecer disso.