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Luiza Sahd

Para superar preconceito com remédios psiquiátricos, olhe à sua volta

O Pica Pau mesmo apontava dedos sem lembrar que tinha quatro apontados para ele, etc - Reprodução
O Pica Pau mesmo apontava dedos sem lembrar que tinha quatro apontados para ele, etc Imagem: Reprodução
Luiza Sahd

Luiza Sahd é jornalista e escritora. Colaborou nas revistas Tpm, Superinteressante, Marie Claire e Playboy falando sobre comportamento, ciência, viagem, amor e sexo. Vive entre São Paulo e Madrid há anos, sem muita certeza sobre onde mora. Em linhas gerais, mora na internet desde 2008.

Colunista do UOL

28/10/2020 04h00

Eram quase duas da manhã quando eu estava tentando dormir e me faltou o ar de um jeito estranho, como se eu tivesse desaprendido o ritmo de respiração que a gente já nasce sabendo. Eu era uma jovem saudável de 15 anos, mas senti que o coração também palpitava de um jeito todo descompassado. Gritei pela minha mãe e, quando ela chegou, dividi a suspeita de que estava morrendo. Ela me arrastou como pôde pro hospital, já que eu era uma menina saudável de 15 anos, mas não sentia as pernas para caminhar como tal.

Há 20 anos, o hospital público de Ilhabela, no litoral norte de São Paulo, não parecia ser exatamente o pronto-socorro dos sonhos para quem suspeita que está tendo um infarto ou qualquer pirepaque brabíssimo que o valha, mas era onde dava para chegar naquelas condições. E foi ali que uma médica extremamente competente me examinou, pediu licença à minha acompanhante para uma conversa particular e explicou: "você está clinicamente saudável, mas parece estar com um episódio severo de pânico". Ela conseguiu identificar, inclusive, qual foi o evento traumático que disparou minha crise.

Até o dia em que eu morrer de verdade, serei grata a esta médica — e terei raiva de mim mesma por não ter memorizado o nome dela para agradecer pela ajuda inestimável. Entender o que está acontecendo é o primeiro passo importante para quem sofre de um transtorno mental, mas nem isso evitou que eu tivesse muito mais episódios semelhantes àquele dos 15 até os 27 anos de idade, quando o problema escalou a ponto de me deixar de cama e quando os médicos, os remédios e a sociedade se tornaram mais modernos nesse sentido.

"Nem todos os transtornos mentais do mundo podem ser amenizados com remédios, mas nem todos podem ser tratados com sucesso sem eles". Foi escutando essa observação meio lacônica de um psiquiatra que topei, em 2012, começar um tratamento medicamentoso contra a síndrome do pânico. Não era a primeira vez que eu tentava: desde 2008, testei remédios que não deram certo, atividades físicas que ajudaram (mas não me blindaram das crises), além de uma terapia que, definitivamente, me afundava mais a cada sessão.

Quem sofre de algum transtorno mental em fase aguda tem pressa e tem o raciocínio comprometido — uma combinação que não ajuda em nada a tomar boas decisões. No meu caso, até pequenos deslocamentos para os consultórios eram desafios, porque passei meses com pavor de sair na rua. Por sorte ou destino, recebi recomendações de profissionais carinhosos que ajudaram a transformar aquela vida disfuncional na vida de agora, em que só lembro do pânico quando entro num avião ou passo por algum susto extremo, tipo sofrer assalto ou receber uma notícia muito ruim.

Foi em 2015, após três anos de acompanhamento multidisciplinar (com psicólogo e psiquiatra) que tive alta do remédio. Em 2016, decidi que não queria a alta: eu já tomava uma dose tão irrisória do medicamento que os médicos riam quando eu pedia a receita; quando passava alguns meses sem esse "sopro" de química no corpo, eu voltava a ter dificuldades que certamente ninguém gostaria de sentir à toa, "para não depender de remédio".

A perspectiva mais otimista que tive a esse respeito foi do mesmo médico que recomendou o tratamento: quando usada de forma adequada, a medicação psiquiátrica não te transforma em outra pessoa, mas ajuda a voltar a ser quem você era antes do transtorno mental ficar agudo — e foi exatamente assim que me senti quando encontrei o tratamento que fez cessar minhas crises. Apesar disso, com a maior cara de pau do mundo, algumas pessoas próximas que não passaram pelo pânico condenam minha opção por manter um chorinho de remédio na rotina diária. Algumas delas, inclusive, poderiam se beneficiar muito de uma avaliação psicológica, mas perdem tempo com comentários do tipo "você não pode tomar remédio a vida inteira", ao que escutam "o que eu não posso é passar a vida inteira com medo, na cama, quando tenho tanta vontade de viver".

Às vezes, a gente está a meio comprimido do equilíbrio mental, e embora esse recurso não seja acessível nem descomplicado para a maior parte das pessoas, existem aquelas que colocam ainda mais obstáculos a esse acesso quando resolvem tirar conclusões sobre o que não sofrem usando argumentos sobre o que não sabem, já que não são especialistas. Dê uma volta pelo bairro, pelo grupo de zap do condomínio ou da escola do seu filho, pelas redes sociais ou pelos comentários em portais de notícias e calcule aí quanta gente poderia estar se beneficiando de paz emocional caso não tivesse medo de ser tachada de louca por se cuidar.

Nem todo remedinho é bom (e nem tanta gente precisa)

É claro que existe uma indústria interessada em que o máximo possível de pessoas tome remédios psiquiátricos. Para absolutamente tudo no mundo capitalista existe uma indústria interessada no nosso consumo — muito acima do interesse no bem-estar coletivo. Os malefícios da medicalização desnecessária também não são poucos, como explica a colega Carina Martins neste excelente dossiê sobre o assunto. Foi nessa reportagem, também, que descobri que 30% dos habitantes de São Paulo têm algum transtorno mental, o maior índice do mundo. A esse respeito, uma observação me tocou bastante:

"O diagnóstico [de um transtorno mental] sempre exigirá que exista um sofrimento maior, destoante, incapacitante — embora nunca mensurável. A psiquiatria paga um preço alto por ser uma área de medicina onde os exames laboratoriais não têm a resposta. Não existe ultrassom para enxergar a ansiedade, e isso gera preconceitos e dúvidas. Mas essa característica só mostra quão complexos somos."

Nenhum remédio tira a dor de existir. Falo isso com tranquilidade, porque não convivo mais com o pânico, mas sigo passando bastante raiva, ansiedade, medo ou culpa, como qualquer pessoa funcional deve passar (e superar) no dia a dia. Por outro lado, ninguém além da pessoa que está atravessando um período muito difícil ou incapacitante deveria ter tantas opiniões sobre aquilo que desconhece.

Sentir mais medo do remédio do que da doença é um dos muitos motivos pelo qual não avançamos nas discussões sobre saúde mental. Todos os remédios têm efeitos colaterais, e grande parte da população brasileira é inclinada à automedicação. Curiosamente, as mesmas pessoas que tomam remédios para sintomas físicos sem muita parcimônia podem ter grande aversão a remédios psiquiátricos, ainda que eles sejam receitados de forma responsável e consequente. Há algo claramente errado com o imaginário popular sobre o tratamento de doenças mentais.

Dentre os milhares de caminhos possíveis -- que nunca são muito claros ou garantidos -- para enfrentar esse tipo de problema, sou feliz por ter me reencontrado na terapia, nos cuidados diários com alimentação e saúde e com o meio comprimidinho que me mantém longe da dor que escolhi não sofrer. O tratamento me afasta, também, de pessoas cruéis e preconceituosas. Isso acaba sendo igualmente satisfatório e salutar, talvez até parte da cura.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL