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'Sob Pressão' mostra o SUS que novelas não mostram

Marjorie Estiano como doutora Carolina em "Sob Pressão" - Divulgação
Marjorie Estiano como doutora Carolina em "Sob Pressão" Imagem: Divulgação
Luiza Sahd

Luiza Sahd é jornalista e escritora. Colaborou nas revistas Tpm, Superinteressante, Marie Claire e Playboy falando sobre comportamento, ciência, viagem, amor e sexo. Vive entre São Paulo e Madrid há anos, sem muita certeza sobre onde mora. Em linhas gerais, mora na internet desde 2008.

Colunista do UOL

14/10/2020 04h00

A quarta temporada de "Sob Pressão" (Rede Globo) mobilizou as redes sociais em sua estreia, na terça-feira (6). O anúncio de que dois episódios retratariam um hospital no início da pandemia de Covid-19 despertou interesse inclusive de quem não acompanhava a série — como era o meu caso.

Movida pela curiosidade sobre a tal "cena do crachá", protagonizada lindamente pela atriz Marjorie Estiano, assisti ao episódio da terça-feira passada e, desde então, passei uma semana hipnotizada pelas temporadas anteriores, emendando um episódio antigo no outro. O que me emociona tanto: ver uma obra de ficção mostrando um Brasil que parece real, ao contrário do que acontece em tramas como "Laços de Família", que está sendo reprisada na mesma emissora.

Se não, vejamos. O dilema em "Laços de Família" é neste estilo, bem Leblon tóxico:

Em "Sob Pressão", o pão de cada dia é este:

Sabendo que a maioria dos brasileiros não conseguiria nem pagar uma coquinha gelada nesse restaurante onde Helena, Edu e Camila discutem Britney Spears de maneira leviana (pois é uma grande artista), escolha seu lado.

Mais do que rostinhos ou bisturis bonitos

Existem muitos motivos para alguém se apaixonar por "Sob Pressão": o talento imenso do elenco, a complexidade das histórias contadas, a semelhança com o noticiário, a fotografia, um casal bom de shippar, o humor finíssimo dos personagens Amir (Orã Figueiredo) e Samuel (Stepan Nercessian) ou a forma como muitos outros nos fazem chorar — geralmente, porque já vimos situações tristemente parecidas com as deles. Mas o que a série faz de diferente (e de muito especial) é mostrar o Brasil do SUS, que é de todos nós, mas é pouco mencionado pela ficção — ou é mostrado de forma caricatural por roteiristas que provavelmente nunca pisaram em hospitais públicos.

A trama exibida pela Globo é baseada no livro homônimo que virou filme e, depois, a série. Escrito por Marcio Maranhão, que trabalhou como plantonista do Samu (Serviço de Atendimento Móvel de Urgência) de 2005 a 2006 e foi cirurgião no Serviço de Saúde do Estado do Rio de Janeiro entre 2001 e 2009, "Sob Pressão" mostra que sabemos menos do que deveríamos sobre nosso sistema público de Saúde e que, mais do que nunca, é fundamental defendê-lo.

A primeira e a segunda temporada da série explicam de que forma a corrupção é praticada das portas para dentro e na gestão do Sistema Único de Saúde. Quem não se revolta descobrindo que faltam materiais básicos e fáceis de conseguir — como fios e drenos que poderiam salvar muitas vidas, mas não são comprados porque é difícil desviar verba na aquisição de itens baratos — já está morto por dentro. Não tem SUS ou hospital privado que salve essa alma.

O desgaste físico e mental de quem trabalha no SUS também aparece de forma esperta em "Sob Pressão", ainda que a perspectiva de enfermeiros e outros profissionais de saúde tenha menos peso na trama das primeiras temporadas do que a dos médicos. Esta é, aliás, uma das poucas falhas da série — que também derrapou ao abordar obesidade, mas é eficiente ao mostrar serviços muito modernos, oferecidos pelo SUS de forma universal, para todos os brasileiros.

No erro ou no acerto, a estratégia de mostrar médicos confrontando suas fragilidades pessoais ao mesmo tempo em que administram a precariedade nas condições de trabalho — e que lidam com uma população sempre frustrada pelo abandono — é um fator que colabora para a humanização dos profissionais que fazem muito com pouco e ainda levam a fama de despreparados. A verdade é que o SUS tem unidades desestruturadas de ponta a ponta do país por motivos mais escusos do que a má vontade de quem está ali, na linha de frente.

Ver uma obra de ficção que mostra gente que parece mesmo brasileira, com problemas tipicamente brasileiros, vividos por personagens de sotaques, caras e cores brasileiros é uma novidade agridoce, mas um passo fundamental para a TV aberta. Se, por um lado, tudo é mesmo muito duro, por outro, estamos começando a dar conta da realidade brasileira na ficção.

Poucas coisas são mais constrangedoras, a essa altura dos acontecimentos, do que continuar produzindo entretenimento que não dialoga com o que acontece nas ruas. Assim como a novela "Amor de Mãe", que conta histórias que parecem mesmo deste país, "Sob Pressão" leva para o horário nobre aquilo o que passamos décadas negando, em vão.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL