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Luiza Sahd

Óculos, TikTok, dor nas costas: alguns sintomas de quem é só um pouco idoso

Depois dos 35, somos todos Larissa Manoela no programa da Eliana - Reprodução/ SBT
Depois dos 35, somos todos Larissa Manoela no programa da Eliana Imagem: Reprodução/ SBT
Luiza Sahd

Luiza Sahd é jornalista e escritora. Colaborou nas revistas Tpm, Superinteressante, Marie Claire e Playboy falando sobre comportamento, ciência, viagem, amor e sexo. Vive entre São Paulo e Madrid há anos, sem muita certeza sobre onde mora. Em linhas gerais, mora na internet desde 2008.

Colunista do UOL

07/10/2020 04h00

A primeira vez em que desconfiei que seria duro envelhecer num mundo todo pensado para o conforto de pessoas jovens e sem necessidades especiais foi há cinco anos, quando fiz uma redução de mamas e passei algumas semanas sem poder erguer ou fazer força com os braços.

Na ocasião, percebi que as portas dos bancos pesam toneladas. Eu me virava abrindo todas elas usando os quadris, de forma desajeitada, enquanto xingava bem baixinho quem projetou aquelas abominações. Para subir nos ônibus, a tensão era ainda maior. Talvez os motoristas tenham alguma paciência quando idosos, gestantes ou pessoas com deficiência estão embarcando, mas como não estava escrito na minha testa que eu não podia me segurar com agilidade ou muito vigor naquela situação, levei alguns tombos durante o período — e provavelmente passei por burra. Que tipo de pessoa não se segura direito pra entrar em um ônibus de São Paulo?

Entendi, depois disso, que o pior estava por vir. Só não sabia que seria tão cedo: aos 35 anos, fui agraciada com uma vista embaçada persistente. Deixei de enxergar tudo o que sempre enxerguei — bulas de remédios, cláusulas de contratos, valor nutricional de alimentos nos rótulos. Achei que era coisa da minha cabeça por uns meses, mas a chefia me avisou que eu estava cometendo erros de digitação que nunca cometi. O auge da impotência foi quando tentei achar o botão para interfonar no meu próprio apartamento, à noite, e não conseguia diferenciar os números sem usar a lanterna do celular para iluminar o painel.

O oftalmologista sentenciou: presbiopia — também popularizada como "vista cansada" — um mimo do tempo que as pessoas ganham geralmente depois dos 40 anos de idade, mas fui agraciada antes, porque trabalho lendo e escrevendo há muito tempo. A verdade é que, atualmente, eu adoraria usar um pau de selfie para mexer no celular confortavelmente sem ser julgada pela sociedade (ou sem procurar os óculos).

Até aí, tudo bem

Perder a capacidade de executar tarefas simples com os olhos antes dos 40 não é um grande drama se o sujeito tem acesso a serviços médicos e pode comprar óculos. Raiva de verdade a pessoa levemente idosa vai sentir quando descobrir que quase nenhum cardápio do mundo é feito para quem não tem visão impecável. Nunca reparei nisso antes, e não sei você, mas não estava nos meus planos botar óculos de leitura na hora de escolher bebida antes do meu aniversário de 70 anos. A juventude é repleta de ilusões.

Até aí, tudo bem. Acontece que, um dia, meu braço esquerdo começou a formigar sem motivo aparente. "Infarto", pensei. "Deveria ter fumado menos", completei. Tempos depois, notei que o formigamento tinha a ver com um torcicolo forte de dias antes — e que ele só se manifestava quando eu olhava para o chão. Alguns meses e exames depois, descobri que a mãe natureza me deu mais um presente precoce: hérnia de disco. "Devia ter malhado mais", concluí.

Ter 30+ é meio engraçado porque você tem hérnia, usa óculos, mas está ótimo. Ótimo, nossa! Você esquece umas palavras e nomes quando está tentando contar uma história engraçada, perde o timing do humor porque "como chama mesmo aquele livro daquele autor, esqueci o nome dele", mas existem problemas muito mais sérios no mundo. Segue o baile.

Então, você entra na internet pra dar uma relaxada e descobre que não vai dar mesmo pra se manter a par de tudo o que é novidade se não criar uma conta no TikTok. Você faz o TikTok e tenta seguir conhecidos. Você não consegue nem achar o botão para buscar conhecidos, porque o aplicativo é diferentão demais. Daí, você tenta postar um vídeo e percebe que a quantidade de recursos para produzi-lo demanda uma pós-graduação em edição de vídeo. E você precisa abaixar o volume do celular correndo, enquanto faz tudo isso, porque o aplicativo já abre rodando imagens de gente que você nunca seguiu, dançando e cantando alguma música esquisita a plenos pulmões.

Enfim, o TikTok é uma rede social à prova de velhos. Nada ali é intuitivo nem lógico para um millennial. O aplicativo provoca meus maiores instintos de fazer textão sobre etarismo e sobre como o mundo é excludente com os mais velhos, sendo que eu nem deveria ocupar esse lugar de fala aos 35 anos.

Tá ruim, mas piora

Nas minhas últimas férias, decidi que: 1- ainda sou muito jovem, apesar de tudo; 2- iria mochilar passando por algumas praias que não conhecia, numa grande viagem pinga-pinga em cidades diversas, dormindo em camas variadas usando os travesseiros que Deus colocasse no meu destino.

"Mochilar" é um verbo conjugado por gente com no máximo 25 anos, e há um motivo para isso. Ignorei os sinais e tive recaída da hérnia — que andava sumida — por causa da mochila e de travesseiros projetados pra gente na flor da idade, com pescoço zero quilômetro. Foi aí que me senti a própria Larissa Manoela no quadro "Com o passar dos anos", no programa da Eliana, vendo a própria velhice passar diante de seus olhos.

Meu conselho para qualquer pessoa que tenha 30+ e queira continuar se sentindo jovem é: use mala de rodinhas e leve travesseiro na mão ou amarrado na barriga, se necessário, quando for viajar. São atitudes que a gente chama de frescura até perceber que a juventude não está só na mentalidade, não.

Se você tem mais de 30 anos de idade, não precisa se questionar profundamente se está envelhecendo. Na hora certa, a presbiopia, a hérnia de disco, o TikTok ou os seus amigos mais jovens te avisam.