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Em mundo machista, mulheres que praticam a arrogância vivem melhor

Morning Brew/ Reprodução - Unsplash
Morning Brew/ Reprodução Imagem: Unsplash
Luiza Sahd

Luiza Sahd é jornalista e escritora. Colaborou nas revistas Tpm, Superinteressante, Marie Claire e Playboy falando sobre comportamento, ciência, viagem, amor e sexo. Vive entre São Paulo e Madrid há anos, sem muita certeza sobre onde mora. Em linhas gerais, mora na internet desde 2008.

Colunista do UOL

24/09/2020 04h00

Preciso contar uma história um pouco extensa para explicar, de modo eficiente, como uma pitada de arrogância pode fazer maravilhas pela saúde mental de qualquer mulher. Eu ia simplesmente começar este texto contando uma história pessoal longa mas, quando dei por mim, já estava me desculpando por tomar tempo excessivo de quem está lendo.

A vida da imensa maioria das mulheres que conheço é um pouco assim: a gente não quer incomodar. Estamos geralmente preocupadas em saber se tudo e todos estão bem enquanto fazemos o que precisamos fazer. Atuamos com um desconfiômetro tão exagerado que, no final das contas, acabamos desconfiando de nós mesmas — e isso é algo que aprendemos com os homens e mulheres que vieram antes de nós, de gerações que acreditavam que a função social da mulher deveria ser, sobretudo, a de promover conforto e bem-estar aos demais.

Com o passar do tempo, ocupamos novos postos de trabalho e conquistamos liberdades e responsabilidades inéditas. Agora, só falta a gente se livrar dessa desconfiança ancestral em nós mesmas. A gente tem se ajudado mutuamente nesse sentido (este texto neste espaço na mídia é uma pequena amostra disso), mas os homens não têm conseguido nos apoiar muito nesse sentido — se há alguém que duvide mais dos nossos potenciais do que nós mesmas, esse alguém são os caras.

Uma longa história

Dia desses, acordei com uma ótima notícia. Dois problemas que venho tentando resolver há anos pareciam finalmente estar se encaminhando para um desfecho feliz. Acordei moderadamente contente, mas está havendo uma pandemia. Sem muito ânimo de me arrumar e levar a cachorra ao passeio matinal, fui com ela até a esquina de camisola mesmo, ignorando a opinião de quem estivesse na rua sobre meu look — inclusive porque, agora, todos escondemos as caras com máscaras (e estar vivo é o único luxo viável em 2020).

Essa era a minha opinião, mas o universo tinha outros planos para mim: enquanto me abaixava para exercer o dever cívico de catar o cocô da cachorra da calçada, o movimento apressado dos braços fez com que uma alça da minha camisola estourasse, me deixando em situação de Janet Jackson no Super Bowl 2004 — com um seio à mostra em ambiente público. A diferença é que eu não tinha o Justin Timberlake ou uma plateia apaixonada ao meu redor, mas um saco de cocô e uma coleira numa mão, o celular e as chaves de casa na outra... e uma teta para esconder dos passantes que se divertiam (com razão) da situação ridícula que estava rolando.

No mesmo dia em que isso aconteceu, tudo indicava que eu teria um rombo na conta corrente por perder um prazo para resolver burocracias; depois, descobri que não era nada disso. Foi um dia agitado até para quem está confinada, mas nada disso me abalou especialmente porque minha vida sempre foi essa mistura perturbadora de agitação, encrenca, piada e surrealismo. Eu poderia listar mais dez causos como o da camisola estourada na rua para comprovar a tese, mas daí fico sem assunto para os próximos textos.

O Jardim das Delícias

Não me surpreendo mais com as agruras de meu destino, mas, às vezes, desabafo em redes sociais. No dia supracitado, resolvi fazer a seguinte piadinha no Twitter:

Poucos minutos depois da postagem, chegaram alguns homens me explicando que o quadro que escolhi postar se chama "O Jardim das Delícias Terrenas" e que eles adorariam viver num mundo como aquele. Teve um rapaz que chegou dizendo que passei vergonha fazendo essa piada; outro mandou mensagem privada me parabenizando por "postar acidentalmente" uma obra tão linda. Enfim, me faltou de tudo nesse dia, menos homem pra garantir que eu não sabia o que estava fazendo quando escolhi um quadro do holandês Hieronymus Bosch para descrever uma vida insana. Logo eu, Boschzete de Mello.

Gosto de acreditar que todos esses rapazes ficaram com a visão turva quando encontraram tanta gente pelada numa tela — e já foram concluindo que as cenas retratadas por Bosh no "Jardim das Delícias" eram imagens de paquera e azaração. Não são, conforme historiadores da arte do mundo todo já explicaram melhor do que eu.

Confrontada por tantos bacharéis sobre a piada com o quadro, precisei ser meio arrogante e explicar que sabia, sim, do que eu estava falando quando fiz essa graça. Fui vizinha do quadro de Bosch durante quatro anos em Madrid, e adorava passar tempo vendo os detalhes tenebrosos da pintura — inclusive porque eles não têm fim, assim como as coisas estranhas que me acontecem. No "Jardim das Delícias", assim como na vida da maioria de nós em 2020, muita coisa acontece — e qualquer pessoa que olhe atentamente os detalhes ali vai perceber que ela é extremamente perturbadora. De delicioso, o quadro só tem o nome e as cores. Recomendo vivamente o perfil Bosch Bot para ver detalhes inusitados da obra:

Voltando à questão da arrogância feminina, ninguém tem a obrigação de manjar sobre Bosch. Nem eu tenho, mas foi incômodo perceber como funciona a desconfiança dos homens (exclusivamente, homens) que chegaram correndo para me explicar a piada que eu mesma tinha feito. Eles também não são, claramente, especialistas em arte — mas chegaram palestrando a respeito de algo que não sabem a alguém que sabe, sim. É 10% dessa autoconfiança a que desejo para todas as mulheres. Mas só 10%, porque passando disso, a pessoa acaba fazendo papelões desnecessários como eles. E um pouquinho da arrogância também. É ela que venho cultivando, especialmente quando algum homem questiona habilidades que de fato tenho. Aqui nos comentários da matéria, você provavelmente encontrará bons exemplos do que estou dizendo.

Impostora, eu?

A síndrome do impostor não é uma discussão nova no universo feminino. Ela é tão antiga quanto a ascensão de mulheres a posições de liderança no mercado de trabalho — e tem a ver com o fato de que somos duplamente questionadas quando ocupamos espaços que eram tradicionalmente masculinos.

Além de uma paciência infinita para não perder a elegância quando alguém é deselegante conosco, um pouco de arrogância pode ajudar qualquer mulher a lembrar que, se ela está ocupando um certo espaço, dominando um certo assunto, brilhando, enfim, ela tem esse direito. Brilhar deveria ser permitido a todos e, como os homens nos ensinam com maestria, a pitadinha de arrogância serve como uma armadura de Teflon para impedir que frustrações pessoais de terceiros grudem na gente.

Praticar uma arrogância discreta não é, de jeito nenhum, insinuar que as outras pessoas são menores do que nós; se trata, simplesmente, de deixar claro que sabemos o que estamos fazendo e que merecemos estar onde estamos. É um pequeno passo para qualquer mortal que tenha o cuidado genuíno de saber do que está falando quando abre a boca, mas um grande passo para qualquer mulher acometida por excesso de semancol.

Para exercitar arrogância aí na sua casa ou no trabalho, você também vai precisar dizer o que precisa ser dito de forma muito educada. Primeiro, porque bater boca com pessoas violentas não produz nada além de aborrecimento. Segundo porque nada assusta mais as pessoas grosseiras do que a educação e a firmeza de uma mulher que não duvida de si mesma quando todo mundo em volta segue duvidando. O que algumas pessoas podem chamar de arrogância feminina a gente pode chamar aqui de reparação histórica.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL