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Luciana Bugni

Atenção, fiscais da quarentena: para vocês não tem recesso esse ano, não

Natal é prova de fogo para um fiscal da quarentena - Pexels
Natal é prova de fogo para um fiscal da quarentena Imagem: Pexels
Luciana Bugni

Luciana Bugni é gerente de conteúdo digital dos canais de lifestyle da Discovery. Jornalista, já trabalhou na "Revista AnaMaria", no "Diário do Grande ABC", no "Agora São Paulo", na "Contigo!" e em "Universa", aqui no Uol. Mora também no Instagram: @lubugni

Colunista do UOL

23/12/2020 14h16

Outro dia aqui no sofá, estava esta colunista controlando uma crise de ansiedade diretamente no pote de sorvete. De flocos. Na TV, o governador do meu estado prometia uma vacina que ainda não estava aprovada. Dizia inclusive as datas em que minha mãe seria imunizada. E a sua também. Eu fiquei atenta, claro. No meio do discurso, ele disse que contrataria fiscais da quarentena. Opa!

Ser fiscal da quarentena é seguramente a profissão mais desgastante que já tive. Tenho nove meses de experiência nessa área e nem um minutinho de descanso. Muito menos remuneração.

O pior é que é um emprego que encavala com os outros. Por exemplo, estou em uma reunião, falando de Largados e Pelados, e me distraio por um momento olhando a janela. Pronto. Lá embaixo tem um passeador de cães sem máscara. Passando na calçada apertada onde dois porteiros do meu prédio conversam e fumam. Socorro.

Estou aqui tentando escrever uma coluna que abrace meu leitor virtualmente numa data complicada em que muita gente não será abraçada por ninguém. Mas tem uma galera no prédio do lado aglomerada num quiosque ao lado da churrasqueira cantando Evidências ABRAÇADOS. Já era. Ativado o modo fiscal. Como eles têm coragem?

Cada post de profissionais da saúde que eu replico no Instagram é uma chuva de unfollow. Ninguém quer ser amigo de um fiscal de quarentena. Ninguém quer ver tristeza no Instagram. Seria melhor eu abraçar alguém e cantar Evidências com uma Coronita na mão? Para a saúde da minha rede social, aparentemente sim.

Não, o governador do meu estado não vai me remunerar por essa função. O que consegui nessa patrulha? Bem, não adoeci. O pessoal da minha família, todos seguindo carreira na área de fiscal, também segue saudável. Claro, obtive altas dosagens de ansiedade. E alguns quilos intermediados por grandes quantidades de sorvete de flocos. E o que eu consegui de inimizade...

Um emprego sem férias

Mas tudo isso não seria um problema. O que mais me entristece é a falta de recesso. Esse ano, quando os patrulheiros da Covid fecharam o computador de seus outros empregos, começou o freela final de ano mais puxado da história. Segue um breve resumo das funções do cargo:

  • Segura o dedinho do seu tio que quer pegar uma azeitona da maionese com o dedo lambido.
  • Segura a namorada nova do seu primo que quer um gole do seu Moscow Mule.
  • Segura seus sobrinhos que chegaram da rua direto abraçando seu pai.

Segura sua paciência, põe molho no peru, pega seu pratinho e vai comer lá na garagem. Aí sim, tira a máscara. E respira. Separa as uvas passas no cantinho e come, se ainda tiver apetite.

Isso pensando que você, caro fiscal, cedeu aos apelos da humanidade por mais mortes e foi para o Natal. Se conseguiu resistir a essa pressão e está sozinho em casa com quem mora com você (mesmo que sejam plantas e gatos), talvez seja mais fácil.

Tente ficar longe das redes sociais. Tem uma infinidade de filmes bobos de romances natalinos para te tirar da realidade. E saiba que você não está sozinho. Tem uma equipe inteira de fiscais exaustos, clamando pela extinção dessa profissão ou melhores direitos trabalhistas.

Em alguns meses, vou entrar na fila da vacina satisfeita por pedir demissão desse cargo. Jogo meu crachá assim que todos estiverem protegidos e inocentes deixarem de morrer graças ao egoísmo de outros. Espero não precisar usar a experiência adquirida nunca mais na minha vida.

Aí, vou em busca de recuperar as amizades. Eu que lute. Você pode me fazer companhia no Instagram.