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Luciana Bugni

Você ainda consegue consumir conteúdo sem diversidade racial?

Cara Gente Branca: depois de ver algumas séries, ficar esquisito qualquer conteúdo sem diversidade -
Cara Gente Branca: depois de ver algumas séries, ficar esquisito qualquer conteúdo sem diversidade
Luciana Bugni

Luciana Bugni é gerente de conteúdo digital dos canais de lifestyle da Discovery. Jornalista, já trabalhou na "Revista AnaMaria", no "Diário do Grande ABC", no "Agora São Paulo", na "Contigo!" e em "Universa", aqui no Uol. Mora também no Instagram: @lubugni

Colunista do UOL

20/11/2020 04h00

Meu filho João tem três anos e oito meses. Seu avô é negro, seu pai é negro de pele clara. Ele, misturado com a minha genética, tem a pele mais clara ainda. Mas sua ascendência, obviamente, é negra.

João não sabe que existe o racismo. O que seu pai sente, ele provavelmente não vai viver. Sua pele vai passar despercebida no embranquecimento natural da sociedade, se não lembrarmos, enquanto ele cresce, a importância da representatividade e de suas origens. Procuramos fazer isso ao escolher os programas que assistimos na TV, ou comprar livros infantis para ele.

Uma das histórias favoritas de meu filho é a da Cachinhos Dourados. Eu também gostava dessa história, cuja protagonista no meu livro, há mais de 30 anos, tinha a pele rosada, os olhos azuis e o cabelo muito amarelo. No livro de João, em que todos os personagens dos contos é representado por personagens da Turma da Mônica, a cachinhos dourados é a Cascuda, uma menina negra. Nós nem tínhamos percebido que a pele das Cachinhos Dourados da minha e da infância dele eram diferentes.

Elza Soares - Carine Wallauer/Universa - Carine Wallauer/Universa
Uma mulher negra pode ser a Cachinhos Dourados? Pode.
Imagem: Carine Wallauer/Universa

Certa vez, eu estava lendo a biografia da Elza Soares, escrita por Zeca Camargo. Ele me perguntou que livro era aquele e eu disse que a história de uma cantora muito famosa. Ele falou que ela era muito bonita e parecia a Cachinhos Dourados. Representatividade importa, sim. Quando você associaria a imagem de uma mulher preta com o cabelo com luzes à personagem?

Tenho tido dificuldades de assistir os filmes dos anos 90 que pautaram minha vida. Não consigo mais achar normal elencos 100% brancos. Talvez tenha sido bem acostumada com o consumo nas séries que vejo em streaming atualmente: o cuidado com diversidade é nítido e o protagonismo é garantido na maioria dos casos. Há amores interraciais. Há personagens negros que não estão em posição inferior, como cresci vendo nas novelas brasileiras. Se passei a vida achando que o Leonardo do Caprio era o garoto mais bonito de Hollywood, hoje Idris Elba tem seu lugar no meu coração como meu galã favorito. As coisas mudam, ainda bem.

Helena Bertho, head de comunicação, sustentabilidade e diversidade da LÓreal, falou para os funcionários da Discovery, onde trabalho, na tarde desta quinta (19). Entre várias vivências profissionais, ela contou que sua filha, Olívia, já está totalmente ligada em representatividade. Ela estranha, por exemplo, não haver mulheres negras nas caixas de tinta que a avó usa para pintar o cabelo. No caso dos programas de TV, a garota de 7 anos passa direto por aqueles que não a representem.

Já falei aqui das coisas que meu marido, o jornalista esportivo Rodolfo Rodrigues, me ensina. Um dos fatos que ele acha chocante em sua profissão é que mais jogadores de futebol brancos virem comentaristas esportivos, enquanto vivemos em um país em que a maior parte dos atletas desse esporte são negros. Temos muito ainda por caminhar e aprender.

João acha que Gilberto Gil no violão parece seu avô. Que Elza Soares parece a Cachinhos Dourados. Que o Papai Noel é o Papai Noel, oras. Seja na propaganda da Coca-Cola que estampa um quadro na casa da avó, seja no filme "de adulto" da Netflix (Amor com Data Marcada, em que um dos personagens é um homem negro que faz o Papai Noel no shopping).

E eu adoro O Casamento do Meu Melhor Amigo ainda. Só acho estranho só ter brancos naquele triângulo amoroso. Acho Ashton Kutcher uma graça, mas estranho que ele tenha se envolvido com mulheres brancas em todos os filmes bobos que assisti.

 "Uma Invenção de Natal" e o elenco impensável na minha infância - Divulgação/Netflix - Divulgação/Netflix
"Uma Invenção de Natal" e o elenco impensável na minha infância
Imagem: Divulgação/Netflix

Neste ano, a Netflix tem uma série de lançamentos de Natal com elenco diverso. Levanto a cabeça enquanto escrevo e a propaganda de um banco mostra duas pessoas negras conversando. Comento com meu marido: "Tem mais diversidade, né?" Ele responde: "2020, e ainda é pouco".

O comercial acaba e volta o Jornal Nacional com sua bancada branca. Mulheres brancas comentam a maior representatividade negra nas bancadas de vereadores. A gente ainda vai ter que se incomodar muito ainda.

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Você pode me encontrar também no Instagram.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL