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Luciana Bugni

Flores pra postar no Insta ou roupa limpa no varal: o que é mais romântico?

Rafa Kalimann após pedido de namoro: uma pessoa comum, uma filha de Deus - Reprodução/Instagram
Rafa Kalimann após pedido de namoro: uma pessoa comum, uma filha de Deus Imagem: Reprodução/Instagram
Luciana Bugni

Luciana Bugni é gerente de conteúdo digital dos canais de lifestyle da Discovery. Jornalista, já trabalhou na "Revista AnaMaria", no "Diário do Grande ABC", no "Agora São Paulo", na "Contigo!" e em "Universa", aqui no Uol. Mora também no Instagram: @lubugni

Colunista do UOL

12/11/2020 04h00

Não chega a ser amargura. Mas é que a gente está meio sem tempo para o romantismo tradicional nesse 2020. Sabe como é, o presidente debochando da gente todo dia, o desemprego aumentando de maneira galopante, o home office comendo a sanidade, o medo constante de sair na rua e contrair uma doença que pode ser letal ou transmitida nos próximos 15 dias... Não está muito fácil ter tempo de comer bombons de cereja olhando a Lua, essas coisas.

E outra: cadê o espaço nas casas comuns para jogar pétalas no chão, fazer um jantar à luz de velas num terraço, compor uma música e sei lá, de repente, soltar fogos de artifício pelo céu que deixem claro seu amor? Quer dizer, isso é comigo e meu problema de casa pequena. Rafa Kalimann tem mais espaço na casa onde está hospedada, e a internet ficou meio eufórica com o pedido de namoro que incluía todos os itens acima. Se o cara queima tudo isso de cartucho e mais fogos de artifício para pedir em namoro, imagina o que ele vai fazer no casamento, né?

O advento das redes sociais trouxe mais essa piração para a nossa já pirada cabeça. Se a as grandes manifestações românticas não forem instagramáveis, talvez o amor seja pouco. Quem vive os relacionamentos de verdade, offline, sabe que isso é uma bobagem. Muitos dos casais que se amam demais nas redes, para todo mundo ver, podem estar vivendo uma crise daquelas quando o wi-fi desconecta. Amor é só a gente que mede e não há número de likes que salvem relação capenga. Não dá para se comparar.

Passei a primeira metade de minha vida assistindo comédias românticas demais, mas nunca deixei de me surpreender com pedido de casamento em balão na Turquia, em piquenique na torre Eiffel, em anel dentro da taça de champagne. Claro que é legal que os casais vivam seus romances, é bonito demais de ver. Mas não é um pre-requisito para uma vida feliz. O amor se constrói no dia a dia. No fim, alegria de verdade é ver a panela de pressão lavada e o feijão já congelado em potinhos. É, isso não fica bonito no Instagram.

O pedido de casamento mais bonito que me lembro do cinema é o de Ben Aflleck para Jennifer Aniston em "Ele Não Está tão Afim de Você", quando ele garante que vai limpar o cabelo dela que fica no ralo depois do banho. PARA O RESTO DA VIDA. Isso é que é amor, antever um potencial motivo de briga e já resolvê-lo. O casal que começa sabendo o que vai ter de sublimar dos defeitos do outro tem mais chance de dar certo.

Também tenho meus bons gostos e nunca vou reclamar de jantares em rooftops dessa vida ou de joias escondidas no travesseiro. Mas o verdadeiro romance, aquele que se constrói no dia a dia, está num varal cheinho de roupa limpa, numa mensagem para saber como o outro está no meio da tarde, numa panqueca na cama sábado de manhã com o jornal, em uma taça de vinho na varanda olhando a chuva quando se dá a sorte das crianças dormirem mais cedo num dia de semana.

A maioria dessas coisas, a gente não posta o Instagram — se gastarmos o tempo postando, não sobra nada para o romance em si, e esse é bom demais. Nem luxo, nem lixo. Rita Lee sempre soube tudo de aproveitar a vida.

Mas, claro, você pode discordar de mim no Instagram.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL