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Luciana Bugni

Pandemia é a eterna briga dos nerds e a turma do fundão. Quem ganha?

Pandemia e a filosofia do ser malandro para não ser mané - evgenyatamanenko/Getty Images/iStockphoto
Pandemia e a filosofia do ser malandro para não ser mané Imagem: evgenyatamanenko/Getty Images/iStockphoto
Luciana Bugni

Luciana Bugni é gerente de conteúdo digital dos canais de lifestyle da Discovery. Jornalista, já trabalhou na "Revista AnaMaria", no "Diário do Grande ABC", no "Agora São Paulo", na "Contigo!" e em "Universa", aqui no Uol. Mora também no Instagram: @lubugni

Colunista do UOL

05/11/2020 04h00

Quando eu era criança, sentava na primeira fila da escola. Não fazia bagunça. Lia os livros que me pediam e vários outros que nem haviam sido pedidos, a ponto de passar os intervalos na biblioteca da escola. Sim, não tem como negar: eu era nerd.

O nerd vive por essência dentro de uma margem segura, onde as coisas, pelo menos as consequências de suas atitudes, não vão dar errado. O que o nerd puder fazer para evitar que "dê merda", ele faz. Para não ir mal nas provas, ele estuda; para não deixar a mãe brava, obedece; para não propagar uma pandemia, fica em casa.

Do outro lado da sala, tem a turma do fundão. Uma galera muito mais alegre, que se preocupa muito menos e tem sempre um biquini no fundo da mochila para ir à praia numa terça-feira de manhã em vez de ir para a aula de geografia. Mesmo que a praia mais próxima fique a 70 km de distância.

A turma do fundo toma vinho barato no intervalo. Vai na casa do Rafa de tarde fumar maconha. Só estuda na semana de prova — e olhe lá. Esse pessoal é que vive a vida de verdade e está sempre sorrindo. Como eu queria ser eles.

Ser nerd é muito cansativo e impopular. Na chegada da adolescência, eu já estava culpando meus pais por viver meio de canto na primeira fila e comecei a chutar algumas cercas rumo ao fundo da sala. Eu queria mesmo era aglomerar. Tentei fumar para tirar o rótulo. Tomava um negocinho aqui e ali, de vez em quando. Aprendi a jogar truco. Fiquei com uns caras. Funciona, um nerd pode facilmente se disfarçar de malandro.

No terceiro ano, eu já era melhor no disfarce do que na nerdice, vivia matando aula e, bem, deu errado. Não passei no vestibular. Mesmo passando a vida como nerd, se fizer algo errado, as consequências virão.

O que aconteceu é que eu me iludi. Achei que era uma ex-nerd. Bobagem, a nerdice nunca sairia de mim.

Chega a vida adulta e os dois grupos se misturam. No mercado de trabalho, ninguém vem com o crachá de CDF. E o que tem de chefe que colou em todas as provas de matemática que fez na vida, não está escrito.

É uma bagunça. Tem estudioso que odeia o que faz e vira um inconsequente roubando sulfite da impressora. Tem malandro que ama seu trabalho e vira um certinho com selo do Inmetro.

A gente se junta em grupos de amigos adultos. A gente casa entre si. A vida adulta é a paz entre nerds e fundão. Nem parece que um sofria bullying e outro fazia bullying há 25 anos. Como é bom ser adulto.

Quer dizer, aí vem uma pandemia. Uma pandemia, aprendemos só em 2020, tem regras rígidas. Por exemplo: no começo não pode sair de casa. Chama quarentena. Se pegar a doença, pode não acontecer nada ou você pode morrer — e ainda mais provável, matar sua avó.

A maioria obedeceu, mas fundão começou a cansar. Em meses e, num passe de mágica, geral estava na rua sem se importar com o que podia acontecer. Quem apareceu bem nessa hora? Minha alma nerd, adormecida por anos de malandragem. E ela ficou desesperada.

Eu tento demover as pessoas de seus passeios como quem tentava na escola convencer meninas de 15 anos a não descer para praia com alguém que havia acabado de tirar habilitação.

Ia dar errado, eu sentia. Já estava dando. Aí comecei a perder amigo, que morreu com a doença. Veio a exigência das máscaras, o fundão alucinado se recusando a usar. E eu escondida em casa, o nariz colado na lousa, prestando atenção no que diz a professora (a ciência). Do lado de fora, o presidente do meu país, um cara metido a fundão mas que de malandro não tem nada, dava ordens erradas.

Chegamos em novembro. O fundão triunfou. As festas deles são mais legais, as fotos deles ficam mais bonitas sem máscara. Os bares que eles frequentam são mais divertidos, a vida é deles infinitamente mais interessante que a minha.

Estou na sétima série outra vez, trancada em casa lendo livros. Tento sair às vezes. Na volta, a ressaca moral dura 15 dias. Alguns amigos me ligam indignados (agora devem ser cerca de três). "Mas continua morrendo gente, a pandemia não acabou", dizem eles aterrorizados, pois estudaram.

Sim, continua morrendo gente. A pandemia não acabou. E, de novo, estamos isolados, com medo de falar o que pensamos e parecer ridículos. Minha alma é de nerd. Eu não consigo ceder.

Uma vez, aos 17 anos, topei ir para a praia com o pessoal durante uma manhã letiva. Ficamos na Praia Grande, tempo nublado, tomando vinho de péssima qualidade com medo de sujar o uniforme. Voltamos preocupados que nossas mães percebessem o atraso na saida da escola. Cheguei em casa e deu tudo certo. Lavei a areia do uniforme e lembro de ter pensado: valeu a pena tudo isso só para contar uma história?

Eu diria que não. A gente não precisa dividir caipirinha e cigarro justamente em 2020. E a máscara não incomoda tanto assim — vocês já usaram sutiã? Ouvir os nerds, o jornalismo e a ciência não vai matar ninguém. Pelo contrário.

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL