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Luciana Bugni

Emily em Paris traz preconceitos dos 80 e é sucesso. Militância descansou?

Emily bebeu demais e está tentando abrir o portão de casa: olha o vizinho que aparece para ajudá-la... - Reprodução/ Netflix
Emily bebeu demais e está tentando abrir o portão de casa: olha o vizinho que aparece para ajudá-la... Imagem: Reprodução/ Netflix
Luciana Bugni

Luciana Bugni é gerente de conteúdo digital dos canais de lifestyle da Discovery. Jornalista, já trabalhou na "Revista AnaMaria", no "Diário do Grande ABC", no "Agora São Paulo", na "Contigo!" e em "Universa", aqui no Uol. Mora também no Instagram: @lubugni

Colunista do UOL

10/10/2020 04h00

Emily em Paris, a série que a Netflix lançou no começo de outubro, é daquelas bobagens que não acrescenta muita coisa positiva. Emily é bonita, rica, tem um bom emprego, é sempre genial em suas estratégias profissionais. É magra, tem roupas caríssimas de grife. Desfila com salto agulha pelos paralelepípedos de Paris com a desenvoltura com a qual eu caminho de pantufas pela minha casa. Tem uma chefe que é retratada como louca.

É, parece uma coletânea de filmes que a gente já viu — e viu faz tempo, por muito tempo. Dá para dizer que foi por isso que a geração que cresceu nos 80 e 90 amadureceu tão cheia de amarras e estereótipos. A gente viu filme bobo demais. E não aguenta mais ver. Quer dizer...

Na semana de seu lançamento, a série ficou entre as 10 mais vistas da plataforma. Mulheres empoderadas, modernas, cientes das urgências de equidade de gêneros em tempos tão retrógrados, amaram a série. Essa autora que vos escreve inclusa no pacote de pessoas que viram os episódios inteirinhos, até terminar. Num tipo de "eu sei que não devia, mas vou ver mais um", seguimos afirmando para a Netflix que sim, ainda estávamos assistindo, até acabar os 10 episódios de 30 minutos cada. Mas o que aconteceu com a militância?

Emily não é uma garota incorreta. Ela até pontua para o cliente que a propaganda com nudez feminina é sexista. O cliente decide usar o argumento a seu favor (e da nudez), fazendo uma campanha nas redes sociais. O corpo nu é exibido e o público indagado: é sexy ou sexista? Emily se dá por satisfeita. Tudo bem abusar da imagem da mulher desde que a campanha pegue bem para ela mesma. A militância foi fumar um cigarro embaixo do Arco do Triunfo. Na boa.

Ela também compreende as questões de sua chefe, que sempre está doida para se livrar da americaninha que insiste em trabalhar de um jeito moderno e criativo. Emily está sempre certa, uma heroína. Até quando se apaixona pelo vizinho, namorado de uma amiga. Você fica ali assistindo e se perguntando: não vai dar nada errado? Não vai. Mas todo mundo vai querer ficar com ela o tempo todo? Opa, sim. Ela não vai cair com esse salto finíssimo andando na rua comendo um croissant? Não vai, me desculpe o spoiler. Emily é perfeita e até quando algo dá errado, reverte de maneira positiva para ela. Mais ou menos o oposto da vida da mulher comum — eu e você.

Minha amiga, a empresária Marina Vaz, foi a voz da razão nas discussões virtuais sobre o assunto em meu círculo. "Todo o sucesso que ela teve na série foi porque homens estavam interessados nela. Não havia mulher que a ajudasse profissionalmente, pelo contrário: a chefe só queria a destruir. Seriado feito por homens que não tem noção nenhuma de como é a cabeça das mulheres", ela me disse.

Eu fiquei pensando: será que eu gostei porque descansou minha cabeça numa semana complicada, exatamente porque não trouxe grandes questionamentos? Eu virei o comentarista do UOL, que vive dizendo que bons eram os anos 80, quando era livre o preconceito? Que medo.

Minha amiga Nina Lemos explicou maravilhosamente bem porque o seriado irritou os europeus. E na voz de imigrante vivendo na Europa, ela sabe bem do que está falando. "Hummm, sinceramente? Acho que essa geração, a mesma que vai para a rua pelo 'Black Lives Matter' e que luta contra o aquecimento global merece mais. Estou falando que o seriado é uma distração ruim? Não. Mas as garotas independentes de 2020 mereciam uma representante melhor". Tem toda a razão.

Liv Brandão, editora do Splash, aqui nesse UOL, sabe tudo de série. Consome coisas de gente sabida, lê livros e... adorou Emily em Paris. "Posso contar para os outros que você gostou?", eu perguntei. "Pode contar sem culpa. É horrível. Eu amei", ela disse. "É preciso estar atenta e forte, claro, mas tem horas que a gente só quer ver lindos looks, um vizinho gostoso e sonhar com o dia em que o micróbio — e a economia do país — vai nos deixar ir a Paris". Me dei por satisfeita.

Emily não vai salvar o mundo. Ela só quer salvar a si mesma. No caso dela, o jogo está bem favorável. Longe da diversidade, das questões humanitárias, dos abismos sociais, ela flana com seu salto agulha por uma Paris belíssima. A gente fica ali tentando ver um pedaço da Torre Eifel, tentando entender como é que pode um vizinho ser tão bonito, como pode caber tanta roupa nova em apenas duas malas, como pode todo mundo beber vinho todo dia na hora do almoço. Não é nossa vida, não é uma vida plausível. Mas deve ser gostosa, ah isso deve.

A militância não está descansando, ela só está cansada no Brasil de 2020. Seguimos tentando estar atentas e fortes, mas um croissant uma hora ou outra não mata ninguém.

Vocês podem me mostrar mais fotos de Paris, no Instagram. Vou curtir todas.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL