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Juliana Borges

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Comida e afeto: quando o que é servido no casamento é uma prova de amor

FG Trade/Getty Images
Imagem: FG Trade/Getty Images
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Juliana Borges

Juliana Borges é escritora, feminista e pisciana, logo, romântica e sonhadora. Já chegou a negar a instituição casamento, mas está noiva e já pensando em filhos. É fã de Beyoncé, Nina Simone e Miles Davis. Autora dos livros "Encarceramento em Massa" (2019) e "Prisões: Espelhos de Nós" (2020).

Colunista de Universa

21/03/2022 04h00

Entre as várias leituras e papos sobre casamento, recebia conselhos que eu entendia como mensagem cifrada até hoje: os dilemas. Eu sempre achei que seria um tanto assertiva sobre o casamento - e em alguns aspectos, sou mesmo. Mas há coisas, principalmente quando muito afetivas, que estão tirando o meu sono, literalmente. O dilema da semana é: quem irá cozinhar no meu casamento?

Na minha família, assim como eu, acredita que, cozinhar é um ato de afeto. Uma maneira de demonstrar que nos amamos e que amamos amigos. Até hoje, não tem jeito melhor de eu me desculpar, após uma explosão de falta de paciência, com minhas irmãs do que cozinhando algo que eu sei que elas adoram, como, por exemplo, minha torta de maçã.

Não é me gabando, já me gabando, mas minha torta de maçã é um fenômeno entre amigos e familiares que já a experimentaram. E esse meu jeito foi herdado de várias gerações de mulheres e homens da minha família. Meu falecido tio Pedro, por exemplo, era o nosso campeão da cozinha afetiva. A sua famosa -e saudosa - feijoada era preparada em cuidadosas e extensas etapas, como se ele demonstrasse ali, em todo aquele empenho, que o amor era intenso por toda a família.

Toda e qualquer comida de minha mãe sempre foi carregada de um tempero próprio e até o modo com que ela envolvia e mexia e misturava os ingredientes, envolvia delicadeza e cuidado. Minha tia Marina é que prepara as empadas e tortas mais espetaculares que já comi. Minha relação com uma figura que não é da família sanguínea, mas é minha família afetiva e escolhida. Dona Carmen, também passa pelos almoços e jantares ao redor de sua mesa, em que percebo o quanto ela se satisfaz em nos ver comer com vontade e alegria os pratos por ela preparados.

E tudo isso, apenas para demonstrar um pouquinho da aflição que toma meus dias para decidir quem irá preparar o cardápio do casamento. Muitas são as mulheres e homens, familiares e amigos, que já me enviaram mensagens dizendo que estão à disposição para esse preparo. E meu dilema é: como definir? Até porque quero essas pessoas curtindo a cerimônia e a festa comigo.

Alguém poderia dizer que o melhor a se fazer é contratar uma empresa especializada. E pode ser verdade. Pode ser o ideal e o correto. Mas eu conheço essas pessoas que me cercam e que me ensinaram a afetividade de um preparo para alimentar pessoas. De algum modo, terei que garantir que cada um e cada uma possa contribuir.

E esse texto de hoje não é, de "jeito maneira", uma reclamação. Acredito que muitas e muitos estão lendo e pensando: "Poxa, Juliana, passa esse dilema para mim". É um bom dilema! Mas nem por isso deixa de sê-lo. A única certeza que tenho é de que: todos e todas convidadas receberão o melhor cardápio e sabor em suas mesas.