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Isabela Del Monde

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Quantas pessoas trans ainda vão ter que morrer para que preconceito acabe?

Paulo Vaz, policial civil e influencer trans, foi encontrado morto em sua casa na segunda-feira (14) - Reprodução/Instagram
Paulo Vaz, policial civil e influencer trans, foi encontrado morto em sua casa na segunda-feira (14) Imagem: Reprodução/Instagram

Colunista do UOL

17/03/2022 04h00

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Essa semana o Brasil perdeu uma pessoa extremamente importante para a construção de uma sociedade igualitária. O policial civil, influencer e ativista Paulo Vaz, conhecido como Popó, nos deixou na segunda-feira (14), após enfrentar uma realidade que não o reconhecia, que o violentava e que, ainda por cima, tripudiava sobre suas feridas. Um dia antes, havia sido vítima de ataques transfóbicos nas redes sociais. O caso está sendo investigado pela polícia.

Deixo aqui expressa toda minha solidariedade aos familiares, ao marido de Popó e à toda comunidade trans e travesti que chora a perda de mais um dos seus. Não faço ideia do que é perder um filho ou perder seu companheiro de vida e, ao escrever este texto, espero colaborar com a preservação do legado de Popó para todas as pessoas.

Infelizmente, esse não é um caso isolado. A comunidade trans e travesti está, diariamente, informando a sociedade sobre as violações que sofrem. Muitas pessoas ainda tratam essa população de forma desumanizadora e com completo desrespeito, sem se darem conta de que são beneficiadas pelo privilégio cisgênero.

Ser uma pessoa cis, ou seja, alguém que se reconhece com o gênero que lhe foi atribuído no nascimento, é um privilégio porque é a garantia de não ser violentado por conta de simplesmente ser quem se é. Assim como ser cis não é uma escolha, ser trans e travesti também não é. As pessoas simplesmente são. E, para mim, é revoltante a ideia de que há pessoas que se sintam no direito de violentar outras por aspectos de suas personalidades sobre os quais não há escolha nem controle.

Como forma de jogar luz à realidade das vidas trans, travestis e não binárias, a cidade de São Paulo, por meio de pesquisa da Secretaria Municipal de Direitos Humanos e Cidadania encomendada ao CEDEC (Centro de Estudo de Cultura Contemporânea), realizou, entre 22 de dezembro de 2019 e 7 de novembro de 2020 uma pesquisa que resultou no Mapeamento de Pessoas Trans no Município de São Paulo.

Esse estudo inédito concretizou em dados aquilo que essa população já sentia na própria pele. O levantamento identificou, por exemplo, que 48% das pessoas com esse perfil têm entre 21 e 30 anos. Isso é um forte indicativo de que muitos morrem antes dos 40 anos, por exemplo.

A pesquisa revelou também que 57% das pessoas se identificam como negras e, por isso, também estão sujeitas às violações do racismo. Além disso, 64% das travestis de São Paulo não têm formação técnica, ou seja, não conseguiram permanecer nos ambientes educacionais por conta da transfobia ou nem mesmo puderam acessá-los devido à precarização de suas vidas.

Isso é um dos fatores que explicam por que 46% das travestis do município são trabalhadoras sexuais e 58% das trans e travestis realizam trabalho informal ou autônomo, de curta duração. Essa pesquisa investigou, ainda, aspectos como renda (com recorte entre renda e raça), a frequência com a qual essa população realiza consultas médicas e por quais motivos deixam de se consultar, uso de álcool e drogas, mudanças e mutilações corporais e recorrência de violências causadas por outras pessoas.

De todos esses dados, um dos que mais me choca é a idade que o entrevistado pela pesquisa tinha quando deixou de morar com os pais. 37% das travestis e 31% das mulheres trans deixaram de viver na mesma casa de seus pais com 15 anos ou menos. Você consegue se imaginar deixando a segurança da casa dos adultos sendo ainda uma criança? Eu, particularmente, acho isso inimaginável porque, com essa idade, eu ainda sabia quase nada de como o mundo funcionava. Certamente teria sido alvo de muita exploração da minha ingenuidade e vulnerabilidade. Quanto aos homens trans, a pesquisa identificou que 53% dele foram embora da casa dos pais entre 16 e 20 anos.

As vidas trans, travestis e não binárias importam. São pessoas, como quaisquer outras, que têm múltiplos talentos e potências que merecem ser desenvolvidos, valorizados e compartilhados conosco. Quantas pessoas geniais se foram? Quantos corações em luto estão vivendo por aqui por conta de suas partidas? Quanto perdemos para a intolerância?

Convido você que me lê a dar uma olhada no Mapeamento de Pessoas Trans no Município de São Paulo, além de procurar mais informação e conteúdo criado por pessoas LGBTQIA+. Você só tem a ganhar.