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OPINIÃO

Dani Calabresa no BBB é a 'resposta' que vítimas de assédio quase nunca têm

Dani Calabresa estará na próxima edição do BBB Imagem: Reprodução / Internet
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Isabela Del Monde

Colunista do UOL

23/12/2021 04h00

Recentemente, a TV Globo anunciou que Dani Calabresa será a âncora do quadro CAT BBB, em substituição a Rafael Portugal. Para quem é fã do programa —ou passou a acompanhá-lo por causa do isolamento social provocado pela pandemia— é uma notícia bastante agradável, especialmente pela competência que essa mulher tem em nos fazer rir.

Para mim, porém, há duas camadas adicionais que deixam essa notícia ainda melhor: a participação fixa de uma mulher no próprio BBB (Ana Clara, essa incrível apresentadora, conduzia, até o BBB passado, atrações vinculadas ao programa, mas paralelas a ele) e a ascensão de uma denunciante de assédio moral e sexual.

Desde seu lançamento, o BBB teve apenas Marisa Orth como uma presença feminina fixa, lá na primeira edição e, mesmo assim, permaneceu por pouco tempo. Desde então, mesmo contando com boa parte da audiência composta por mulheres, nenhuma outra de nós esteve ali, fixa como apresentadora ou com um quadro exclusivo. É mais uma vitória nossa!

Entretanto, Dani não é apenas uma excelente artista extremamente reconhecida e aclamada no que faz. Ela é, também, uma mulher que teve a coragem de reportar, para o compliance da TV Globo, comportamentos sexuais que poderiam, após apuração, ser considerados inadequados por parte de um ex-diretor de humor da emissora. O caso segue em segredo de Justiça.

Ela não foi a única vítima a reportar esse diretor para o departamento de compliance, mas foi a única que revelou, ao público, sua identidade. E, claro, enfrentou reações do acusado, que alegava que seria impossível que o seu relato fosse verdadeiro por razões sem fundamento na realidade, como o fato de eles trocarem mensagens ou manterem uma relação de cordialidade.

Não custa lembrar que de acordo com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, em 2020, 86,9% das vítimas de estupro no Brasil eram do sexo feminino e em 85,2% dos casos o autor era conhecido da vítima. Ou seja, a violência costuma ocorrer dentro de nosso círculo íntimo e, justamente por isso, é tão difícil reportá-la ou encerrar definitivamente qualquer contato com o agressor.

Também não devemos esquecer que ele mantinha com ela uma relação de hierarquia, já que era diretor de humor da emissora. Portanto, ela tinha até mesmo responsabilidades de respondê-lo e tratá-lo com urbanidade. Você, leitora, nunca se sentiu forçada a esboçar um sorriso ou um gesto de simpatia com algum homem que a tratou mal simplesmente porque não havia outra saída? Eu sei que eu já.

Mas muita gente pode estar se perguntando: se o relato dela é verdadeiro, por que ela não pediu demissão do trabalho onde ela alega ter sido assediada? E, bom, o primeiro e principal motivo é claro: ela não quis. Assim como não há um jeito certo de lidar com o luto, não há um jeito certo de lidar com o trauma de uma violência sexual ou até mesmo com as consequências de romper com o silêncio sobre uma violência.

Além disso, é bastante possível que Dani tenha ficado confortável em permanecer na emissora porque, seja pelo motivo que for, o homem que ela aponta como seu agressor não está mais lá. Façamos aqui uma comparação. Quando uma mulher leva um soco dentro de seu lar, mas consegue que o agressor saia de lá, faz sentido esperarmos que ela mude de casa por conta do trauma que sofreu naquele espaço? Eu entendo que não, porque, em minha opinião, não faz sentido termos qualquer expectativa de ação de qualquer pessoa que sofreu e que está se recompondo.

A verdade é que é extremamente comum que vítimas de assédio e discriminação permaneçam no emprego no qual foram atingidas. Seja porque não tiveram coragem de contar para ninguém e escolheram seguir adiante, seja porque foram muito bem acolhidas por quem as emprega e se sentem reparadas pelo tratamento de seu caso, seja porque escolheram não permitir que a cicatriz do assédio definisse seu futuro e sua carreira ou, como é na maioria dos casos, não puderam escolher sair porque não teriam outro trabalho.

Não sei quais foram as motivações da Dani em permanecer na TV Globo e, sinceramente, elas não me interessam. O que me interessa é ver o exemplo dessa mulher que ascende ao programa mais visto do Brasil depois de ter a coragem de romper com o silêncio. Com certeza, ela vai inspirar muitas de nós e nos fazer lembrar que há sempre um dia seguinte.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

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