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Isabela Del Monde

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Violência contra a mulher aumenta no Brasil por descaso do governo

Entre 2019 e 2021, o governo federal deixou de aplicar quase R$ 400 milhões no combate à violência, incentivo à autonomia e saúde feminina. - Reprodução/YouTube
Entre 2019 e 2021, o governo federal deixou de aplicar quase R$ 400 milhões no combate à violência, incentivo à autonomia e saúde feminina. Imagem: Reprodução/YouTube
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Isabela Del Monde

Isabela Del Monde é feminista e advogada. Coordenadora do movimento MeToo Brasil, cofundadora da Rede Feminista de Juristas (deFEMde) e sócia da Gema - Consultoria em Equidade

Colunista de Universa

21/08/2021 12h17

A revista AzMina fez um levantamento e descobriu que entre 2019 e o primeiro semestre de 2021, o governo federal deixou de aplicar quase R$ 400 milhões no combate à violência, incentivo à autonomia e saúde feminina.

Para que não restem dúvidas, não é que esse dinheiro não existia. Ele existia, estava destinado a políticas para mulheres e simplesmente não foi usado. Onde está? Ninguém sabe, mas, ao que tudo indica pelo modus operandi do governo Jair Bolsonaro (sem partido), pode estar nos bolsos de alguém cujo apoio precisou ser conquistado.

Boa parte desse dinheiro, era para ser usada na construção de Casas da Mulher Brasileira, pelo menos 1 por estado do país. A Casa é um aparelho público que oferece atendimento multidisciplinar e de portas abertas, ou seja, sem agendamento, para mulheres vítimas. Um dos serviços oferecidos pela casa é o alojamento para acolhimento em casos de risco iminente de feminicídio, algo de extrema valia em uma pandemia que obrigou vítimas a se isolarem com seus agressores.

Portanto, o socorro que salva vidas poderia estar à disposição das mulheres durante a pandemia simplesmente não saiu do papel porque o governo não usou o dinheiro que existia para isso. Enquanto os números de feminicídios só aumentam, Bolsonaro gastou apenas 1 milhão de reais da Casa da Mulher Brasileira desde que se elegeu, segundo levantamento do periódico feminista.

Qual a resposta do Congresso? Projetos de Lei para aumentar a pena do feminicídio, como se aumentar a pena trouxesse de volta a mãe, a filha, a irmã, a sobrinha e a amiga que foi assassinada só porque era mulher. Penas mais rígidas não salvam as vidas das mulheres. É uma verdade amarga. Quem não gostaria de uma resposta simples, entregue com uma canetada?

Mas não é possível resolver um problema tão complexo como a desigualdade entre homens e mulheres e a violência deles contra nós com uma resposta simples. Aumento de pena para conter a violência é a cloroquina do direito, apenas defendida por negacionistas desinteressados em mudar o que precisa de fato mudar.

Uma forma rápida de mudarmos esses dados e essa pouca vergonha com nossas vidas e nosso dinheiro é com uma renovação verdadeiramente pró-mulher do Congresso Nacional. Focamos muito no Executivo, porém é o Congresso que tem o poder de conter os desmandos da presidência; e se temos um Congresso composto majoritariamente por homens mais preocupados com seus projetos individuais de poder, veremos nossas vidas sendo cada vez mais precarizadas. Os mais de 100 pedidos de impeachment não analisados são a prova de que, a depender da composição do Congresso, pagando bem, que mal tem?

Mulheres na política, aquelas que defendem direitos humanos e equidade de gênero, representam menos morte de crianças, menos corrupção, mais escolas e, na pandemia, menos mortes. Pesquisadoras e pesquisadores do Insper, da USP e da Universidade de Barcelona se dedicaram a estudar como se deu a pandemia em cidades brasileiras geridas por prefeitas e descobriram que nesses locais houve 43% menos vítimas de covid.

Ano que vem, mesmo contra o sonho ditatorial de Bolsonaro, teremos eleições e temos a chance de mudar para muito melhor o Congresso, especialmente a Câmara. Você, leitora ou leitor, busque mulheres candidatas, dê a chance para que, dessa vez, possamos, verdadeiramente, mudar o que está aí!

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL