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Isabela Del Monde

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Assédio no futebol: eles escondem; elas gritam que não vão mais tolerar

Protesto da seleção feminina de futebol no amistoso contra a Rússia na sexta (11) - Reprodução
Protesto da seleção feminina de futebol no amistoso contra a Rússia na sexta (11) Imagem: Reprodução
Isabela Del Monde

Isabela Del Monde é feminista e advogada. Coordenadora do movimento MeToo Brasil, cofundadora da Rede Feminista de Juristas (deFEMde) e sócia da Gema - Consultoria em Equidade

Colunista do UOL

13/06/2021 04h00

Reportagem do UOL mostrou que a CBF (Confederação Brasileira de Futebol) está também apurando mais duas denúncias de assédio sexual e moral que surgiram contra Rogério Caboclo. O presidente da confederação se licenciou do cargo por 30 dias após sua secretária fazer as mesmas acusações.

É possível que haja pessoas que acreditem que ele está sofrendo uma perseguição, porém essa informação não surpreende quando se avaliam as pesquisas sobre violência sexual. De acordo com dados da RAINN (Rape, Abuse & Incest National Network), a maior organização dos Estados Unidos contra violência sexual, agressores sexuais costumam ter histórias criminais, isto é, agem em série.

Diversas iniciativas de forças tarefas de análise dos chamados rape kits (kits de estupro, em tradução livre), ou seja, realização de exames para identificação genética do agressor feitos com base em material biológico encontrado nas vítimas, identificaram múltiplas vítimas de mesmos agressores.

Além disso, temos casos emblemáticos de predadores sexuais que corroboram os dados obtidos em pesquisa, como os empresários americanos Harvey Weinstein e Jeffrey Epstein, o médium João de "Deus", o médico Roger Abdelmassih, o ator Bill Cosby e Larry Nassar, médico da equipe de ginástica dos EUA que abusou sexualmente de crianças e adolescentes atletas por mais de duas décadas.

E como esses predadores em série conseguem fazer tantas vítimas antes de serem pegos ou até mesmo nunca serem pegos? A resposta a essa pergunta é múltipla, mas listo aqui alguns dos motivos que avalio como centrais para a garantia da segurança dos agressores, e não das vítimas. O pacto da masculinidade é o primeiro deles.

Milhares de mulheres conhecem outras que já sofreram violência por serem mulheres, seja ela sexual ou doméstica. Porém, são pouquíssimos, ainda hoje, os homens que conhecem outros homens agressores. Isso revela que existe um pacto de cumplicidade pelo silêncio entre homens que garante um ambiente propício à prática.

A pesquisa de Valeska Zanella sobre os grupos masculinos de WhatsApp no Brasil concluiu que a misoginia, o ódio a mulheres, e a cumplicidade quanto a comportamentos que violam nossa dignidade e nosso corpo são os dois elementos que mantêm a liga entre os homens.

O mito da mulher interesseira e que está atrás de vingança é outro motivo. Ao buscar autoridades ou os canais internos de onde trabalha, é extremamente comum que a relatante da agressão seja tratada com desdém e desconfiança pelas pessoas competentes pela apuração, normalmente porque ela tem menos poder do que seu agressor. E, claro, pela lógica formatada pela masculinidade ela apenas pode estar buscando vingança ou enriquecimento.

Para que não reste dúvida: nenhuma mulher ganha nenhuma vantagem em denunciar um agressor, mas muito, muito pelo contrário. Daquela lista de predadores mais para cima do texto, você conhece o nome de alguma vítima cuja vida tenha dado uma guinada financeira e profissional depois da denúncia? Eu, não.

Por fim, falta disposição e interesse a uma apuração séria tanto nas polícias como nas instâncias privadas de apuração em organizações e empresas. Apurar um caso de má conduta sexual exige conhecimento e metodologia específica centrada na vítima, fundamentada contra traumas e que se proceda de forma justa e equitativa, garantindo que a as regras e as leis funcionem igualmente independentemente de quem seja a vítima e de quem seja o agressor — ou a agressora.

Nossa inação enquanto sociedade que ainda não se transformou para acolher adequadamente uma sobrevivente de violência somada ao descaso e desinteresse de autoridades competentes que garante que agressores sexuais possam ainda agir em série sem qualquer receio de punição ou responsabilização pelas suas condutas.

Parabenizo as jogadoras da seleção feminina de futebol que entraram em campo na sexta (11) estampando aquilo que os homens insistem esconder: existe assédio e não o toleramos mais.

A CBF decidiu corretamente quando afastou Caboclo pelas más condutas do caso, agindo em conformidade com as melhores práticas de apuração e desejo que as vítimas estejam sendo escutadas de forma livre de julgamentos e em segurança, com respeito aos traumas já enfrentados. E desejo, por fim, que a organização apure se outras pessoas sabiam das condutas de Cabloco e nada fizeram para cessá-las.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL