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Isabela Del Monde

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

"Amiga, fui estuprada": o que fazer após alguém te confidenciar um abuso

A atriz Duda Reis denunciou o ex-noivo Nego do Borel por violência sexual - Reprodução/Instagram
A atriz Duda Reis denunciou o ex-noivo Nego do Borel por violência sexual Imagem: Reprodução/Instagram
Isabela Del Monde

Isabela Del Monde é feminista e advogada. Coordenadora do movimento MeToo Brasil, cofundadora da Rede Feminista de Juristas (deFEMde) e sócia da Gema - Consultoria em Equidade

Colunista de Universa

05/05/2021 04h00

Um dado comum em pesquisas e estudos sobre violências é que as vítimas costumam contar o que aconteceu para alguma pessoa de sua confiança, como alguém da família ou uma amiga; como sabemos, o caminho da denúncia é o menos comum porque há muitos estigmas relacionados a vítimas que causam vergonha e medo da responsabilização pela violência sofrida. É comum pensar: "Vão dizer que a culpa é minha".

Entretanto, não temos formação educacional, nem em escolas nem na maior parte das faculdades, sobre como apoiar alguém que nos confidencia uma das piores experiências que já viveu — o que é uma lacuna imensa, pois os primeiros acolhimentos podem mudar o curso de uma história.

Viralizou na internet, em 2017, o depoimento de Bel Saide, no qual ela conta que sofreu violências sexuais aos oito anos por um funcionário do prédio em que morava com a família, mas sempre questionou por que não se sentia traumatizada pelo fato. Adulta, ela entendeu por que: "Contei o fato à terapeuta (...) e então brilhantemente ela matou a charada: eu não tinha traumas, eu não me sentia sequer culpada porque eu fui completamente acolhida imediatamente por todos à minha volta."

E é justamente pela relevância que o acolhimento tem, com escuta ativa e sem julgamentos, é bastante preocupante não recebermos qualquer educação e treinamento para sabermos o que fazer e o que não fazer quando uma vítima nos procura.

Uma pessoa vitimada representa uma imagem de fragilidade e muitas vezes desperta nossa preocupação e, por algum motivo, nossa prioridade é tentar eliminar a preocupação que foi causada em nós por aquele estado emocional. Acontece que, quando focamos o olhar em aliviar nossa dor, esquecemos que temos alguém na nossa frente que viveu a experiência que tanto está nos incomodando. O centro, portanto, é essa pessoa e não quem a escuta

Quase que com um desejo infantil, recorremos a falas que buscam minimizar o que aconteceu: "Não fique assim, vai ficar tudo bem", "pelo menos não aconteceu nada mais grave" ou "você é forte, isso não vai te abalar". Em algum lugar, nutrimos a esperança de que essas falas vão, como num passe de mágica, desfazer a violência. Infelizmente, não vão.

Quando estamos diante de uma pessoa machucada, nos são exigidas competências e habilidades que não fomos incentivadas e incentivados a desenvolver, tais como a alteridade e a empatia. Muito se fala de empatia em tempos de caos, mas pouco se conhece verdadeiramente desse recurso.

Theresa Weiseman, uma enfermeira dos Estados Unidos, identificou quatro qualidades da empatia: tomada de perspectiva, isto é, a habilidade de reconhecer a perspectiva da outra pessoa como sua verdade; ausência de julgamento; reconhecer a emoção em outra pessoa; comunicar essas emoções

Sustentada no conhecimento de Theresa, a pesquisadora Brené Brown, também dos EUA, descreve a empatia como um exercício de vulnerabilidade, pois para se conectar com alguém que está em dor é necessário se conectar com algo em nós que conhece aquele sentimento de desamparo e tristeza que a outra pessoa está mostrando.

Precisamos, portanto, aceitar, que não há nada a ser falado que vá transformar o passado, a violência causada. Temos que aprender a honrar a confiança que nos foi concedida pela pessoa que nos procurou, porque falar sobre isso é provavelmente a conversa mais difícil que ela está tendo em sua vida. É um privilégio sermos ouvido e colo de uma pessoa machucada, provavelmente uma das maiores expressões de confiança que vivemos

Brené Brown nos ensina que se as palavras não mudam histórias, a conexão muda. Estar ali pela pessoa, ouvi-la quantas vezes for necessário, sem gestos de impaciência ou julgamento, oferecer sua presença, cuidar de sua casa, ajudá-la, se ela quiser, a buscar informações sobre direitos e apoios especializado.

Ouça de verdade quais são as necessidades de quem pede sua presença e responda a essas necessidades e não ao que você julga ser o certo a fazer e, se puder, busque informações técnicas de como o trauma opera e se expressa no corpo e na fala de alguém para evitar que sua oferta de ajuda se perverta no reforço do trauma.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL