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Fabi Gomes

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Pesquisa diz que maioria dos homens se acha lindo. E o que isso quer dizer?

Fares Hamouch/Unsplash
Imagem: Fares Hamouch/Unsplash
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Fabiana Gomes

Fabi Gomes é maquiadora e bonne vivante ? gosta de das coisas boas da vida, como artes, literatura, sexo, cinema, culinária, viagens. Está sempre atenta ao poder transformador e aos rumos da beleza.

Colunista de Universa

13/05/2022 14h00

"Apenas 3% dos homens brasileiros se acham feios". Há três dias tenho observado e participado de debates acerca dessa "chamadinha". Sim, essa chamadinha, só o título mesmo, que diz respeito à pesquisa "O Que Pensa o Homem Brasileiro", encomendada por uma revista masculina nacional ao Instituto Ideia. Com esse simples dado, é muito sedutor cair na armadilha de deter-se em comentários sobre a autoestima do homem-cis-hétero-branco, né?

Mais uma vez atravessada pela minha oferecida desconfiança, impliquei com a "chamada". Achei meio caça-clique. Depois acordei, percebi que tava em 2022 e que é assim, desse jeito.

A reportagem que divulga a pesquisa revela logo na capa a ambição da peça - desvendar a cabeça do homem médio brasileiro.

Homem médio é uma abstração jurídica para definir aquele cidadão normalzão, sem grandes aspirações intelectuais. Entre as leituras dele certamente figurará a biografia de algum de seus heróis pessoais. Ele não perde a partida de futebol aos domingos, confortavelmente instalado numa poltrona reclinável com compartimento pra deixar a cerva. Ele até curte ir ao cinema, mas só se for no conforto do shopping center. Um Homer Simpson tropical.

Uma abstração, uma generalização, com todos os preconceitos que as generalizações podem comportar. Já sobre a ambição de "desvendar a cabeça" assim num golpe, deixo pro departamento das fórmulas mágicas e instantâneas responder. Se pah, dá pra fazer isso no TikTok.

O fato é que a pesquisa traz algumas afirmações impressionantes e outras nem tanto sobre o cujo "homem médio".

Uma pesquisa séria pressupõe algumas premissas, tais como: gênero, classe social, região, raça, idade. Além de tudo isso, o modo como as perguntas são postas pode sugestionar as respostas. Pra usar um termo caro ao jornalismo - elas podem vir batizadas com um viés.

Bem, a amostragem foi de 663 homens, de 18 anos ou mais, residentes em todo o território nacional, entre o dia 5 e 11 de abril de 2022. A matéria que divulga a pesquisa atesta que o trabalho foi realizado segundo critérios do Censo 2010 e da PNAD 2021. Amostra de 663 pessoas, numa população de mais 200 milhões (chutando, cerca de 100 mi de homens).

Há também uma informação sobre uma segunda pesquisa paralela, feita à parte com 298 homens de subgrupos específicos (indicados pela redação). Nas palavras da revista, são eles: farialimers (profissionais do mercado financeiro), gaúchos da fronteira (moradores de cidades na fronteira com o Uruguai), estudantes de Minas, taxistas do Rio, artistas da Bahia e profissionais do agro na divisa entre o Norte e o Centro-Oeste. É viés que chama?

Além da ausência dos critérios usados, como raça, classe social e região, temos a vaga informação sobre idade - homens de 18 anos ou mais... Pera, quantos homens de cada faixa etária? De que modo as perguntas foram montadas? Por quem? Quais pessoas foram escolhidas para fazer as perguntas aos entrevistados? Parece bobagem, mas, a depender do emissor, a resposta pode sofrer sensíveis alterações.

Posso estar sendo rigorosa demais. Mas uma pesquisa desse porte exige o mesmo rigor e não estou dizendo aqui que ela não foi rigorosa.

Estou aventando a hipótese do vício, da sugestão, de uma estratégia pré-fabricada, em busca de repercussão. E, mais que isso, estou levantando a capivara sobre quão rapidamente nós (os consumidores de notícias) emocionamos e repercutimos pautas sem um olhar mais detido e cuidadoso.

Voltando pro conceito de homem médio, pra trazer o tema do intelecto, Freudão fala, em "Psicologia das Massas e Análise do Eu", sobre o rebaixamento intelectual que rola quando estamos envoltos, integrados e emocionados em meio a uma massa:

"É lícito dizer que as fartas ligações afetivas que vemos na massa bastam inteiramente para explicar uma de suas características, a falta de autonomia e de iniciativa de cada indivíduo, a similitude entre a sua reação e a de todos os demais, seu rebaixamento a indivíduo de massa, por assim dizer. Mas, se a olharmos como um todo, a massa revela mais do que isso; o enfraquecimento da aptidão intelectual, a desinibição da afetividade, a incapacidade de moderação e adiamento, a tendência a ultrapassar todas as barreiras na expressão de sentimentos e a descarregá-los inteiramente na ação (...)".

Um belo trecho pra manter no radar em épocas quando o cancelamento e lacração estão na ordem do dia.

A gente tem uma luta séria para iluminar o feminismo e expor comportamentos e hábitos tacanhos e inaceitáveis. Repercutir a faceta mais sensacionalista e simplista de uma matéria não ajuda em nada.

Talvez fosse o caso de uma mesa de conversas para um olhar mais detido em outros dados da mesma pesquisa. Por exemplo, para a pergunta "O que faz ao ouvir comentários machistas?", 47% responderam "apenas escuto". Em "Apoia o feminismo?", a minoria de 34% diz que sim. O que estão entendendo por feminismo, já que na mesma pesquisa 58% se diz contra o aborto?

É muita ideia, e muita ideia pesada pra ser reduzida a um tweet do tipo "Só 3% dos homens brasileiros se acham feios? Ah, tá explicado". Explicado o quê?