PUBLICIDADE

Topo

Fabi Gomes

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

'Não, meu querido, você não pode pôr a mão na minha perna'

"Quem me acompanha por aqui, sabe que tô na pista, ativa e operante nos apps de relacionamento" - iStock
"Quem me acompanha por aqui, sabe que tô na pista, ativa e operante nos apps de relacionamento" Imagem: iStock
Conteúdo exclusivo para assinantes
Fabiana Gomes

Fabi Gomes é maquiadora e bonne vivante ? gosta de das coisas boas da vida, como artes, literatura, sexo, cinema, culinária, viagens. Está sempre atenta ao poder transformador e aos rumos da beleza.

Colunista do UOL

26/10/2021 04h00

É realmente necessário explicar pra um cara que ele NÃO PODE colocar a mão na tua perna sem você autorizar? Sim, pra alguns, ainda é. Quem me acompanha por aqui sabe que tô na pista. Tá boiando com essa gíria jovem e atual (contém ironia)? Estar na pista, pra além da pista de dança, pode significar estar disponível pro flerte.

Pra mim, estar na pista significa estar solta no rolê, a fim de diversão e, ao mesmo tempo, aberta e interessada às infinitas possibilidades de enlace, flerte, namoro, amizade com benefícios, rolo, encontros eróticos e/ou românticos etc.

Daí que tô sempre de olho, ativa e operante nos aplicativos de relacionamento (vem aqui ó).

Num desses dates, saí com um tal Gabriel. Chamo o lindo de Gabriel da Pompeia, já que o bairro (de classe média) me pareceu algo relevante na história dele, norteava e imprimia uma certa identidade ao moço.

Marcamos num pico "alternativo", uma espécie de bar e casa de show ali no Bixiga, bairro tradicional boêmio e gastronômico de São Paulo. Tava um calorão da moléstia e tive dificuldades em escolher esse "look date". Só pensei que não queria passar calor. Fui com um short jeans meio rasgado e um abadá de um bloco carnavalesco que amo, o "Tarado ni você".

Gabriel parecia interessante, bonitão (dentro dos conformes do que eu tava interessada). Conversamos, tomamos umas. Gabriel me contou que tem dois filhos, torce pro Palmeiras, se separou durante a pandemia e que, por enquanto, tava morando com a mãe.

Me contou da problemática de um dos casamentos anteriores dele — sobre como eram tão passionais e intensos que, um dia, foram parar na delegacia. Eu não pude deixar de tomar notas mentais: "Hum, morando com mãe, 'visita' à delegacia por 'intensidade.'" Quis perguntar se a razão teria sido agressão, mas preferi observar.

Falou também sobre como não é racista, porque "até tem" um amigo preto desde pequeno... Adicionei a observação ao meu bloquinho de notas mentais.

Eu já tava meio desencorajada em continuar, ou melhor, desdobrar a noite. Aí rolou um beijo. Carne falando alto, ignorei minhas notas mentais e seguimos de beijos. Os beijos ficaram mais calientes e veio a ideia da sequência. Como não tava tão animada assim e queria saber mais, propus que mudássemos de bar.

'Você está exagerando'

Fomos prum outro ali perto, bem pitoresco — uma espécie de híbrido bar-boteco-pizzaria. Chegando lá, um rapaz muito simpático nos recebe animado, puxando papo: o Nivaldo. O figura era um frequentador do bar, bom de prosa e muito simpático. Disse que morava ali na frente e, em dois minutos, lançou uma breve e alucinante autobiografia — há alguns anos veio do Ceará pra São Paulo, era porteiro, namorava a Belinha.

Perguntou se podia sentar com a gente. Tava adorando Nivaldo e a história, já pensando em chamar Belinha e ele pra falarem sobre relacionamento em um podcast que tenho com uma amiga.

Nivaldo era muito despachado, como diriam minhas tias. Criticou meu look, dizendo que eu me vestia mal? Achei graça. A conversa segue e, lá pelas tantas, Nivaldo repousa a mão sobre minha coxa.

Olhei bem no olho dele e, com firmeza, porém, gentil, informei: 'Nivaldo, você não pode pôr a mão na minha perna. Eu não deixei nem te dei nenhuma indicação de que tava a fim'

Nivaldo pediu desculpas e rapidamente tirou a mão. Ao que Gabriel da Pompeia protestou, num tom a mais: "Você tá exagerando! Não tem nada disso. Ele não fez por mal. Lá 'de onde ele vem' isso é normal".

Suspirei e olhei ao redor: Nivaldo com vergonha, arrependido; Gabriel da Pompeia bêbado, equivocado e desperdiçando sérias oportunidades de iluminação e instrução. Do outro lado da rua, um boy interessante e misterioso, que não parava de me olhar. Me perguntei: "Eu saí de casa pra dar essa aula? Não, saí pra pista".

Ali, minha missão tava mais do que cumprida. Hora de partir pra outra. Fiz sinal pro misterioso, que me esperasse. Me despedi de Nivaldo, fiz a fineza de pagar a cerva e atravessei a rua. Acho que o Nivaldo não põe mais a mão na perna de ninguém sem permissão. Quanto ao Gabriel da Pompeia, não sei dizer.

P.S.: Os nomes não são bem esses.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL