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Fabi Gomes

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Está difícil encontrar alguma felicidade neste 7 de setembro

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Fabiana Gomes

Fabi Gomes é maquiadora e bonne vivante ? gosta de das coisas boas da vida, como artes, literatura, sexo, cinema, culinária, viagens. Está sempre atenta ao poder transformador e aos rumos da beleza.

Colunista de Universa

07/09/2021 04h00

E aí, está feliz hoje? Perguntinha cretina neste 7 de setembro esquisito, tô ligada. Parece um fim de tarde de domingo sem fim. Não só um domingo melancólico como os outros, mas violento, bruto, burro e errado. Com um gosto amargo de verdade, erro e impotência.

Mas vamos explorar a felicidade. Primeiro, como objetivo final de vida. Olha só o significado oculto: objetivo final. Mais ou menos como se você só pudesse alcançar felicidade, seja lá o que for essa instituição criada, no final ou bem perto dele. Nesse minutinho agora, onde está a tua felicidade? Ou melhor, o que é a tua felicidade, onde está essa coisa? Tá naquela linha do "oi, sumida!"?

Se você já viveu um pouco e já alcançou um certo grau de discernimento sobre a dor e a delícia de ser o que é, vai entender onde quero chegar. Nem precisa ir longe mesmo. Se já viveu, vamos dizer, uns 10 anos, já vai ter noção. "Nossa, mas 10 é muito jovem, Fabi". Bem, com 10, meus filhos já começavam a se queixar sobre o fato de sentirem nostalgia sobre algo do passado.

Se considerarmos melancolia como essa falta de algo ou alguém que já passou, a gente pode dizer que desde cedo há esse sentimento de que "naquele tempo eu era feliz, naquele tempo experimentei algo que agora não experimento". Como se a lembrança desse afeto já não fosse mais possível e a gente estivesse sempre em busca dessa repetição, desse momento.

Do outro lado, temos os planos de ser feliz. Os planos de futuro, sobre quando estaremos do jeito que sempre sonhamos, com as pessoas que sempre sonhamos, no lugar onde sempre sonhamos. Talvez lá seja possível repetir esse afeto sentido, constantemente perdido. Well, sem querer parecer pessimista ou fatalista, talvez esse lugar aí seja o cemitério, a última parada de geral.

Vamos voltar lá pro início da nossa ideia. Hoje, o que está rolando? Tem qualquer coisa que possa te trazer felicidade ou alegria hoje, agora? (mais uma vez, peço desculpas pela data ingrata, sei que tá tudo meio/muito foda)

"Ai, mas que coisa mais chata, você tá parecendo essas pessoas que critica pela positividade tóxica. Por acaso a gente precisa estar sempre positivo? Não há espaço para questionamento e tristezas?" Oxe, claro que sim! Vamos curtir nossas fossinhas numa nice também. Mas tô querendo provocar (ou seria invocar?) essa presença e atenção que nos permite apreender as singelezas do rolê.

Aquela brisinha gostosa, que sopra na tarde preguiçosa e balança de leve os galhos da árvore à tua frente. Vai perder isso? Escolher um bairro pra andar à toa e deixar teu olhar ser capturado pelo que for. Uma casa abandonada, o barulho da motosserra, o mercadinho local. Que tal brincar de adivinhar a vida de cada um ali? Você pode criar os nomes e as histórias que bem entender.

"Não quero fazer nada disso, quero ficar em casa, na minha". Pois fique. Deita no meio da sala e fica lá um tempo, sem fazer nada. Só sentindo o chão. Vai preparar uma comida? Que tal colocar uma música que ama, deixar uma bebida que te inspire à mão e curtir tudo isso junto? Som da música, misturado ao som do alho cortado, com o barulhinho do óleo na panela... Aí você dá uma golada na tua bebida e canta junto. Isso tudo já não é bom, gostoso e aquece? Se pá, dá pra chamar até de felicidade.

"Ah, que Poliana ela!" Não, não, não. Se quiser, pode lavar a louça com ódio, batendo os talheres e quebrando uns itens. Mas presta atenção nessa fúria. De onde está vindo? Identifica e faz o caminho com ela. No que ela está ligada? Se bobear, essa raiva pode ensinar alguma coisa. Viva o momento.

Mas e a felicidade? Esqueceu? Não esqueci, não. Acho que ela é quase como uma entidade mística. No fim, está sempre por perto, meio escondida, disfarçada de riso, vento e luz, se embrenhando entre os momentos ruins

Se você não tiver ali com o espírito aberto, ela passa e você nem vê. Fica aí, olhando a alegria de ontem ou o folheto do que gostaria de ser e ter um dia, e perde a magia do agora. Hoje não vai dar para funcionar nesse modo. Hoje é urgente notar onde a falta de atenção, cuidado, amor, escuta e sensibilidade intelectual e moral nos trouxe. Hoje, realmente está difícil ser feliz.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL