PUBLICIDADE

Topo

Fabi Gomes

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Além da beleza, cabelos das atletas olímpicas contam histórias

Naomi Osaka durante participação nas Olimpíadas de Tóquio - REUTERS
Naomi Osaka durante participação nas Olimpíadas de Tóquio Imagem: REUTERS
Conteúdo exclusivo para assinantes
Fabiana Gomes

Fabi Gomes é maquiadora e bonne vivante ? gosta de das coisas boas da vida, como artes, literatura, sexo, cinema, culinária, viagens. Está sempre atenta ao poder transformador e aos rumos da beleza.

Colunista de Universa

04/08/2021 04h00

Em casa, ligada nos jogos olímpicos, acompanho a bela explosão de cores e formas dos cabelos das atletas. E, aqui, digo beleza lato sensu: a plasticidade proporcionada pelas minas olímpicas e seus emocionantes e elaborados penteados.

Fui dar uma pesquisada em alguns dos nomes mais comentados nos quesitos cores, laces, tranças e muito mais. Entre elas, vemos exemplos que vão da tenista japonesa Naomi Osaka à corredora americana Sha'Carri Richardson, passando por Azenaide Carlos, do handebol, Stephanie Mawuli, do basquete japonês, Romane Dicko, judoca francesa, e Rhoda Njobvu, corredora de Zambia. Há muitas e muitas outras.

Acontece que, na minha busca, além de ver belas imagens atreladas ao visual dessas heroínas, fui parar em suas histórias de vida. Trajetórias sensacionais, tocantes. Narrativas indispensáveis, de gente, que me fazem pensar que essa forma de expressão pelos fios traz significados que transcendem a estética — e pousam no campo do subjetivo.

Naomi Osaka, por exemplo, nasceu no Japão e é filha de pai haitiano e mãe japonesa. Enfrenta preconceito dentro do Japão por ser "diferente", já que cresceu nos EUA e não é considerada uma "japonesa pura". Mais do que talento, Naomi pauta de racismo à saúde mental nas discussões em que se envolve. Ela faz pensar e incomoda (como, em geral, todos os que fazem pensar).

Com suas tranças coloridas, faz sacudir as estruturas e arredar o pó do conservadorismo, das ideias fixadas e do preconceito. Não à toa, foi escolhida para acender a pira olímpica nos jogos de Tóquio

Quem também sente o peso das expectativas é An San, arqueira da Coreia do Sul, duramente criticada por manter seus cabelos, adivinhem... Curtos. Talvez eu esteja sendo relapsa ao dizer "duramente criticada". Foi mais que isso. Ela se viu alvo de verdadeiros ataques de ódio, inclusive vindos de mulheres do país natal. Três medalhas de ouro não significaram nada. O importante mesmo era atacá-la por seus cabelos curtos. A alegação dos haters é que o estilo é "feminista". O ano? 2021.

Em Tóquio, sinto falta de Sha'Carri Richardson e seu voador cabelo de fogo. Quero saber mais dessa mulher, para além da polêmica desclassificação para uma modalidade olímpica por doping positivo. Parte da história de vida dela inclui ter sido abandonada pela mãe biológica e criada pela avó, Dona Betty.

Acabo, então, em um vídeo que mostra não uma corrida em competição, mas o vídeo da "outra corrida". Ao final de uma prova, ela segue em direção à avó, que está na arquibancada assistindo. Nas palavras da própria Sha'Carri, ela quer que o mundo saiba que aquela garotinha ainda está ali e diz que o momento foi mais emocionante do que ganhar. Claro que foi, afinal, estamos falando das vidas entre os breves momentos de glória.

Bem, e o que isso tudo tem a ver com cabelo, Fabi? Falo sobre o quanto é importante olharmos para as pessoas com mais carinho e cuidado. A gente se encanta com o visual, mas precisamos exercitar o olhar para dentro também, enxergar quais histórias contam aqueles corpos. Temos que encarar os atletas olímpicos, alçados ao panteão das deusas e deuses, como seres humanos — algo tão difícil nos implacáveis tempos atuais, nos quais cobrança por perfeição e excelência são normalizados.

Era para eu ter falado da parte de fora da cabeça, mas, com um pouquinho de cuidado no olhar, veja onde a gente pode chegar: mais camadas de inspiração.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL