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Fabi Gomes

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Memórias de um extubado: o que ninguém te conta sobre a covid

Uso de máscara, isolamento social e vacina são as únicas formas de prevenir a doença - iStock
Uso de máscara, isolamento social e vacina são as únicas formas de prevenir a doença Imagem: iStock
Fabiana Gomes

Fabi Gomes é maquiadora e bonne vivante ? gosta de das coisas boas da vida, como artes, literatura, sexo, cinema, culinária, viagens. Está sempre atenta ao poder transformador e aos rumos da beleza.

Colunista de Universa

14/06/2021 04h00

Sensação desesperada de sede, feridas pelo corpo, pesadelos. Conversando com uma pessoa próxima, acometida por duas vezes pela covid-19, fiquei muito impressionada com o relato sobre a segunda vez na qual contraiu a doença na forma grave. Precisou ser internada em UTI, com intubação e ventilação mecânica, ficando entre a vida e a morte por vários dias.

Essa é uma pessoa pela qual tenho o maior carinho e estima. Conversamos com certa frequência e sempre lhe pergunto como vai a recuperação. Todos ao redor dela ficaram muito apreensivos quanto ao quadro de saúde. Ninguém falava nisso, mas todos pensavam na possibilidade dela não aguentar, em razão do modo rápido e violento como o processo se deu.

O que vou compartilhar aqui são experiências dessa pessoa. Não tenho conhecimento médico e a ideia não é fazer um relato clínico. Não entendo as dinâmicas da sedação e da intubação. Mas fiquei muito impressionada com a percepção dessa amiga, o que ficou para ela, como ela viveu isso.

Alguns dias depois de ter alta da UTI, ela começa falando que está bem e que a única coisa que ainda a incomoda é o fato de um dos pés permanecer adormecido. Desde o dedão do pé até o tornozelo, não sente nada. Segue mancando e com necessidade de acompanhamento de um fisioterapeuta, o qual, por sorte, pode acessar. Otimista, diz que isso já configura melhora, já que, no início, não conseguia nem calçar um chinelo sozinha.

Sobre a capacidade pulmonar, já está recuperada. Então, já não ficamos mais aflitos ao escutá-la. Imagine como é desesperador ouvir alguém tentando se comunicar sem conseguir respirar plenamente.

Falamos da saudade e da vontade de nos encontrarmos. Digo para ela sobre a brutalidade do processo pelo qual passou e de como ela é forte, guerreira, e que é prudente esperarmos mais um pouco para que todos estejamos seguros.

Então, ela inicia uma narração que me estarrece. Coisas que ninguém conta, coisas muito subjetivas dessa experiência traumática e intensa.

Ela segue: "Quase morri de sede...", "variava o tempo todo com água e não conseguia falar, não conseguia pedir água, era insuportável".

Depois, me contou que tinha pesadelos. Sonhou que, quando saía do hospital, já não tinha mais casa, haviam dado outra destinação a ela. Em outro sonho, foi sequestrada por uma mulher que a prendia amarrada para que não pudesse escapar. Diz que pensava ter que dar um jeito de tirar a própria vida, tamanho o sofrimento.

Não, não estamos falando de uma pessoa com tendências melancólicas, ao contrário. Trata-se de alguém conhecido por sua vivacidade e por sempre arrancar risos por onde passa. Nas palavras dela: "Não desligava a memória. Eu sonhava com o lugar para onde iria quando saísse dali. Pensava: onde eu moro?"

Ela não me contou de dores corporais, me contou mais de outras feridas

Voltando um pouco mais no tempo, lembrou que passou dois dias em uma UPA, sentada numa cadeira à espera de um leito de UTI. Contou, então, sobre uma senhora de 90 anos, também à espera de um leito, com a qual dividiu um cobertor levado por parentes. Sorte a dessa senhora. Imagina esses dois dias e noites na fria Curitiba, sem essa coberta dividida?

Aí, ela volta a me contar do tempo no hospital. Falou do banho no momento da transferência da UTI para o quarto, que essa era uma das primeiras memórias do período. Uma enfermeira a limpou com uma toalhinha com sabão e enxaguou com uma baciazinha d'água, ali mesmo na cama. Disse que sentia muito frio.

Sobre a saída, a alta médica, ela narra que não conseguia comer direito. Primeiro, por não poder comer com as próprias mãos, já que tinha os braços adormecidos. Precisava ser auxiliada. Segundo, por ter a boca repleta de feridas (uma das possíveis sequelas físicas da intubação), dentro e fora. Sentia muita dor ao comer.

Pelo longo período deitada na mesma posição, também teve feridas na cabeça. Me contou sobre as infernais coceiras que sentia e de não poder coçá-las em função do adormecimento nos braços, que não obedeciam aos comandos. Ainda fruto da imobilidade na cama, também desenvolveu uma "enorme ferida na bunda". Uma lembrança forte é o desconforto da ferida em contato com fezes e urina, uma vez que precisou usar fraldas no período da internação.

E aí ela chega na sensação de preocupação geral em proporcionar conforto ao paciente que está naquela situação. Em uma tentativa de mantê-la conectada à esperança da pós internação, por exemplo, chegaram a questionar: "Quando você chegar em casa, você vai querer comer o quê?", ao que ela respondeu simplesmente "Vou querer beber água". Imagine só.

Para além de elucubrar sobre as dinâmicas e qualidade da intubação e dos processos pelas quais a pessoa foi submetida; da busca da verdade sobre se há ou não lembrança possível e o modo de funcionamento cerebral nesses procedimentos de internação prolongada. Se há, quando há e como se dão as alterações cognitivas.

Para além de tudo isso, pensei em trazer a percepção e o que ficou para alguém que passou por tudo isso e sobreviveu para nos contar. Há marcas muito profundas e dolorosas deixadas por um processo como esse

Ainda que essas lembranças refiram-se aos períodos que antecedem ou sucedem à sedação, foi isso que ela registrou. São as reminiscências impressas desse tormento, a ponto de pensar em dar fim à vida. Afora as sequelas visíveis, existe o sofrimento psíquico pelo qual a pessoa passa.

Não, não estamos falando de uma gripezinha. Contudo, estamos falando de uma sobrevivente. Mas essa doença envolve perdas, muitas perdas. 486 mil vidas até o momento no qual escrevo esse texto. Perda de empregos, projetos, casas, liberdade, saúde mental

Quem tiver o privilégio de ficar em casa, fique em casa. Para os que precisam ir às ruas, vão de máscara e mantenham as mãos higienizadas. Se o amor ao próximo te soa piegas, proteja seus amores e a si.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL