PUBLICIDADE

Topo

Fabi Gomes

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Por que você precisa fazer harmonização facial?

Fabiana Gomes

Fabi Gomes é maquiadora e bonne vivante ? gosta de das coisas boas da vida, como artes, literatura, sexo, cinema, culinária, viagens. Está sempre atenta ao poder transformador e aos rumos da beleza.

Colunista de Universa

18/03/2021 04h00

Harmonização facial. Por que essa expressão tem estado tão presente em nossas vidas nos últimos tempos e por que as pessoas estão tão interessadas nisso? Vem, vamos dar uma debruçada sobre o tema.

Afinal, o que é essa tal harmonização facial?

Trata-se de uma série de procedimentos e intervenções estéticas que têm como objetivo equilibrar as formas de um rosto. Considerem-se aí as proporções entre os volumes, distâncias e ângulos de partes do rosto, tais como maçãs do rosto, sobrancelhas, queixo, lábios, nariz, testa e até dentes.

A tal proporção perseguida é a das medidas áureas, pura magia matemática que acalma até bebês. Nada que perturbe, que instigue. Tudo no jeito para proporcionar a contemplação passiva.

Para tentar explicar de modo mais lúdico, é como imaginar que somos todos feitos de massinha de modelar e que podemos manipular e esculpir o rosto ao nosso bel prazer. Delícia, né? Sabe o que é mais legal ainda? Os tais procedimentos podem ser realizados sem que sejam necessários métodos muito invasivos e arriscados. São relativamente simples e a recuperação muito mais rápida do que numa cirurgia plástica, por exemplo. Um lance, assim, meio mágico mesmo, sabe? Meio divino, quase como se fôssemos deuses e deusas com poderes supremos.

Esse é o momento no qual eu viro um copo de cabeça pra baixo e pergunto: "tem alguém aí?". E olha só quem responde: o Freudão, direto das páginas do seu texto "O mal-estar na civilização", escrito em 1930:

"O ser humano tornou-se, por assim dizer, uma espécie de deus protético [...] Épocas futuras trarão novos, inimagináveis progressos nesse âmbito da cultura, aumentarão mais ainda a semelhança com Deus."

Que poderosões somos, não é mesmo? Quanto controle em nossas mãos...

Nessa história, consigo enxergar tantas questões que é meio impossível manter um foco apenas. Aí já viajo na contradição de isso estarmos discutindo isso justo nesta época de desconstruções vigentes, das supostas aceitações em curso, com movimentos feministas, negros e body positive pregando a autoaceitação - e marcas nadando de braçada nos discursos. Pois é, aí você olha lá pra outra ponta e vê os rostos e corpos harmonizados.

Quase como aquele prato gourmet do restaurante bacana, harmonizado com aquele vinhão loko sugerido pelo empertigado sommelier. Quando combinados no seu palato, induzem a um sedutor e inebriante canto de anjos. Ah! Que harmônico! Que bom ter esse acesso tão exclusivo.

A harmonização se tornou uma espécie de acesso a um mundo de exclusividades, de luxos. Confere um certo status ao seu portador (ou desgustador), que ascende às esferas mais elevadas, mais sagradas que o distinguem dos reles mortais.

Repare na quantidade de modelos, celebridades e influenciadores escolhidos por marcas inclusivonas para estampar campanhas e ações de publicidade.

Pensa quantas vezes nos últimos meses você viu chamadas para matérias que destrinchavam os muitos procedimentos estéticos e harmonizações feitos pelos membros do Big Brother Brasil.

Sim, tem harmonização de corpo também

Fiquei impressionada (tolinha). Quase todos os participantes fizeram, digamos assim, ajustes em suas aparências. Sim, estão quase todos harmonizados. Como vocês já devem ter se ligado, a harmonização não é apenas no rosto, ela vai pro corpo também.

Acho que deve dar até pra pedir em forma de receita: "A senhora põe, por favor, dois litros de produto aqui na minha bunda, retira três litros de gordura da minha barriga. Ai, já ía esquecendo, aproveita e remove umas duas costelas de cada lado, assim a gente afina essa cintura. Essas tetas... hmmm vamos aproximar, empinar e aumentar. Me vê aí uns 300, 400 ml de cada lado".

E, como diz um amigo meu, se você é montado no cobre, pode alisar, puxar, remodelar, pintar cor de boca, enfim, ficar como sempre sonhou. Perfeito. Funilaria e pintura completos. Talvez assim consiga ter acesso liberado ao Olimpo. Não existe corpo ou cara "errada", quando se tem cacau, aqué, grana.

Tô parecendo invejosa? Nunca fiz nada? Não faria? Olha, manos e manas, não digo "dessa água não beberei". A grande questão é: Quanto dessa água beberei? Quanto dessa água estamos todos bebendo enquanto civilização? Acha que é legal as pessoas estarem cada vez mais harmônicas entre si, mais parecidas? Qual o preço dessa pasteurização de corpos e caras, e do apagamento da subjetividade estética?

Traços de singularidade vêm sendo varridos das caras e corpos de mulheres e homens, que, cada vez mais, se submetem a tais procedimentos para alcançar essa dita harmonia, essa versão aperfeiçoada, suave, controlada, corrigida e equilibrada de si.

Cada vez mais, olhamos e fazemos as mesmas coisas. Cada vez mais, o comportamento ou pensamento diferente do outro tem sido atacado e tratado com ódio e repulsa. "Nossa, tá misturando tudo hein?" Se pah, tô mesmo. Mas que é um retrato dos nossos tempos, isso é.

Intervenções podem ajudar, se forem pontuais

"Com isso, conclui-se que a senhora detesta os procedimentos de harmonização e procedimentos estéticos em geral, não é mesmo?" Não, não, bem ao contrário. Acho, inclusive, que intervenções pontuais podem auxiliar demais no tratamento de alguns traumas e complexos na longa trajetória da tal da autoaceitação.

Por exemplo, recentemente fui apresentada a um procedimento novo que ajuda a fortalecer a musculatura e aumentar massa magra. Fui correndo me deitar pra ele. Uma tecnologia que trabalha com campos eletromagnéticos em alta frequência. Já fiz uma bateria e, certamente farei outra.

E comecei a pensar: acho que vou pedir uma agulhada daquela toxina botulínica ali na fenda da minha testa. Só um pouquinho. Deixo claro que não quero ficar com cara de pandeiro, que só quero parecer mais... descansada. Hmm, sei. Na verdade, não sei, não. Quanto me entregarei a esse ou aquele procedimento? Não sei se perderei o controle.

Tratamentos estéticos e agulhadas à parte, meu caso aqui é com essa coisa de remodelar tudo do começo ao fim e todos ficarmos meio iguais. Pra isso, acho que vale uma bela deitada no divã.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL