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Fabi Gomes

Você é realmente bem de vida? Gostaria de ser?

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Imagem: Istock
Fabiana Gomes

Fabi Gomes é maquiadora e bonne vivante ? gosta de das coisas boas da vida, como artes, literatura, sexo, cinema, culinária, viagens. Está sempre atenta ao poder transformador e aos rumos da beleza.

Colunista do UOL

26/11/2020 04h00

Expressão comum e amplamente utilizada aqui nos trópicos, "bem de vida" popularmente define e classifica quão rico alguém está do ponto de vista de bens materiais e posses. Mas, mergulhando mais profundamente na expressão, podemos nos debruçar sobre o termo: o que é "bem"?

Para o Dicionário Aurélio: "Bem sm. 1. Qualidade atribuída a ações e obras humanas, e que lhes confere um caráter moral. 2. Austeridade moral, virtude. 3. Felicidade, ventura. 4. Favor, benefício. 5. Vantagem, proveito. 6. Pessoa muito amada [...]"

Fica patente o caráter maniqueísta do termo, né? Todo e qualquer possível aspecto sombrio atrelado a ele deve ser rechaçado, abafado. Mas será mesmo que não tem nada mais que possa estar relacionado à expressão bem de vida? Vem comigo fazer essa caminhada...

Pra começar, é importante notar que, no contexto de como a expressão é utilizada por aqui, o trabalho ocupa papel de destaque. Sujeito bem de vida é aquele que é o senhor do seu próprio destino, tem "ownership" —para usar uma expressão corriqueira da língua de inglesa, tão cara e comum entre os bem de vida.

O sujeito bem de vida contemporâneo é aquele que, para além da acumulação de bens materiais, acumula energia infinita para seu plano de vida: acontecer e chegar ao "topo". A ele não são permitidas falhas nem deslizes. "Ele tá bem de vida porque trabalha muito", você já deve ter ouvido por aí.

Em "Humano, Demasiado Humano", de 1878 (vai vendo há quanto tempo estamos nessa luta....), o filósofo alemão Friedrich Nietzsche já observava o valor dado pela sociedade aos eficazes, os que não descansam nunca, e a desvalorização do olhar contemplativo, do voltar-se a si:

"Por falta de tranquilidade, nossa civilização se transforma numa nova barbárie. Em nenhum outro tempo os ativos, isto é, os intranquilos, valeram tanto. Logo, entre as correções que necessitamos fazer no caráter da humanidade está fortalecer em grande medida o elemento contemplativo".

Achei que valia rechear a ideia com uma citação de peso. A obra tem como subtítulo "Um livro para espíritos livres", mas, curiosamente, acho que nunca fomos tão presos, com a ilusão de liberdade ativada.

O sujeito atual precisa ser um sujeito de desempenho, sempre vigilante, sempre atento, e distrações não são permitidas —ainda que, nos dias de hoje, as mídias sociais o consumam, tragando-o ao reino da inutilidade e à tentadora atividade voyeurística acerca a vida das outros. O smartphone funciona como um espelho digital: o espelho preto. E ele abre um espaço narcísico, uma esfera na qual é possível se trancar.

Essa mórbida observação só reforça a angústia, a sensação de derrotismo e a percepção de que é preciso fazer mais, esforçar-se mais, trabalhar mais, ser mais magro, mais forte, mais inteligente, mais saudável. Afinal, aparentemente, todos estão alcançando o sucesso, exceto você.

Ainda que você alcance algum, ele nunca será suficiente. Nada do que faz é bom o bastante, e a responsabilidade é só sua, já que é o senhor do seu próprio destino. Como bem observa o filósofo sul-coreano Byung-Chul Han em seu livro "No Enxame": "O sujeito produtivo de hoje é ofensor e vítima simultaneamente".

Será que nos tornamos domesticados? Acredito que, atualmente, para além de domesticados, estamos como que adestrados. Batemos palmas e saltamos sem nos darmos conta dos porquês.

E quando dá ruim? Como a gente lida com isso? Ah, essa é fácil! A gente toma uma bolinha! É tranquilo aplacar dores e angústias com toda a vasta oferta de medicamentos para a alma, que compreendem desde inovações da indústria farmacêutica até as inúmeras e sedutoras ofertas de tratamentos alternativos. Se nada disso funcionar, ainda podemos recorrer ao coaching —uma das maiores tendências do mercado profissional.

As exaustões ou manifestações que fujam ao que se considera "normal" estão todas previstas e devidamente catalogadas num grande livrão chamado DSM ("Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders", que significa Manual de Diagnóstico e Estatística de Desordens Mentais). Depressão, TDAH, hiperatividade, burnout, TOC... a lista é extensa.

Vale tudo que não envolva olhar pra dentro, verdadeiramente olhar pra si ou considerar a subjetividade. Afinal, não há tempo para essas bobagens. Precisamos de soluções rápidas e práticas. Tipo um miojo! Humm, quanta nutrição!

E, por favor, garoto enxaqueca (referência vintage, favor gugar), pense positivo! Assim você não mela a superprodução, o superdesempenho e essa maravilha que é ser sua própria microempresa! Empreendedorismo, a gente se vê. Só você é responsável pelo sucesso (bem, nesse contexto, pelo fracasso também). Não gaste seu tempo com devaneios e pensamentos tolos. Produza! Produza mais!

Numa sociedade em que qualquer "defeito" do sujeito é prontamente tratado com um milagroso fármaco, o que interessa de fato é tratar os sintomas, não somente ignorando suas causas, como ostensivamente ignorando a existência delas. Neste cenário, qualquer pausa ou oportunidade para deixar a fala e a escuta fluírem livremente aparece como um sopro de vida e humanidade.

Todos os estudos sociológicos mostram igualmente que a sociedade depressiva tende a romper a essência da vida humana. Afinal, não podemos correr o risco de macular esse sujeito asséptico e altamente produtivo. Para a sociedade atual, quanto mais "bem de vida", melhor, ainda que seja um doente terminal da alma.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.