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Maternidade X beleza: você vai estragar seu corpo com a gravidez?

Grávida - slavemotion/iStock
Grávida Imagem: slavemotion/iStock
Fabiana Gomes

Fabi Gomes é maquiadora e bonne vivante ? gosta de das coisas boas da vida, como artes, literatura, sexo, cinema, culinária, viagens. Está sempre atenta ao poder transformador e aos rumos da beleza.

Colunista do UOL

06/10/2020 04h00

Tudo começa quando você vê a segunda listrinha do teste de farmácia ficando azul. "Pera aí, tô grávida!" E, num primeiro momento, você é tomada por um misto de sensações e pensamentos.

Ainda não há nenhuma mudança visível no corpo. O baile segue, você continua com a rotina e, de tempos em tempos, é atravessada pela lembrança: "Cacete! Tô grávida! Tem uma pessoa se formando aqui dentro". Mas ainda é só um pensamento.

E, um belo dia, a pasta de dente te causa muito enjoo, você já não consegue mais comer aquele pãozinho com manteiga pela manhã e, misteriosamente, algumas pessoas passam a te deixar louca.

A pessoa continua a mesma, nada mudou. Ela fala com você como sempre falou, mas o simples fato de ela chamar seu nome dá um arrepio na nuca e você aperta o olho, toda cheia de irritação. Seu parceiro passa a ter um cheiro diferente. "Que cheiro é esse?", você pergunta com cara de nojo.

Pronto, aperte a tecla verde e confirme: você completou o pacote da gravidez! Aos poucos, seu corpo vai mudando externamente também.

Tem a fase em que você ainda não é notada como gestante, a ponto da velhinha tretar com você no busão por estar sentada no assento preferencial. Há outros vagos, mas ela quer treta. Então, ela vê você. Hormônios bombando, você exausta, mas a velhinha quer tretar. Você tira a carteirinha da cegonha da borsa e, com as sobrancelhas alçadas ao meio da testa, mostra a prova com altivez.

Climão desfeito, velhinha no outro assento. Pô, mas você poderia ter levantado, evitado tudo isso. Poderia ter sentado noutro assento, não precisaria ter evoluído na treta. Você tá grávida, véio! Às vezes, quer tretar sem razão nenhuma! Depois, se sente mal e chora. Chega em casa e pede um galeto. Sentada no chão, come o bicho inteiro com as mãos, em frente à TV, assistindo ao noticiário. E chora de novo por uma notícia triste.

E essa passa a ser sua nova vida. Seu novo estado psíquico e seu novo corpo. E, com essa configuração, vêm também as cobranças internas e externas. Você tá grávida. TEM QUE ficar feliz e radiante com a gravidez. Mas você se sente estranha, como se tivesse se transformado num alien que carrega um alienzinho. São dois aliens dando rolê, embalados ao som hardcore dos hormônios.

E, quando já se pode notar que você é oficialmente uma grávida, começa a fase dois do jogo: a intromissão dos outros.

"Ah, tá grávida?" Você, num humor crocante, sorri com os lábios presos, pendendo a cabeça levemente para o lado. "Já decidiu o nome? Qual o sexo? Acho Gilsinho um nome lindo"; " Você vai fazer parto natural né?"; "Cesariana é muito melhor, mais prático! Você marca a hora, chega lá e arrasa, já sai com bebê. Não tem riscos"; "Nossa, minha prima tentou parto normal e ela e o bebê morreram, é muito perigoso"; "Agora você precisa comer por dois!"; "Não vá comer por dois pra não engordar demais hein"; "Parabéns! Tá ótima, não engordou nada"; "Eu ganhei apenas sete quilos na minha gravidez"; "Tomara que a criança venha normal"; "Foi planejada a gravidez?"; "São gêmeos?"; "Ah, você não vai por esse nome, vai?";"Você quer menina ou menino?"...

São pérolas e mais pérolas que embalam o trajeto. E, claro, já que você está grávida, as pessoas naturalmente podem tocar na sua barriga sem a sua permissão. "Ai, acho mulher grávida a coisa mais linda do mundo, você não tá se sentindo radiante?"

Não, você não tá se sentindo plena. Tá se sentindo estranha, exausta e com medo. Mas não pode dividir isso com ninguém, porque, afinal, você foi abençoada com a graça divina de ser mãe, precisa agradecer e ser plena, feliz e grata.

Chega finalmente a hora do rebento sair. Você sente a maior emoção da vida. No momento em que ouve o lindo chorar, é atravessada por uma rajada de amor. Não dá pra explicar o que acontece no corpo e na cabeça nesse momento. Você percebe que aquela pessoa saiu de você, não é mais um alien metendo o pé na sua costela, é um carinha que, quando colocado ao seu lado, para de chorar e se sente seguro.

E, então, é, aí, que começa a maior história de amor da sua vida? Da minha, sim. Foi assim comigo. Mas tem muitas mulheres que experimentam esse momento de outro modo.

Algumas enfrentam a depressão pós-parto ou mesmo o que se chama de baby blues, que é um período de tristeza e angústia, que pode acontecer no puerpério. Muitas delas, além de ter de lidar com esses sentimentos e o bebê, se sentem envergonhadas por não estarem tão radiantes e felizes quanto se esperava.

A fase três do jogo não é menos cruel: quando você vai voltar o corpo ao "normal"?

A mídia ama enaltecer celebs e influenciadoras que acabam de dar à luz, e, uma semana depois, estão magras e saradas. Frases como "em 20 dias, a mamãe já tinha um peso menor do que aquele de quando engravidou" circulam como exemplo de superação e conquista. Pessoas que já viviam em função do "corpo perfeito", mesmo após dar à luz, continuam imbuídas desse objetivo.

Além da alimentação, atividades físicas e procedimentos estéticos, muitas recorrem à ingestão de testosterona para agilizar a produção de músculos e queima de gordura. E isso pode interferir na amamentação, já que o hormônio pode suprimir a produção de leite. São escolhas, e é preciso pesquisar para entender os prós e contras de cada escolha, assim como fazer a análise sobre suas motivações e desejos.

Vi um vídeo de uma youtuber confessando sobre sua ansiedade em não estar de volta ao corpo dois meses após o parto. Segundo ela, "sem razão" aparente, ela está ansiosa e comendo muito. No vídeo, ela mostra as estrias que adquiriu durante a gestação e a flacidez da barriga. Ela tá visivelmente tensa, angustiada e preocupada com os rumos do corpo.

Menciona os casos compartilhados de mulheres que estão lindas e com corpo "perfeito" logo depois do parto. Dá dó. É sabido que o corpo leva pelo menos seis meses para se reacomodar, para "desengravidar". A região abdominal foi a casa de um lindinho, que empurrou os órgãos e abriu espaço para se acomodar e crescer.

Já eu lembro de bater pratadas e mais pratadas nos períodos de pós-parto. O corpo precisa de muita energia para produzir leite... Sentia o maior prazer comendo arroz, feijão, bife, ovo! Quanta alegria em transformar um PF em leite! É perfeitamente normal e esperado sentir MUITA fome durante a amamentação. Nosso cabelo cai, o corpo todo tá focadão numa tarefa muito importante: produzir leite para a criança. Esse, sim, é o normal e o perfeito. Ah sim, não ouse enfrentar problemas com a amamentação, isso a sociedade não perdoa.

É vital estar atenta às fontes de ansiedade e angústia e tentar entender como e de que modo aquilo te diz respeito. A pressão e a opressão não têm fim. Há ainda a pressão para o parto cinematográfico, o puerpério sem dramas e o jeito certo de amamentar. Você precisa parir na lua cheia, numa choupana à beira do rio, ouvindo mantras. Pratique a livre demanda, amamente de três em horas. Não durma com o bebê, durma com o bebê!

E tem muitas boas fontes para aliviar essa pressão. Tentar estar em contato com outras experiências mais realistas ajuda a sentir menos solidão. Um exemplo é o projeto "Mother?s Beauty", das fotógrafas canadenses Aimee e Jenna.

Percebendo a insatisfação e angústia das mulheres com seus corpos em função das marcas deixadas pela gestação e parto, elas resolveram celebrar a beleza dos corpos nessa fase, retratando mulheres reais, com corpos reais. Nada de padrão de perfeição. E que ótimo poder ver realidades mais próximas à sua! A tal representatividade, né?

Gravidez e maternidade são deslumbrantes e complexas. Para além de todo amor e felicidade, o caminho é repleto de desafios. Cada mulher vivencia de um modo. Use seus cremes se puder, faça suas práticas físicas como quiser, alimente-se bem, e cuide de si e do seu bebê como for melhor para vocês. Não tem fórmula pronta.

Assim como quase tudo, há um mundo de coisas que precisa ser considerado e a subjetividade precisa ser respeitada. Durante a gestação e no pós-parto, as mulheres precisam de uma rede de apoio, precisam ser acolhidas, terem suas escolhas e sentimentos aceitos e respeitados. Sem pressões ou padrões que não lhes caibam. Normal é ter estrias e flacidez. Perfeito é poder ter atenção física e emocional. E só.

Aproveito pra deixar sugestões de contas de Instagram sobre o tema: @andressareiis, @maternativa, @averonicalinder @faxinaboa... pega o fio o vai! ?

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.