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Pra Fenty Brasil, salve a inclusão

A cantora Rihanna é a dona da marca-desejo Fenty Beauty - ANGELA WEISS/AFP
A cantora Rihanna é a dona da marca-desejo Fenty Beauty Imagem: ANGELA WEISS/AFP
Fabiana Gomes

Fabi Gomes é maquiadora e bonne vivante ? gosta de das coisas boas da vida, como artes, literatura, sexo, cinema, culinária, viagens. Está sempre atenta ao poder transformador e aos rumos da beleza.

Colunista do UOL

24/08/2020 04h00

Justiça seja feita, não foi exatamente a Fenty que revolucionou o mercado e disponibilizou pela primeira vez uma vasta opção de cores de produtos para alcançar os mais diversos tons, subtons e intensidades de cor de pele. Mas, inegavelmente, foi a marca que conseguiu tornar potente, relevante e eficaz sua mensagem sobre diversidade e inclusão na estratégia de marketing. Um deleite navegar no colorido e diverso Instagram da marca, ainda que falte incluir pessoas de diversas idades por lá.

A marca tem à frente Rihanna, mulher negra que mais fatura na música segundo a revista Forbes. É um exemplo de self-made woman que, além da carreira na música, é produtora executiva, estilista, atriz, empreendedora e filantropa, personificando a superação de alguns dos mais enraizados códigos de opressão social. Ser mulher já não é fácil. Promove a privação de muitos acessos na sociedade e nos expõe a situações de desigualdade e violência.

Ser mulher e negra, a coisa só se agrava, já que é preciso lidar com racismo e misoginia, dois dos maiores indicadores da opressão social, que ampliam e reforçam silenciamento e desigualdade. Ah, acha que tô sendo mimizenta mais uma vez?

Me ocorreu citar um exemplo. Pensa que coisa mais maluca: talvez você nunca tenha ouvido falar numa das mais importantes escritoras brasileiras. E olha que ela já vendeu mais 1 milhão de exemplares só no Brasil e foi traduzida para mais de 14 idiomas.

Pois é, pode ter te passado desapercebido este nome: Carolina Maria de Jesus. Mas, meu Deus, como isso foi acontecer, logo com você que ama ler e se informar? Imagino que o fato de Carolina ter sido uma mulher preta e pobre possa ter alguma relação com este apagamento...

Na ocasião do lançamento da marca Fenty Beauty, em 2017, Rihanna afirmou em entrevista a um jornal inglês que buscava abraçar e incluir no espectro da marca os tons ditos extremos, muito claros ou muito escuros. "Para os tons intermediários existem muitas, muitas opções. Mas, se você for muito escura ou muito clara, existem poucas possibilidades." Ainda assim, a marca foi erigida por seus fãs (da marca e da cantora) ao posto de representante do protagonismo negro na beleza.

A marca aterrissou oficialmente em terras brasileiras este mês. E nessa chegada foi tomada de assalto por um desagradável incidente. Virou assunto quente nas principais rodas de beleza e alvo de muitas críticas por parte da comunidade negra e profissionais do ramo.

Em sua estratégia de divulgação da marca no país, a Fenty simplesmente deixou de fora muitos dos nomes de influenciadores e produtores de conteúdo online que ajudaram a divulgar e criar desejo em torno da marca pros lados de cá.

Alguma coincidência entre esses nomes? Ah, sim, por acaso estamos falando de influenciadores pretos. Nomes conhecidos e respeitados como @josyramos, @herdeiradabeleza, @depretas, @camiladelucas e @damatamakeup. Ou seja, difícil esquecer, não é? A ação gerou revolta, e influenciadores como @santotassio, @atailon, @luciellenassis vieram a público expor sua indignação.

Pois é, foram esquecidos em meio a um casting estrelado por muitas brancas e algumas poucas celebridades negras.
A diversidade, habitualmente vista e celebrada nas ações da marca fora do Brasil, não foi enfatizada na estratégia de divulgação local. Ainda que haja pessoas pretas (poucas), a grande queixa dos que foram deixados de fora foi a marca não ter estampado na sua estratégia de divulgação local toda a diversidade que habitualmente é vista e celebrada nas ações da marca fora do Brasil.

O que está sendo questionado é o fato de muitas meninas brancas e magras (alguém aí falou em padrão?) terem recebido cachê, e elas nem ao menos tinham por hábito falar da marca antes do lançamento.

Agora, vamos pensar juntos, vem comigo. Será que nossa amada Riri poderia imaginar tamanha controvérsia? Como e quando as coisas se perdem dessa forma? Vamos seguir nosso fio de pensamento e ir até as empresas e agências responsáveis pelas estratégias e divulgação desse tipo de ação. Sempre acho importantíssimo, vital e revelador dar um rolê pelas contas de mídias sociais corporativas de marcas e agências.

É surpreendente ver os boards da diretoria e funcionários do alto escalão: sempre bem branquinho! Quem me acompanha aqui já sabe que amo propor exercícios e questionamentos. Além disso, curto muito a semiótica. Quão revelador pode ser analisar símbolos?

Então você vai lá e o Instagram dessas agências e empresas está repleto de gente branca. Muitas, mas muitas mulheres loiras (naturais e wannabes), magras, trancadas na grife... ou seja, temos grana e pertencemos a uma casta. Eminentemente, homens e mulheres brancos e de um"certo nível"são as pessoas que decidem estratégias e ações.

Em meio a muitos sorrisos de dentes brancos porcelanados, champanhe, hologramas, ilhas gregas, restaurantes estrelados, cenários paradisíacos e lounge music, essas pessoas dividem suas vidas perfeitas com a plebe via mídias sociais. Nossa, mas tem algum problema com a braquitude?

Acredito que tem, sim, quando eles se fecham em seus privilégios e não são capazes de olhar ao redor e perceber que tem algo de muito errado neste cenário monocromático e repleto de semelhantes, especialmente se levarmos em conta a diversidade racial do nosso país.

A vida em Wonderland

Me pergunto qual a chance dessas pessoas, que definem estratégias e tomam decisões, pensarem fora desse contexto? Qual a probabilidade de pensarem e criarem estratégias fora dessa bolha, dessa atmosfera Wonderland? A sociedade mudou e as pessoas estão mais atentas e interessadas na visão global das marcas e empresas. Estratégias de marketing frouxas já não colam mais.

A água bateu na bunda, e passou da hora de empresas e marcas genuinamente interessadas no Zeitgeist (espírito do tempo) terem diversidade em suas equipes. Pessoas das mais variadas etnias, gêneros e idades, pessoas que vivem a vida em outras pairagens com outras realidades. Pessoas que tenham opiniões e vivências diferentes, que discordam e, ainda assim, possam ser escutadas. Quão rico e desafiador pode ser escutar verdadeiramente outras opiniões, realidades e questionamentos?

Para além dos desafios da percepção e da escuta, há outro que é o de realmente incluir diversidade, ou seja, agir. Pra isso rolar, precisa ter interesse genuíno no outro e em outras realidades. E já existem hoje profissionais focados em oferecer esse trabalho de entender quais aspectos precisam de atenção e transformação.

De volta ao tema do nosso questionamento de hoje, que é inclusão de pessoas pretas, deixa eu oferecer uma consultoria grátis aqui. Além dos nomes já citados, vocês também podem checar o trabalho de @feoliveira100, @julianaluziee, @camilanunees, @canalpatriciaavelino e @michelepassa, falando dos criadores de conteúdos pretos.

Há ainda muitas outras pautas para serem olhadas e incluídas. Minha intenção com este texto é propor reflexões que possam ampliar nossa percepção da sociedade e descortinar outros horizontes e realidades. Como profissional da área de beleza, espero não ser boicotada por expor minha opinião, que é o que normalmente acontece com pessoas que expõem suas opiniões, confirmando a teoria do silenciamento e do apagamento do que incomoda. Como disse no meu artigo anterior, mais do que cancelar, tá na hora da gente somar!

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.