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A transformação da maquiagem e a busca das mulheres por sua "melhor versão"

Flashpop/Getty Images
Imagem: Flashpop/Getty Images
Fabiana Gomes

Fabi Gomes é maquiadora e bonne vivante – gosta de das coisas boas da vida, como artes, literatura, sexo, cinema, culinária, viagens. Está sempre atenta ao poder transformador e aos rumos da beleza.

Colunista do UOL

13/07/2020 04h00Atualizada em 22/07/2020 16h15

Trabalhando com beleza nos últimos 17 anos, pude acompanhar de perto seus intensos movimentos. A aventura se inicia quando entro para a equipe da primeira loja no Brasil de uma grande marca de maquiagem. O ano era 2002 e, nesta etapa, eu basicamente atendia clientes em suas solicitações de maquiagem social e oferecia dicas e truques para a maquiagem do dia a dia. A ideia era oferecer algo não muito transformador. Como nessa época esse público era composto basicamente por mulheres, tomarei a liberdade de usar o adjetivo feminino aqui.

Essas mulheres queriam ver e viver sua "melhor versão", nada muito ousado, muito "pra frente", e nem tão careta assim. A grande sensação era o pó compacto para deixar a pele sequinha - base era uma grande heresia, afinal, cultivava-se a crença de que o produto entupia os poros e deixava a pele oleosa.

Agora, pegue aquele carro do "De Volta Para o Futuro" e visualize tutoriais de maquiagem com base escorrendo pelo rosto. É, o mundo dá voltas muito loucas. Não se falava em preparação de pele e hidratação. Primer, então, era uma categoria que ainda estava muito fora do radar.

Junto com o pó, não podia faltar lápis preto, rímel (assim mesmo, nada desse negócio de máscara de cílios), batom cor de boca (aparentemente, só havia uma cor de boca em 2002), finalizando com o glorioso gloss e pó bronzeador, que elas amavam chamar de pó bronzant. Qualquer outra proposta era veementemente rechaçada! Batom vermelho? "Imagina! Tenho escrúpulos." Olho preto? (vamos usar palavreado vulgar aqui, taokei? Nada de olho esfumado, olho preto memo). "Ah não... aí já é muito, não estou acostumada..."

Corta para 2009 (sim, sim, vamos acelerar bem). Foi quando aconteceu o fenômeno de um tal batom rosa pálido com hereditariedade azulada e que, definitivamente, não ficava tão lindo em toda la gente. Ainda assim, todas queriam usar! E como usaram! Achei bonito aquilo. Foi a primeira vez que as mulheres se apropriaram de um símbolo de beleza - o batom, sem se importar se combinava ou não, se "valorizava" ou não a própria beleza.

E é muito louco pensar como se usam estes termos associados à beleza, né? É quase como se nos tomassem como ações da Bolsa de Valores. Eu ouvi objetificação feminina?

Elas usavam aquele batom como um estandarte! No meu mundo de coisas, aquilo era um verdadeiro manifesto - "uso e não me importo se gostam ou não", "uso porque quero e tô me sentindo o máximo!"

A febre do rosa desmaiado passou e vieram muitas outras. O batom vermelho - clássico dos clássicos no cinema, mas que na vida real não era bem quisto, o batom vinho, o olhão preto, a quebradeira - rosto com contornos evidenciados, buscando o formato oval considerado o mais harmônico, cílios de mink e muitas outras.

Neste meio tempo, me envolvi com outras técnicas e ambientes de maquiagem, como ópera, editorias para revistas de moda e beleza, maquiagem para TV e maquiagem para passarela, cada qual com sua especificidade técnica e seu fascínio. Ministrei aulas de maquiagem por todo Brasil e América Latina para profissionais e não profissionais, e sempre me instigou muito a sedução das pessoas pela transformação. E não me refiro aqui àquela transformação que pertence ao universo da fantasia.

Falo da severa transformação do rosto feminino quando se trata de maquiagem social, que é aquela que a gente faz pra ir ali na festinha, no casamento, no happy hour, no rolê, no evento.

Ou seja, aquela que a gente faz pra se sentir linda, confiante, poderosa. E é deste universo que vêm meus questionamentos e minha inquietação: por que, diabos, todas as vezes que uma mulher quer se sentir bonita, gata, no "seu melhor", ela precisa se transformar numa outra, a ponto de muitas vezes não ser reconhecida (e não se reconhecer) sem maquiagem?

Essa make da festinha, acabou sendo adotada para o dia a dia de muitas e muitas mulheres também, passando a fazer parte da rotina delas. O que estaria por trás de tanta transformação e submissão? Que mensagem é essa? Toda vez que quero me sentir bonita, preciso me transformar, anular boa parte dos traços e características que definem minha subjetividade?

Nunca me conformei e nunca me conformarei com essas regras e padrões. Sempre questionei e continuarei a questionar na prática e na teoria. Como quase tudo na vida, acredito que maquiagem está para além de só pintar caras. Assim como o modo que comemos, andamos e falamos, maquiagem também é um ato político.

Vamos lá, posso mergulhar mais fundo e abordar alguns dos hábitos comuns da maquiagem contemporânea. Desenhar côncavo numa mulher asiática, afinar o nariz de uma mulher negra, afinar bochechas proeminentes. Alguém aí falou em apagamento racial, em gordofobia? Vou falar da febre do ageless em outro artigo, porque é tanto assunto, que não me caibo.

"Ah Fabi, menos mimimi, você é muito paranoica, elas só querem se sentir lindas!" Hmm, entendi... e quem decidiu o que é lindo e belo? Vale a pena dar uma lida no que diz Naomi Wolff sobre essa generalização da beleza: "A 'beleza' não é universal, nem imutável, embora o mundo ocidental finja que todos os ideais de beleza feminina se originam de uma Mulher Ideal Platônica".

Será que eu tava enganada em relação à revolução do batom rosa quase morto? Proponho que a gente use este espaço para questionar esse e outros assuntos. Ah, sim, vamos falar de tendências também. Menina, cê viu o lance dos foxy eyes?