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Débora Miranda

REPORTAGEM

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Após sofrer desrespeito, Cris Cyborg empodera meninas: 'Seja luz aonde for'

Cris Cyborg, lutadora de MMA - Divulgação
Cris Cyborg, lutadora de MMA Imagem: Divulgação
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Débora Miranda

Débora Miranda é jornalista e editora do UOL. Neste blog, conta histórias de mulheres no esporte, mostrando como a atividade física pode transformar vidas e o mundo.

Colunista do UOL

30/05/2021 12h21

Ser um dos nomes mais importantes do MMA não exige apenas força e treino. Cris Cyborg sabe bem disso. Enfrentou ao longo da vida piadinhas, bullying e desrespeito, especialmente na profissão.

"Quando comecei, o MMA [artes marciais mistas] era um esporte novo e masculino. O feminino não era bem-vindo." Tempos depois, muito mudou, mas nem tudo.

O fim da relação com o UFC (Ultimate Fighting Championship), uma das principais organizações de MMA do mundo, se deu justamente devido a ele, o desrespeito. "Não estava fazendo bem nem para a minha marca", afirma a lutadora.

Quando não está lutando, Cris trabalha para empoderar outras mulheres. Mantém um projeto chamado Pink Belt Fitness, espécie de acampamento em que reúne meninas para treinar e conversar, no qual fala bastante sobre bullying.

E o conselho para quem sonha seguir seus passos é simples: "O legado que eu quero deixar para os meus fãs é sempre lutar pelos seus objetivos, sempre ser luz aonde for".

Nesta entrevista exclusiva, Cris ainda fala de uma possível revanche contra Amanda Nunes, dos planos futuros e de aposentadoria. Leia, abaixo.

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UOL - Um dos motivos que fizeram você encerrar sua relação com o UFC, pelo menos de acordo com o que foi dito em reportagens da época, foi o bullying contra você. Pode dizer que episódios mais te chatearam?

Cris Cyborg - Estou num estágio da minha vida e da minha carreira que eu não tenho necessidade de tocar nesse assunto, mas acho que, na verdade, foi o desrespeito. Isso afetou muito o meu relacionamento com o UFC, e não estava fazendo bem nem para a minha marca. Era uma pessoa [Dana White, presidente do Ultimate, com quem a lutadora tinha relação conturbada] que estava tentando prejudicar a minha imagem a cada entrevista. Então, achei o momento certo de seguir com a minha vida e dar continuidade ao meu trabalho.

UOL - Você faz parte de alguma iniciativa para enfrentar o bullying?

Tenho participado de algumas. E tenho também o meu camp Pink Belt Fitness, que faço com as meninas. Lá, a gente conversa bastante sobre bullying. Isso acontece muito com os adolescentes, tenho adolescente em casa também e sei como funciona.
A gente está buscando agora fazer uma pesquisa e um trabalho sobre bullying, que eu acho bem importante.

UOL - Por que acha que essa é uma questão tão importante?

Acredito que pelas coisas que eu tinha visto? O bullying é de cada pessoa e do jeito que você aceita também. Para enfrentar tudo isso é preciso saber respeitar o próximo, as diferenças do outro. Para melhorar é só com amor, mesmo. A gente tem que mostrar amor para essas pessoas, porque na verdade elas precisam de ajuda.

UOL - Você sofreu bullying na sua vida? Na infância ou na vida adulta? Pode contar um pouco da sua experiência pessoal?

O esporte me ajudou bastante. Na minha infância eu tive uns apelidos aqui, uns apelidos ali. Isso sempre acontece. Você tem que ver o quanto você dá de interesse para isso. O esporte transformou a minha vida, fez o que eu sou hoje. Agora posso passar por todas essas dificuldades de bullying. Mas com certeza eu lembro de pessoas e casos, não é legal, mesmo.

UOL - Acha que as mulheres —especialmente as mulheres lutadoras— tendem a enfrentar mais esse tipo de situação do que os homens?

Antigamente, sim. No começo da minha carreira, eu percebia algumas piadinhas. O MMA feminino não tinha muita visibilidade, como tem agora. Era um esporte novo e masculino. O feminino não era bem-vindo o feminino. Mas as mulheres vêm buscando espaço e crescendo. Está tudo certinho.

UOL - Você venceu sua última luta, no fim de semana passado, e muito já se comenta sobre um duelo com Cat Zingano. Isso deve mesmo acontecer?

Estou aguardando ainda. A gente está em contato com o Bellator [organização de MMA que promove as lutas de Cyborg atualmente] e, assim que tiver novidades sobre isso, vou declarar. A Cat Zingano está vindo de várias vitórias —e por merecimento mesmo! Está na vez dela de lutar pelo cinturão. Acredito que todos os fãs gostariam de ver essa luta.

UOL - Mesmo você estando fora do UFC, acho que é correto dizer que o maior desejo dos fãs de MMA é ver um novo combate entre você e Amanda Nunes. Isso pode acontecer, ainda que seja um acordo para uma única luta?

O esporte está, cada vez mais, melhorando e crescendo, os melhores promotores são os que fazem as lutas que as pessoas querem assistir. E com certeza essa é uma luta que, no futuro, os fãs gostariam de ver. Acho que um dos melhores promotores poderá fazer essa luta acontecer, independente de estarmos em eventos separados [Amanda permanece no UFC]. No boxe você vê isso: não é um evento que é dono do cinturão, mas, sim, a organização. Quem sabe no futuro, né? A gente está aberto para isso. O Bellator sempre faz cross promotion, faz [parcerias] com outros eventos, não tem problema nenhum. É o outro lado que tem que aceitar

UOL - Você ficou invicta por mais de uma década e ainda hoje é uma lutadora a ser batida, considerada por muitos a melhor de todos os tempos. Que legado você quer deixar no MMA e especialmente para as mulheres?

O legado que eu quero deixar para os meus fãs é sempre lutar pelos seus objetivos, sempre ser luz aonde você for, levar esperança. Na minha carreira, ganhei vários cinturões, e eles são um símbolo para mim. Mas o mais importante é ser campeã na vida das pessoas. O cinturão vai e volta, mas o que você faz para mudar a vida de alguém é o que fica no coração das pessoas.

UOL - Em uma entrevista em 2019 você disse que pretendia lutar mais uns quatro anos. Dois já se passaram. A aposentadoria está próxima?

Acredito que estou na melhor fase da minha carreira. Tenho experiência, estou feliz, sou respeitada. Não vejo ainda quando quero parar, não pensei nisso. Não tenho nenhuma lesão nem dificuldade, nada! Estou me sentindo muito bem. Deus no controle, e assim que eu sentir no meu coração que é hora de dar um tempo, hora de parar, vou fazer a coisa correta.