PUBLICIDADE

Topo

Débora Miranda

Sócio do Santos: 'Futebol feminino é um lixo. Pegaria um time no Bahamas'

Live do blog Soul Santista - Reprodução
Live do blog Soul Santista Imagem: Reprodução
Conteúdo exclusivo para assinantes
Débora Miranda

Débora Miranda é jornalista e editora do UOL. Neste blog, conta histórias de mulheres no esporte, mostrando como a atividade física pode transformar vidas e o mundo.

Colunista do UOL

01/02/2021 15h29

Misoginia: "desprezo, aversão pelas mulheres", segundo o dicionário Aulete. Apresento o conceito para quem ainda não o conhece, embora sua prática desprezível continue se espalhando por aí, especialmente no mundo do esporte.

O caso mais recente de misoginia no esporte vem de um vídeo que viralizou nas redes sociais no fim de semana, de uma live entre torcedores e associados do Santos do blog Soul Santista. Sérgio Ramos, que além de sócio é ex-conselheiro do clube, estava falando sobre a expulsão do técnico Cuca de campo na final da Libertadores e fez o seguinte discurso:

Campo de futebol não é lugar de mocinha. Mocinha, no campo de futebol, são aquelas que a gente enche de porrada e tira fora de lá. Porque não é lugar para estar lá. Futebol feminino é um lixo. Eu não assisto uma porcaria dessas de jeito nenhum.

Os outros três integrantes da live —Ian Rocha, Fabiano Reis (atualmente conselheiro) e Wagner Dias— acham graça. Rocha afirma: "Vão te xingar aí. Isso é politicamente incorreto, Sérgio".

Todos riem novamente. Ramos continua:

Eu sou incorreto. Eu teria um futebol feminino no Santos, porque é obrigado. É obrigado, então eu teria. Eu iria no Bahamas, pegaria um time no Bahamas, colocaria um uniforme bem coladinho.

Rocha o interrompe uma vez mais fazendo sinal de silêncio e rindo. "Não, estou brincando. Pode falar, pode falar", encoraja.

"Eu diria para elas o seguinte: não precisa encostar na bola. Vocês podem apanhar de 50 a 0 todo jogo, e eu garanto que os torcedores de todos os clubes iam torcer para o meu time do Bahamas. Porque futebol feminino é um lixo. Os goleiros não sabem defender, os atacantes não sabem chutar", discursa Ramos.

Começando do começo, acho importante esclarecer o básico: no futebol feminino, "os goleiros" são mulheres, "as goleiras" no caso. Mesma coisa as atacantes —e as zagueiras, as meio-campistas, as volantes. Todas as jogadoras, por mais estranho que ainda possa parecer para algumas pessoas, são mulheres.

Dito isso, é bem claro —pelo vídeo ou mesma pela transcrição do texto— o tom de ódio que as palavras de Ramos carregam. "Campo de futebol não é lugar de mocinha. Mocinha, no campo de futebol, são aquelas que a gente enche de porrada e tira fora de lá."

A escolha da palavra "mocinha" por si só já é uma tentativa de diminuir, fragilizar e inferiorizar as mulheres. E a ideia de que campo de futebol não é espaço para ser ocupado por elas vem de uma época ditatorial, que não pode voltar.

"Às mulheres não se permitirá a prática de desportos incompatíveis com as condições de sua natureza." O trecho do artigo 54 do decreto-lei 3.199, de 14 de abril de 1941, assinado pelo então presidente Getúlio Vargas, foi responsável pela proibição de as mulheres jogarem futebol no Brasil.

De lá até o início dos anos 1980, quando as mulheres finalmente puderam ter acesso de novo ao esporte, foram 40 anos de luta, de resistência, de desobediência e de ousadia. NADA VEIO DE GRAÇA. E mais de 40 anos depois desses 40 anos, ainda há quem pense que o futebol é incompatível com a natureza feminina. Seja dentro de campo, como atleta, ou fora, como torcedora, jornalista e mesmo dirigente.

Ninguém é obrigado a gostar de nenhuma modalidade esportiva. Feminina ou masculina. Mas é obrigado, sim, a respeitar sua existência, seus atletas e seus fãs. É simples assim. Chama respeito e é essencial na vida em sociedade.

Para concluir, a saída escolhida por Ramos para o futebol feminino —além da violência— seria ir ao Bahamas (célebre clube de prostituição de luxo de São Paulo) e pegar jogadoras lá. "Pegaria um time no Bahamas, colocaria um uniforme bem coladinho. [...] Garanto que os torcedores de todos os clubes iam torcer para o meu time do Bahamas."

Ou seja: depois da misoginia e do machismo, Ramos conclui com a objetificação da mulher, formando a tríade da masculinidade tóxica e violenta, que não pode nem deve ser tolerada.

Santistas cobram o clube

De olho nisso, as torcedoras do Santos se mobilizaram pelas redes sociais cobrando uma atitude do clube.

Embora a transmissão não tenha sido promovida pelo próprio Santos, os envolvidos fazem parte de sua estrutura e é importante se posicionar. Inclusive porque o clube já enfrentou situação delicada recentemente por contratar Robinho, condenado por violência sexual. Tudo isso sem esquecer das próprias atletas que vestem e honram a camisa do clube, formando uma das equipes de futebol feminino mais bem-sucedidas do país.

A conselheira Valéria Mendes dos Santos fez um requerimento, assinado também por outros 15 conselheiros (de um total de 300), pedindo a Celso Jatene, presidente do Conselho Deliberativo, que encaminhe ao Comitê de Gestão do Santos o caso para apuração e aplicação das penalidades cabíveis. O Comitê de Gestão inclui presidente, vice e outros sete conselheiros.

Segundo Valéria, a fala de Ramos fere o estatuto do Santos, discrimina o futebol femino, sexualiza e objetifica as atletas e mulheres, além de estimular a violência e o machismo. Entre as punições cabíveis está a eliminação do quadro associativo do clube.

Procurada, a assessoria de imprensa do Santos disse que não vai se posicionar publicamente sobre o assunto, já que terá de lidar com o processo interno e não quer ter sua imparcialidade prejudicada.

O blog Soul Santista retirou o vídeo do ar e publicou uma carta sobre o episódio, afirmando que os integrantes da live estavam abalados pela derrota do Santos na Libertadores da América e não perceberam "a gravidade daquelas palavras" —embora todos tenham rido do que foi dito.

"Como estávamos assimilando a tristeza pela derrota do nosso time de coração, com a nossa atenção dividida entre os comentários no chat, a nossa próxima fala na live, e o andamento da coisa, não percebemos o que havia sido falado."

E continuam afirmando ter se surpreendido com a repercussão do episódio.

"Só após isso fomos assisti-la [a live] e, para a nosso espanto e indignação, as palavras estavam lá. Ditas de forma clara na nossa cara e não fizemos nada! [...] Lamentamos ter falhado como moderadores e como cidadãos, pois o preconceito deve ser combatido por todos nós, e o nosso time feminino merece o devido respeito e reconhecimento."