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Cris Guterres

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Violência política e de gênero dificulta chegada das mulheres ao poder

A ex-deputada federal Manuela D"Ávila (PCdoB) divulgou em suas redes sociais um ataque virtual contra ela, sua filha e sua mãe - Reprodução/Facebook
A ex-deputada federal Manuela D'Ávila (PCdoB) divulgou em suas redes sociais um ataque virtual contra ela, sua filha e sua mãe Imagem: Reprodução/Facebook
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Cristiane Guterres

Cris Guterres é jornalista, empreendedora e sonhadora. Proprietária do Atrium Restaurante, palestra sobre diversidade, motivação e liderança feminina. Sua especialidade é mostrar o quanto somos fortes e podemos mudar, com competência, qualquer situação opressora ao nosso redor.

Colunista de Universa

03/08/2022 04h00

Falar em representatividade feminina na política brasileira é denunciar uma série de barreiras que as mulheres encontram ao tentar trilhar o caminho ao pleito eleitoral. Da falta de apoio partidário, passando pelo boicote e pelo preconceito e chegando à violência extrema, como o assassinato brutal da vereadora Marielle Franco e seu motorista Anderson Gomes, em 14 de março de 2018.

Ser candidata a um cargo eletivo no país que ocupa uma das piores posições em termos de representatividade feminina na política no mundo é algo bastante perigoso e algumas vezes solitário. A ex-deputada federal Manuela D'Ávila (PCdoB) divulgou em suas redes sociais, nesta segunda-feira (1º), um ataque virtual contra ela, sua filha e sua mãe.

Na mensagem enviada por pessoa não identificada ao perfil de Manuela no Instagram, o criminoso ofende e ameaça cometer um crime de estupro contra a ex-parlamentar. E ameaça a filha de Manuela, a pequena Laura, de apenas seis anos. "Ser uma mulher pública no Brasil é ser ameaçada permanentemente. É escolher um lugar para o medo, outro para a coragem, outro lugar para o fingir ignorar", escreveu D'Ávila em suas redes sociais.

Esta não é a primeira vez que Manuela se vê diante de ataques. Quando concorreu à Prefeitura de Porto Alegre em 2020 foi necessário recorrer à polícia para investigar ameaças a ela e à família. No início deste ano, Manuela desistiu de concorrer ao Senado Federal pelo Rio Grande do Sul temendo por sua segurança e da família.

A insegurança, a misoginia, o terreno fértil para a ditadura miliciana, somados a uma política de ódio e intolerância impulsionada pelo Presidente da República e seus apoiadores, são alguns dos fatores que fazem do Brasil um lugar de perigo para candidaturas femininas.

Uma pesquisa realizada pelo Instituto Alziras em 2020 ouviu 45% das 629 prefeitas eleitas em 2016 e mostrou que 53% delas já sofreram assédio ou violência política pelo simples fato de serem mulheres.

Os ataques são proferidos de todos os lados, dentro dos partidos, nas redes sociais, pela sociedade em geral e até mesmo pelos veículos de imprensa.

No Espírito Santo, alguns dos ataques à vice-governadora Jacqueline Moraes (PSB) vieram do site Folha ES, que, em maio deste ano, se referiu a ela como uma "vira-lata" que "abana o 'rabo' para o dono e 'late'", em alusão ao seu posicionamento em defesa do Governo do Estado diante das denúncias de corrupção.

Independentemente das denúncias serem ou não reais, nós não vemos esse tipo de agressões serem proferidas aos políticos do sexo masculino quando colocam sua mão no fogo para defender outros políticos.

A misoginia grita diante de nossos olhos. A Deputada Estadual de São Paulo Isa Penna (PSOL) teve o seio apalpado pelo também Deputado Fernando Cury (Cidadania) em plena Assembleia Legislativa e sob as lentes curiosas das câmeras da casa. A Deputada Estadual de São Paulo Erica Malunguinho (PSOL) recebeu por e-mail ameaças relacionadas à sua participação na 26ª edição da Parada do Orgulho LGBTQIA+ e a filósofa e escritora Márcia Tiburi vive há mais de três anos exilada em razão de inúmeras ameaças de mortes que se intensificaram após a eleição de Jair Bolsonaro. Marcia foi candidata ao governo do Rio de Janeiro em 2018 pelo Partido dos Trabalhadores.

O Brasil é um dos últimos na América Latina em ranking da Organização das Nações Unidas (ONU) de direitos e representação feminina. Ocupa a 9ª posição entre os 11 países do continente sul-americano. Sua posição em comparação às 191 nações citadas no mapa global de mulheres na política também é vergonhosa, ocupando o 142º lugar.

As artimanhas para manter as mulheres de fora do ambiente de poder perpassam até pelo domínio da linguagem. Você já se perguntou por que não existe a palavra presidenta no dicionário da língua portuguesa? O que não tem, não existe, não é.

A destituição da primeira e única mulher a comandar o país, a presidenta (prefiro ser contra a regra gramatical a ser contra um Brasil governado por mulheres) Dilma Roussef (PT) foi um episódio rodeado de ataques machista como mencionei algumas semanas atrás no texto Por que Dilma Rousseff foi tão atacada pela gasolina e Bolsonaro continua sendo Mito?

É preciso combater a violência política de gênero e a maneira estruturada como ela se acomoda na sociedade brasileira.

Precisamos nos unir para garantir a participação efetiva das mulheres negras, indígenas, brancas, trans, mulheres líderes populares, mulheres de diferentes classes socioeconômicas em todos os níveis de tomada de decisão para que nossas pautas sejam atendidas e nossas vidas respeitadas. Definitivamente, o Brasil não precisa de mitos, precisa de governantes plurais comprometidos com o desenvolvimento social, político e econômico do Brasil para a consolidação da democracia.