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Cris Guterres

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Ação policial no RJ fecha 11 escolas e põe em curso guerra contra infância

Operação policial no Complexo da Penha já deixou 13 mortos - O Antagonista
Operação policial no Complexo da Penha já deixou 13 mortos Imagem: O Antagonista
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Cristiane Guterres

Cris Guterres é jornalista, empreendedora e sonhadora. Proprietária do Atrium Restaurante, palestra sobre diversidade, motivação e liderança feminina. Sua especialidade é mostrar o quanto somos fortes e podemos mudar, com competência, qualquer situação opressora ao nosso redor.

Colunista do UOL

24/05/2022 15h21

Mais uma vez os moradores de uma favela no Rio de Janeiro tiveram o sono interrompido por rajadas de tiros durante uma ação do Bope (Batalhão de Operações Especiais). As cenas de violência e morte aconteceram na manhã de terça-feira (24), no Complexo da Penha. A operação em conjunto com a PRF (Polícia Rodoviária Federal) deixou até agora 13 vítimas.

Em razão do intenso tiroteio, 11 escolas da região fecharam as portas. A educação, que poderia ser uma das armas sociais para a redução da criminalidade, fica rendida no meio do fogo cruzado sem políticas públicas comprometidas. Milhares de crianças e adolescentes do Rio estudam em colégios localizados em áreas de constante conflitos entre traficantes de diferentes facções e frequentes e violentas incursões policiais.

Os números da violência na cidade se assemelham aos de países em guerra. Tiroteios constantes, balas perdidas com destino certo, os moradores temem quem será o próximo a padecer. Maria Gabriela Sathler, Samara Gonçalves, Kaio Guilherme da Silva Baraúna são vítimas dessa guerra e foram baleados dentro do ambiente escolar nos últimos anos no Rio de Janeiro.

As escolas cariocas já não são lugar seguro há alguns anos. Maria Eduarda Alves Ferreira estava bebendo água quando foi alvejada por diversos tiros no dia 30 de março de 2017 na Escola Municipal Daniel Piza. Quando o fogo cruzado surpreendeu, professores e alunos se jogaram no chão, mas Duda, como era conhecida entre os amigos, não teve tempo de se proteger. Pelo menos um dos tiros de fuzil que atingiu a menina, na época com 13 anos, saiu da arma de um dos policiais que participaram da ação. As marcas da brutalidade ficaram no corpo de Duda e no muro da escola com mais de 20 perfurações.

Colégio de portas fechadas em razão de tiroteio não é novidade para a comunidade. Uma pesquisa divulgada pelo Centro de Estudos de Segurança e Cidadania,, elaborada a partir dos dados do Instituto Fogo Cruzado, mostrou que em 2019, 74% das escolas da rede municipal de ensino do Rio foram afetadas por pelo menos um tiroteio com a presença de agentes de segurança.

O estudo também mediu os impactos da chamada "guerras às drogas" no desenvolvimento de crianças e adolescentes em constante exposição à violência. Os resultados negativos surpreenderam até os pesquisadores.

Em escolas com entorno violento, os alunos sofreram uma perda no aprendizado esperado da disciplina de língua portuguesa de aproximadamente 64%, ou mais da metade do que seria aprendido durante um ano. Já na disciplina de matemática a perda foi ainda maior, cerca de 80% do aprendizado.

A queda no aprendizado tem impactos futuros na renda e nas oportunidades destes alunos. Não há como falar em concorrer a uma vaga no ensino particular público em iguais condições a alunos oriundos das melhores escolas particulares do país.

A rotina de confronto, insegurança e tiroteio é mais cruel com os alunos negros. O levantamento também concluiu que, quanto maior é a frequência de tiroteios no entorno de uma escola, maior é o número de alunos que se autodeclaram pretos na instituição de ensino.

Raça é um marcador de diferenciação de pessoas no Brasil e, com o estudo, fica ainda mais evidente o seu papel como um marcador de violência. Os meninos negros são os que mais morrem e os que mais perdem aula. Um futuro marcado pela ausência de oportunidade e pela presença da violência em todos os seus estágios.

Existe uma guerra contra a infância em curso no Rio de Janeiro. As crianças são assassinadas enquanto brincam, no caminho para a escola ou durante a aula. Recebem tiros de uma polícia que adotou como símbolo de coragem uma caveira com duas facas. Ou, então, são impedidas de estudarem, o que compromete toda a sua vida e futuro.

Existe uma política de morte em curso no Brasil. A crença de que o crime só é combatido com ações mais truculentas nos transformou e m um dos países mais violentos do mundo e está acabando com as nossas crianças. Uma outra questão importante é o fato de que sempre que uma ação violenta está em curso surgem, em uma tentativa de justificar mortes violentas, alegações de que a polícia brasileira seria despreparada.

A polícia brasileira não é despreparada, ela foi criada para matar preto e pobre. Ela está cumprindo o seu papel, quanto mais preta e pobre a comunidade, mais violenta é a ação e consequentemente menos aulas, menos escolas, menos educação.