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Cris Guterres

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Por que é tão estranho ver uma mulher negra, como eu, em ano sabático?

A jornalista Elis Clementino - Divulgação
A jornalista Elis Clementino Imagem: Divulgação
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Cristiane Guterres

Cris Guterres é jornalista, empreendedora e sonhadora. Proprietária do Atrium Restaurante, palestra sobre diversidade, motivação e liderança feminina. Sua especialidade é mostrar o quanto somos fortes e podemos mudar, com competência, qualquer situação opressora ao nosso redor.

Colunista do UOL

13/04/2022 04h00

Uma vez por mês, abro o espaço da minha coluna em Universa para outras mulheres negras. Hoje, é a vez da jornalista Elis Clementino, idealizadora e host do podcast Pretas em NY e cofundadora do Kilomba Collective, o primeiro coletivo de mulheres negras brasileiras nos Estados Unidos.

"Nunca encontrei uma mulher preta em um ano sabático. Nunca conheci, nunca ouvi falar. Minha mãe nem sabia o que significava ano sabático. Parei para pensar e você realmente é a primeira". Essa foi parte de uma conversa que tive com outra mulher preta brasileira que mora aqui nos Estados Unidos, onde eu vivo há sete anos.

Chegamos a esse assunto depois que a mãe dela perguntou: "Mas o que Elis faz aí?", e ela teve que explicar que não estou desempregada nem "vagabundando", como já ouvi de outras pessoas, mas que optei por não trabalhar por um ano para, além de cuidar da minha saúde mental, investir tempo e dedicação em algo que realmente queira fazer e não o que a sociedade espera de mim.

Nesse tempo vivendo nos EUA, mais especificamente em Nova York, fui dos chamados subempregos ao emprego dos meus sonhos e vivenciei de muito perto a ascensão de mulheres pretas tanto em meios corporativos, como, e principalmente, no meio político, onde decisões tomadas por aqui podem mudar narrativas ao redor do mundo.

Recentemente, por exemplo, pela primeira vez na história uma mulher preta, Ketanji Brown Jackson, foi confirmada para ser juíza da Suprema Corte dos Estados Unidos, o cargo mais alto do país, abaixo somente do cargo presidencial.

Assisti ao vivo o que eles chamam de "hearing", uma audição que dura quase uma semana para que os senadores federais possam interrogar a candidata e votar se a indicada pelo presidente estaria habilitada a ocupar o cargo.

Se você me perguntar como foi, eu diria que a palavra mais próxima é desumano ou, como bem descrito pela renomada professora da Universidade Brandeis, Anita Hills, "uma arrogância política do tipo mais evidente —ou mesmo racista. Sem surpresa no ataque (pois a desumanização da mulher preta é cotidiana), mas pelo nível, pelas profundezas em que os deputados chegaram para descreditar Ketanji", a pessoa comprovadamente mais qualificada no país para ocupar a posição. E ela sorriu durante o ataque enquanto segurava visivelmente muitas lágrimas.

O que a escolha de Ketanji tem a ver com minha história? Explico.

Minha decisão de deixar a empresa em que trabalhava e tirar um ano sabático veio em novembro do ano passado, no auge da minha carreira: 34 anos, chefe de marketing de uma marca de luxo global e trabalhando em um escritório na Quinta Avenida. Parece loucura, né? Ainda mais sendo uma mulher preta. Mas a verdade é que loucura seria se eu continuasse no ritmo que estava, obrigada a "ser forte" e "aguentar firme", enquanto tudo que eu queria era trabalhar com a liberdade de fazer o que sei fazer.

Infelizmente, gastei muito mais energia ao longo dos anos tentando provar que estava naquela posição por direito do que realmente fazendo meu trabalho. Citei o exemplo de Ketanji Brown Jackson, pois é o retrato mais preciso do meu estado de exaustão e da maioria das mulheres negras que conheço.

Mulheres negras que, assim como eu, foram ensinadas que o mais importante é fazer o que tiver de fazer para manter um emprego ou um título, mesmo que isso signifique chorar diariamente antes de dormir e abrir sorrisos em ambientes tóxicos.

Entendo que eu sou afortunada por ter uma sólida rede de apoio, como meu marido, pais, amigos, terapeuta e, assim, poder considerar colocar minha saúde em primeiro lugar e ter esta pausa. Sem isto, provavelmente, minha paixão por comunicação teria morrido e eu não teria criado meu podcast, ou mesmo começado a prestar consultoria para empreendedores negros, em apoio a comunidade na qual estou inserida aqui em Nova York, ou até mesmo voltado a escrever publicações como este texto.

E mesmo assim, ainda com todo suporte, o começo foi bem difícil. Afinal, ir para a escola para conseguir um grande emprego foi tudo o que aprendi. Ninguém me ensinou enquanto criança que a minha saúde mental é importante.

Hoje eu também entendo que minha decisão de sabatinar ou vir aqui escrever um artigo sobre isso não é, em momento algum, contra a narrativa. Sou inteiramente a favor da independência financeira das mulheres negras (da comunidade negra em geral) e de ocuparmos espaços desse sistema que foi construído inteiramente para que nós não os ocupássemos.

O que eu não sou a favor é de que mulheres negras sejam submetidas a salários mais baixos ou má condições de trabalho para fazer mais do que outra pessoa na mesma posição. Mas, ainda mais, minha decisão de vir aqui é para que possamos, cada vez mais, estarmos abertos a um debate real sobre a saúde mental da mulher negra, sobre o condicionamento social para sua existência e sobre o verdadeiro significado da palavra empoderamento.

Será mesmo que o significado de sucesso deve ser fechado para ocupar ou não um lugar à mesa, ou mesmo criar nossa própria mesa? Demorou muito para eu virar a chave mental e aprender que pausas são necessárias.

Até aqui, com esse período chamado sabático e tão incomum para uma mulher preta, aprendi que sucesso para mim é ser feliz quando vou dormir, ou mesmo não precisar daquela taça de vinho na sexta e no sábado para esquecer os problemas do trabalho e, no domingo, não ter que sofrer ataques de pânico causados pela ansiedade da reunião geral na primeira hora de segunda-feira.

É fazer algo em que não terei de gastar minha energia provando minha habilidade. E que vida de sucesso pode ser tão simples como ações voltadas para minha comunidade e não mais brigando, mas driblando um sistema que não quer que eu sobreviva.

Por fim, só desejo que cuidemos e honremos as nossas meninas e mulheres pretas. Que nós possamos desaprender que trabalhar até a exaustão, ou permanecer em ambientes tóxicos é normal. E que se torne tão comum a nós o período sabático quanto é para aqueles que não são nossa imagem e semelhança.

Elis Clementino é brasileira, jornalista e vive em Nova York há sete anos. Já atuou como head de marketing de duas marcas de luxo globais em NY. Aualmente, além de idealizadora é host do Podcast Pretas em NY, juntamente com Isabela Adão e Rute Borges, é cofundadora do Kilomba Collective, o primeiro coletivo de mulheres negras brasileiras nos Estados Unidos.