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Cris Guterres

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Sucesso do 'Mendigo Pegador' é retrato de como sociedade trata mulheres

Givaldo Alves (à esquerda) posa para foto com a influenciadora Grazi Mourão e o youtuber Diego Aguiar durante festa - Reprodução/Instagram
Givaldo Alves (à esquerda) posa para foto com a influenciadora Grazi Mourão e o youtuber Diego Aguiar durante festa Imagem: Reprodução/Instagram
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Cristiane Guterres

Cris Guterres é jornalista, empreendedora e sonhadora. Proprietária do Atrium Restaurante, palestra sobre diversidade, motivação e liderança feminina. Sua especialidade é mostrar o quanto somos fortes e podemos mudar, com competência, qualquer situação opressora ao nosso redor.

Colunista do UOL

06/04/2022 04h00

Pensei muito antes de escrever este texto e me ver oferecendo palco para um aproveitador, mas acho importante a gente refletir sobre a aptidão que o brasileiro tem para transformar em mito figuras masculinas abusadoras, com históricos de violência contra a mulher.

Ao longo da história, alavancamos diversos nomes, fomos capazes de colocar uma faixa verde amarela no peito de um e agora estamos coroando outro com a fama repentina. O personagem pitoresco da vez é Givaldo Alves de Souza, 48, homem agredido em Planaltina (DF) por um personal trainer, que o flagrou tendo relações sexuais com a sua esposa --ela, sabemos agora, provavelmente estava em surto psicótico no momento do ato.

Já não é de hoje que a sociedade e a mídia perderam a compostura e fazem de tudo por audiência. O jornalismo podre e de muito mau gosto vem avançando feroz em busca de protagonismo e, nos últimos dias promoveu o cidadão Givaldo à notoriedade, embora envolvido em um episódio grotesco da vida cotidiana que poderia ter se resumido a poucas linhas no noticiário.

Givaldo agora é uma subcelebridade. Recebe aplausos, beijos, abraços e pedidos de selfie por onde passa. É presença vip em festas e atende sob o apelido de "mendilover" ou "mendigo pegador". Alvo de câmeras curiosas em busca de likes, vem protagonizando um capítulo lamentável da história contemporânea.

O ocorrido em Planaltina ainda é investigado pela polícia e, em depoimento, Givaldo negou ter cometido estupro contra a mulher. A hipótese, porém, ainda não foi descartada. Mas nenhuma das pessoas que se apertavam por uma foto com ele em uma festa recente no Rio de Janeiro pareciam se preocupar com o inquérito envolvendo seu nome.

Também não se importaram as pessoas que figuravam em um vídeo postado na internet em que ele aparece tentando agarrar pelo braço uma das mulheres que faziam uma selfie ao seu lado. Em uma cena animalesca, sob aplausos e risos de quem os rodeavam, ele tenta beijar à força a mulher que se esquiva —você pode saber mais sobre isso lendo a coluna de Nina Lemos aqui em Universa.

Depois de armado o cenário, já são mais de 522 mil seguidores no TikTok e mais de 200 mil no Instagram nos perfis do "mendigo do amor", como ele mesmo se apresenta. O sucesso desse rapaz diz muito sobre como a nossa sociedade trata suas mulheres, com desdém e desprezo,

Estereótipos sexistas transformam homens abusadores e criminosos em lendas. Temos muitos nomes na história, desde Doca Street [condenado pela morte de Ângela Diniz], em que vemos mudar o crime, mas não o gênero da vítima: sempre somos nós, mulheres.