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Cris Guterres

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

'Acho lindo, mas odeio': por que nós, mulheres, temos medo de usar biquíni?

Getty Images/iStockphoto
Imagem: Getty Images/iStockphoto
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Cristiane Guterres

Cris Guterres é jornalista, empreendedora e sonhadora. Proprietária do Atrium Restaurante, palestra sobre diversidade, motivação e liderança feminina. Sua especialidade é mostrar o quanto somos fortes e podemos mudar, com competência, qualquer situação opressora ao nosso redor.

Colunista do UOL

12/01/2022 04h00

Na segunda-feira (10) pela manhã, enquanto me divertia em uma cachoeira, vi uma jovem que me levou a um velho conhecido sentimento: o medo do biquíni. A minha melhor definição para esta peça é: acho lindo, mas odeio.

Estou passando férias na Chapada dos Veadeiros, em Goiás. A belíssima vegetação do cerrado brasileiro, com seus animais silvestres e uma infinidade de cachoeiras, está fazendo parte do meu dia a dia. Não quero causar inveja em você, mas aqui é mesmo um paraíso. Não à toa, a cidade principal da região traz a palavra mágica em seu nome, Alto Paraíso.

Voltando à jovem: ela devia ter uns 20 e poucos anos, tinha um lindo corpo vultuoso, cheio de curvas e marcas que a história imprimiu. Vestia um biquíni azul, e em todo o tempo em que esteve fora da água, sua feição de vergonha era visível. Os braços cobriam a barriga na tentativa de esconder algo que um dia ensinaram a ela que era feio e deveria se manter escondido dos olhos de todos, inclusive dos dela.

Aquela cena me transportou para alguns momentos da minha vida, inclusive uma viagem a Salvador quando eu tinha 30 anos. Naquela viagem, me dei conta de que nunca tinha me deitado sobre uma canga, vestindo um biquíni, e me sentido livre.

Sempre estive preocupada em esconder a minha barriga e qualquer outra parte do meu corpo que eu entendia como feia.

"Já fugi de praia e piscina por vergonha"

Lembrei todas as vezes que fugi de praias e piscinas por vergonha de não ser magra, por acreditar não ter o famoso e opressor "corpo de praia". Na adolescência, não fui à viagem de formatura da escola por medo de vestir roupa de banho na frente de colegas, que já eram pouco acolhedores. Inventei uma prova de vestibular na mesma semana da viagem e posei de filha exemplar que preferiu estudar a viajar com os colegas, quando na verdade tudo o que eu queria era esconder meu corpo gordo e negro de mim mesma.

É incrível o quanto uma peça de roupa pode causar tanto pavor. Eu só não fico tão impressionada porque sei o quanto as roupas se transformaram, ao longo de toda a história, em dispositivos de oprimir mulheres.

Louis Réard, o engenheiro que inventou as duas icônicas pequenas peças do biquíni já sabia, lá em 1946, que sua ousadia era bombástica. Tanto que colocou em sua criação o nome do Atol do Bikini, local onde os Estados Unidos testavam bombas nucleares.

Ele sabia que a sociedade da época explodiria junto com sua invenção. Só não sei se ele imaginava que esta mesma sociedade usaria suas peças para explodir mentes de meninas e mulheres inseguras com suas imagens físicas.

Na atualidade, vestir um biquíni não tendo o corpo magro padrão pode ser considerado um ato revolucionário.

Enfrentar a sociedade hipócrita e preconceituosa em que vivemos, conseguir dominar seus próprios medos e vergonhas e se divertir vestindo um biquíni, independentemente do corpo que você tem, não é fácil.

Mesmo já tendo hoje toda a informação que nós, mulheres, temos para fortalecer os nossos movimentos de liberdade, entre a consciência e a ação existe um espaço longo que deve ser percorrido com muito autoacolhimento, terapia se for possível e amor-próprio. Pode parecer piegas, mas o amor é realmente uma resposta para os nossos males. Sem ele, qualquer processo de cura fica inalcançável.

Hoje, aos 40 anos, consigo me divertir na praia ou na piscina sem me preocupar se tenho ou não um corpo bonito aos olhos de quem me vê. Não que eu esteja livre dos desafios que minha mente oprimida me impõe.

Na verdade, continuo tentando preencher o caminho entre consciência e ação com muito amor-próprio. Às vezes escorrego, mas a vida é feita de altos e baixos, e se a linha fosse reta não haveria aprendizado.

Já não é mais comum que eu deixe de fazer alguma coisa por não me achar com o corpo adequado, mas quando percebo a tempo que estou me escondendo, corro e me jogo no que quero fazer, vou com medo, com vergonha, mas buscando felicidade. Só não deixo que os outros decidam o que devo vestir, o que devo fazer e onde devo ir.

Ninguém sabe o que se passa aqui dentro, e não vou deixar que decidam o que se passará do lado de fora.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL