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Cris Guterres

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

A sabotadora é a personagem do momento

Cris Guterres em palestra no TEDxSãoPaulo - Reprodução
Cris Guterres em palestra no TEDxSãoPaulo Imagem: Reprodução
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Cristiane Guterres

Cris Guterres é jornalista, empreendedora e sonhadora. Proprietária do Atrium Restaurante, palestra sobre diversidade, motivação e liderança feminina. Sua especialidade é mostrar o quanto somos fortes e podemos mudar, com competência, qualquer situação opressora ao nosso redor.

Colunista do UOL

20/10/2021 04h00

Toda vez que escrevo ou falo sobre ela em meus textos, postagens ou palestras, ela causa o maior frisson. É ela, a inenarrável, a imensa, a perversa, aquela que aparece nas horas que antecedem momentos de sucesso e glória. Senhoras e senhores, com vocês: a sabotadora.

Sim, ela é um sucesso. Sempre que falo da sabotadora recebo muitas mensagens e comentários de pessoas que se identificam com esse meu alter ego. Ela é terrível! Já me faz perder algumas conquistas e, por diversas vezes, duvidar da minha própria capacidade criadora. Por acaso você também se familiariza com ela? Ela é sua parente, faz parte da família; tem um quarto especial para ela na sua casa?

Há alguns anos estava dirigindo pelo centro de São Paulo quando meu telefone tocou anunciando uma ligação através do Messenger, o aplicativo do Facebook. A foto e o nome da pessoa que me ligava saltaram a tela. Era Helena Crescia do TEDxSãoPaulo. Parece até que Helena havia ouvido as últimas orações que fiz para a santa Beyoncé. Sim, eu tenho um altar em casa e, nele, tem as fotos dos meus ancestrais: as imagens dos Orixás que me guiam, Nossa Senhora Aparecida, e uma imagem da Beyoncé. Se esta mulher não tiver poder para ser santa, ao menos a energia cósmica que a rege é imensa o suficiente para também resplandecer sobre mim.

Enfim, acho que Helena deve ter ouvido meus clamores, pois um dos meus grandes sonhos era realizar um TED. Estar ao centro de um dos tapetes vermelhos mais famosos do mundo e dividir com a plateia algum dos aprendizados que fiz ao longo da minha curta vida; é uma consagração profissional. Para algumas empresas, no momento da seleção, vale mais que um MBA. Significa que suas pesquisas e sua atuação são de tamanha relevância que você merece dizer isso ao mundo.

Quando vi a ligação da Helena, eu parei o carro imediatamente para atendê-la. Lembro daquele momento em detalhes. Helena se apresentou e disse que gostaria muito que eu participasse do próximo TEDxSãoPaulo que aconteceria em dois ou três meses. Perguntou se eu tinha interesse e eu fui rápida ao dizer que seria a realização de um grande sonho.

Combinamos datas para nos falarmos novamente e eu apresentar um esboço do que eu gostaria de falar durante 15 minutos sobre o tapete vermelho. Assim que desliguei o telefone, ela apareceu sem me dar tempo nem para comemorar o convite tão esperado. Eu passei a me questionar se seria a pessoa mais indicada para viver aquele momento. Por que eu?

Era como se uma voz dentro de mim dissesse que eu não merecia, que eu não tinha capacidade e que a Helena havia ligado para pessoa errada. Aos poucos, a sabotadora foi tomando o lugar da excepcional Cristiane e eu me sentava em frente ao papel para escrever o esboço e nada saía. Eu, que sempre junto as palavras de maneira fluida e de forma muito rápida, não conseguia sair do sentimento de que não era capaz de realizar e escrever sequer o título.

Os dias se passaram, e eu não consegui escrever o TED. Eu não compareci à reunião com a Helena. Eu não pisei no tapete vermelho. Eu me sabotei. Senti a dor irreparável da derrota diante de um auto sabotamento. Era como se eu tivesse sido atravessada pelo meu medo, e a dor que ele deixara me causava vergonha e fraqueza. Por tempos tentei contato com Helena para me desculpar, mas foi sem sucesso.

Assim como neste ocorrido, a sabotadora aparece em momentos específicos. Sempre que leio o meu currículo ou que alguém me apresenta em algum evento ou entrevista enumerando os feitos profissionais que conquistei ao longo de 20 anos de vida profissional, a sabotadora vem como uma figura malévola ao pé da minha orelha direita sussurrar: 'você tem certeza que esta é mulher é você mesma? Talvez eles estejam falando de outra pessoa. Ainda dá tempo de desistir, desista, não avance.'

Quando conheço alguém bacana e inicio um relacionamento amoroso, ela vem me dizer que uma pessoa legal como aquela só deve estar querendo se divertir com uma mulher sem graça como eu e, por vezes, me convence a terminar antes que eu seja rejeitada, porque na minha cabeça a rejeição é sempre certa e próxima. Ela é implacável e uma crítica feroz de todos os meus feitos. Não reconhece nada de bom que eu faça ou proclame.

Ela é incansável e se alimenta de medo. Cada vez que sente cheiro de medo em meus pensamentos, ela ressurge predestinada a me convencer de que sou uma fraude e que todas as minhas façanhas são meras sacadas de sorte de alguém que nasceu com o bumbum virado para a lua e a cabeça abençoada pela água benta de um padre iluminado.

Eu sei que, se você chegou até este parágrafo, é porque muito provavelmente tem uma sabotadora vivendo ao seu lado e algo do que relatei aqui faz com que você se identifique e encontre uma resposta para vários sentimentos que sabia exatamente o que eram. Precisamos encontrar táticas para lidar com a auto sabotagem e, muitas delas, não estão num texto do blog da Cris no Universa, mas sim num consultório terapêutico. Esta foi uma das armas que utilizei para lutar com a ansiedade que me provocava a me sabotar, terapia.

Eu nunca vou me livrar dela, mas hoje não a alimento mais. Ela parece sempre me acompanhar, só que eu não permito que ela abra a boca para dizer qualquer coisa sobre mim. É um esforço contínuo num processo de autoconhecimento eterno, mas que traz contemplações fabulosas.

Recentemente, fui novamente convidada por Helena para enfim realizar o tão sonhado TEDxSãoPaulo. Me preparei com calma, muita meditação e acolhimento dos meus medos. Eu me entreguei de cabeça na elaboração de minha fala. Contei sobre os meus aprendizados nos últimos dois anos. Quando pisei no tapete vermelho, senti como se meu corpo fervesse. Não tinha plateia em razão da pandemia, mas as câmeras de filmagem pareciam como a multidão a me fitar.

Foi um momento intenso em minha vida. Nunca me senti tão nua e, ao mesmo tempo, tão segura. A segurança veio do aprendizado mais importante que absorvi nos últimos anos: a vida não espera. Pois é, minha cara, ela não espera. A vida é implacável, corre na velocidade da luz e, quando a gente menos se dá conta, ela passou, foi, já era.

Sendo eu um ser consciente de que a vida não espera, só me resta viver a vida dos meus sonhos. É isso que tenho feito da melhor maneira possível.

Passe neste link abaixo e assista meu TEDxSãoPaulo. Eu escrevi com toda a minha força de quem é capaz de vencer qualquer desafio na vida, inclusive a terrível, a implacável, a inominável sabotadora.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL