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Cris Guterres

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Na pandemia, perdi a tia, o meu restaurante e aprendi a valorizar o agora

A pandemia fez Cris Guterres fechar seu restaurante, mas também lhe trouxe um filho: Rafael, de 16 anos - Pryscilla K./UOL
A pandemia fez Cris Guterres fechar seu restaurante, mas também lhe trouxe um filho: Rafael, de 16 anos Imagem: Pryscilla K./UOL
Cristiane Guterres

Cris Guterres é jornalista, empreendedora e sonhadora. Proprietária do Atrium Restaurante, palestra sobre diversidade, motivação e liderança feminina. Sua especialidade é mostrar o quanto somos fortes e podemos mudar, com competência, qualquer situação opressora ao nosso redor.

Colunista de Universa

18/05/2021 04h00

Meu pai sempre gostou de dirigir. Este prazer que ele tinha pelo volante nos rendeu inúmeras aventuras em família. Lembro, como se fosse hoje de uma das viagens de mais de 3 mil km entre São Paulo e São Luís do Maranhão. Eu me lembro das belezas do caminho, do sol latente em nossas cabeças, das comidinhas e hospedarias baratas de beira de estrada e da angústia que eu sentia por não ter percepção de quando chegaríamos.

Eu perguntava o tempo todo: "estamos chegando? Falta muito?". Era uma sensação de estar perdida num espaço limite entre o prazer gerado pela minha ansiedade de chegar e a agonia de não saber em que momento realmente chegaríamos. Essa confusão temporal me fazia viver o momento com meus olhos fechados para o presente.

Este momento pandêmico tem me trazido novamente essa aflição. Vivo numa desordem temporal. Uma diária sensação de que o tempo está me sabotando, e já não consigo mais ter controle sobre a sua percepção. Ansiosa por tempos futuros pós-pandêmicos e atordoada por não saber quando os viverei. Me vejo alimentando a ideia da dissolução do agora e lamentando aquilo que poderia ter sido o momento atual.

Se não fosse a pandemia de covid-19, meu restaurante ainda estaria aberto, minha tia não teria falecido, eu não estaria desempregada, eu estaria viajando. Se não houvesse a pandemia, se não tivesse o coronavírus...

Me vejo insistentemente começando as frases com verbos no pretérito imperfeito do subjuntivo para expressar meus desejos e probabilidades de acontecimentos dos quais não tenho e nem nunca tive controle, seja em tempos de pandemia ou em tempos habituais

Lamentar aquilo que poderia ter sido recusando-me a viver o momento que tenho nas mãos. Por muitas vezes esse foi meu passatempo. Fico envolta em pensamentos de como as coisas teriam acontecido se não tivéssemos um vírus altamente contagioso espalhado pelo ar.

Às vezes acredito que muitos de nós estamos agindo assim em razão da realidade estar tão mais dolorida do que antes e acabamos criando uma fuga. Ainda se eu morasse na Nova Zelândia onde ninguém morre de covid-19 desde dezembro, não seria uma boa escolha fechar os olhos para a necessidade de se viver um dia de cada vez e direcionar nossos pensamentos para onde o tempo não nos permite estar fisicamente.

Venho aprendendo a gozar o presente há poucos anos. Precisei perder quase todo o meu tempo de vida para entender o quão valioso é o segundo que tenho neste exato momento para respirar. A pandemia nos esfrega na cara a fragilidade da vida e isso me fez desorganizar tudo aquilo que tinha aprendido sobre o instante

É como se alguém tivesse trocado as milhares de gavetas do meu cérebro de lugar e eu me visse obrigada a reorganizar sozinha sem saber onde cada gaveta deveria estar.

Não tenho uma resposta para como viver este momento de tantas dores sem me confundir mentalmente, venho tentando encontrá-las através do acesso privilegiado a uma terapia e de uma busca intensa por informação.

O que sei é que não podemos seguir para o conformismo, ainda mais vivendo num país onde mais de 430 mil pessoas morreram em decorrência de covid-19 no país. A maioria destas mortes ocasionadas por uma omissão do Ministério da Saúde e dos maus exemplos promovidos pelo presidente Jair Bolsonaro (sem partido). Mas penso que a reflexão sobre o que mais importa para mim agora possa me ajudar a realinhar as ideias e a me colocar novamente no momento presente.

Por isso, finalizo este texto aqui e vou correndo mandar mensagens para as pessoas que amo. Não há como dizer que não tive tempo quando o tempo é, na verdade, uma questão de preferência, somos nós que escolhemos como iremos desfrutá-lo.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL