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Cris Guterres

Foi marketing, mas pela 1ª vez uma mulher negra é nosso ícone de futuro

Enfermeira Mônica Calazans, de 54 anos, é a primeira brasileira a receber dose da vacina CoronaVac - Governo do Estado de São Paulo / Divulgação
Enfermeira Mônica Calazans, de 54 anos, é a primeira brasileira a receber dose da vacina CoronaVac Imagem: Governo do Estado de São Paulo / Divulgação
Cristiane Guterres

Cris Guterres é jornalista, empreendedora e sonhadora. Proprietária do Atrium Restaurante, palestra sobre diversidade, motivação e liderança feminina. Sua especialidade é mostrar o quanto somos fortes e podemos mudar, com competência, qualquer situação opressora ao nosso redor.

Colunista do UOL

19/01/2021 04h00

Que domingo tivemos! Enfim existe uma esperança, temos vacina!

Eu estava atenta à TV quando a ponta da agulha rompeu delicadamente o braço negro de Monica Calazans permitindo que o tão esperado líquido vacinal percorresse seu corpo instigando seu sistema imunológico e nos permitindo voltar a sonhar com os abraços calorosos, os dias de trabalho rotineiros ou até mesmo com nosso corpo se refestelando num Carnaval qualquer de fevereiro.

A primeira pessoa a tomar a CoronaVac no Brasil é uma enfermeira de 54 anos, negra, moradora de Itaquera, bairro do extremo leste da periferia da cidade.

Assim que a imagem de Mônica inundou as redes sociais, o ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, veio à público visivelmente irritado com o ato simbólico que ocorreu em São Paulo e acusou o governador do estado, João Doria (PSDB), de "desprezar a lealdade federativa" e promover uma "jogada de marketing". Foi a primeira vez em meses que ouvi Pazuello dizer algo que tivesse fundamento, pois até o momento ele só havia proferido inverdades e sandices no comando da pasta.

Sim, João Doria fez marketing. Está resoluto a se promover por entre as frestas da incompetência de toda a equipe do governo federal, a começar pelo presidente Jair Bolsonaro (sem partido) que pode vir a ser seu adversário político nas próximas eleições presidenciais. João Doria não dá ponto sem ter a certeza de que o nó está firme. Sendo ele um dos empresários mais ricos do país, uma das suas grandes e habilidades é o marketing.

Doria escolheu para serem os primeiros vacinados as pessoas que mais foram desprezadas nas campanhas eleitorais e falas hostis de Jair Bolsonaro. Pessoas que são esquecidas pelas políticas públicas mal planejadas ou inexistentes do país, inclusive as propostas pelo próprio estado de São Paulo. Os índios e quilombolas que Bolsonaro tanto deprecia e as mulheres negras que, entre tantas violências sofridas, são as maiores vítimas de feminicídios e sequer são consideradas pelas políticas de redução de casos de violência contra a mulher.

Pazuello devia estar preocupado com a falta de oxigênio em Manaus e não com o fato de Doria ter iniciado a vacinação antes dos outros estados. Devia ter feito um pronunciamento pra dizer quais as medidas determinadas para conter a situação periclitante do Estado do Amazonas.

Um Estado que abriga parte da floresta que já foi considerada o pulmão do mundo está sendo consumido neste governo. Tudo vira dinheiro na mão de ladrões de oxigênio. Roubam o oxigênio dos índios em invasões orquestradas por fazendeiros que transformam qualquer forma de vida local em pasto.

Teremos vacina ainda que Doria tenha usado toda esta situação para se promover e pela primeira vez na história deste país colonial uma mulher negra foi vista como um ícone do futuro que parte da população quer. São Paulo, assim como todo o Brasil, foi construído com muito sangue negro. Sangue de pessoas que foram sequestradas, escravizadas, duramente violentadas e assassinadas para que uma narrativa branca de poder fosse validada.

Fico imaginando o que nossos ancestrais teriam sonhado para o nosso futuro enquanto estavam sofrendo acorrentados. Mônica, a primeira vacinada, é o sonho mais selvagem de seus ancestrais. Não por ter recebido a vacina, mas por ter uma vida inteira dedicada à mudança de curso de sua própria vida, apesar de todas as tentativas de objetificação sofridas ao longo do caminho.

A formação superior como enfermeira só foi possível aos 47 anos. Depois de muitos anos como auxiliar de enfermagem, Mônica conseguiu investir financeiramente na possibilidade de se formar e se tornar uma das primeiras de sua família a ter um diploma de nível superior.

Diabética e hipertensa, a enfermeira faz parte do grupo de risco do novo coronavírus, no entanto, o trabalhar no Instituto Emilio Ribas, um dos hospitais no epicentro de combate à pandemia, foi uma escolha da própria Mônica. Segundo ela, a vocação falou mais alto. De sua casa ao hospital são cerca de 30 quilômetros percorridos dia sim, dia não em ônibus e metrô lotados.

Mônica é mais uma destas mulheres que movem o mundo pelas margens. Mesmo estando à beira não deixa de se mobilizar para fazer o que acredita ser necessário em prol de si e dos outros. Ela é uma mulher negra em movimento.

No início de 2020 uma peça publicitária da propaganda do governo do presidente Jair Bolsonaro levantou discussão por reunir cinco crianças brancas representando o futuro do país. A peça, uma foto europeia comprada num banco de imagens, foi criticada por invisibilizar a real diversidade da população brasileira. Hoje penso naquelas crianças olhando pra cima vendo Mônica de pé em sua declaração logo após ter tomado a vacina.

"Estou falando agora como brasileira, mulher negra, que [você] acredite na vacina. Vamos pensar nas vidas que perdemos", disse sabiamente a enfermeira.

O futuro deste país, que foi construído sobre as costas de pessoas negras numa expectativa de que elas não mais existissem no século 21, foi reprocessado. Os humilhados serão vacinados!