PUBLICIDADE

Topo

Blog Nós

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Devemos nos contentar em sermos avós de plantas, de gatos e cachorros?

A decisão ter não filhos: uma atitude egoísta ou libertadora? - miodrag ignjatovic/Getty Images
A decisão ter não filhos: uma atitude egoísta ou libertadora? Imagem: miodrag ignjatovic/Getty Images
Conteúdo exclusivo para assinantes
Brenda Fucuta

Brenda Fucuta é jornalista, escritora e consultora de conteúdo. Autora do livro "Hipnotizados: o que os nossos filhos fazem na internet e o que a internet faz com eles", escreve sobre novas famílias, envelhecimento, identidade de gênero e direitos humanos. Além de entrevistar pessoas incríveis.

Colunista do UOL

17/01/2022 04h00

Há poucos dias, o papa Francisco criticou os pais e as mães de plantas e de bichos. Segundo ele, não ter filhos é um ato egoísta e um sinal de que a humanidade está se diminuindo. Faz muito tempo que penso no tema e a fala do papa é um gancho ótimo para tocar no assunto.

Por que a decisão de não ter filhos seria um ato egoísta? Algumas amigas concordariam na hora com essa posição. Costumam reclamar da demora dos filhos em providenciar netos. Eu mesma já brinquei com meu filho mais velho, dizendo que todas as conhecidas a minha volta estavam virando avós. E recebi, de resposta, um bem-merecido "essa não é uma decisão sua, é?".

Exato, não é uma decisão da gente. É deles. No século passado, quando adotamos a pílula anticoncepcional e ligamos as trompas, os casais diminuíram radicalmente o tamanho da família, mas foram raros os que, por vontade própria, decidiram não deixar descendentes. Mulheres que não geravam, eram estranhadas. Hoje, mulheres se sentem mais livres para abrir mão da maternidade. Eu tendo a achar que essa é uma conquista feminina e uma conquista geracional. Nenhuma mulher deveria ser obrigada a ser mãe. Nenhum homem, a ser pai. Além disso, o mundo, com seus mais de 7 bilhões de habitantes, não parece estar precisando de mais moradores.

Mas é claro que Francisco, inteligente, não fala do desejo de mulheres de serem avós. Imagino que fala sobre a continuidade da espécie. Passar para a frente o DNA, blabla, aquilo que aprendemos nas aulas de biologia. Ao não cumprirem o papel esperado de seres reprodutivos, nossos filhos estariam sabotando a lei máxima da sobrevivência da espécie. Estariam pensando de forma individualista, não coletiva. Um bom argumento, certo?

Então, decisão egoísta ou decisão libertadora?

Aí, acrescentamos o elemento complicador seguinte. Seres vivos gostam de companhia. Seres humanos precisam cuidar e ser cuidados. Na falta de crianças, o que fazemos? Compramos umas plantinhas, adotamos um cachorrinho. As grandes cidades ganham lojas enormes para pets, as lojas para pets abrem espaço para a jardinagem. E nossos filhos nos pedem que chamemos seus bichinhos de netos, que os peguemos no colo e que falemos com eles como se falássemos com um bebê. Eu, por exemplo, sou avó de uma cachorra e de um gato. A Nina, border collie que foi adotada pelo tio-avô para poder viver na roça, e o Morfeu (batizado em homenagem ao deus grego dos sonhos, o que se revelou um erro, já que o gato é endiabrado e faz tudo, menos dormir e sonhar). Vira e mexe, me pego comprando brinquedinhos para eles. Como disse uma entrevistada dessa coluna, os bichos exigem tão pouco e nos dão tanta coisa em troca! Morfeu pede ração três vezes por dia e areia limpa no lugar onde faz xixi e cocô. Como pagamento, nos dá alegria. Nem de perto, eu acho, o tanto de alegria e amor que um filho humano traria à nossa família. Por mais que eu respeite nossa capacidade de amar bichos (ainda estou me decidindo em relação aos vasos de plantas), não acredito em uma equivalência no tipo de relacionamento emocional que estabelecemos com crianças. Por outro lado, todos sabemos, humanos exigem mais do que comida e fralda limpa. Exigem um compromisso de longuíssimo prazo, paciência sem fim, gastos escolares, gastos com roupa, computadores e celulares, mesadas, reuniões na escola, festinhas de aniversário, preocupações. Ser mãe e pai de bicho é mais fácil.

Tudo bem se a pessoa não quer ter filhos, mas por que não cuidar de uma criança órfã em vez de cuidar de bichos e plantas? Já ouviu essa frase em algum lugar? Tenho certeza de que sim. O próprio papa menciona uma ideia parecida ao defender a cultura da adoção. Mas essa não seria uma falsa correspondência? Quem é pai de planta e de bicho não necessariamente será um bom pai de criança. A adoção de órfãos é absolutamente louvável, um gesto de humanidade, generosidade e solidariedade, e deveria ser praticada por qualquer pessoa, não apenas pelas que decidiram não ter filhos. Estas, pelos motivos que já citei, talvez sejam as menos indicadas para a tarefa.

Voltando a Francisco e à nobre tarefa da reprodução. Ele acredita que pais e mães de plantas e bichos nos diminuem enquanto humanidade. Seria de fato um sinal de decadência, de declínio, nós preferirmos outra espécie, que não a dos nossos descendentes genéticos, para convivermos e nos relacionarmos? Talvez. Talvez estejamos cansados de nós mesmos, talvez não queiramos mais lidar com expectativas e decepções - se tem uma coisa que gato e cachorro não fazem é nos decepcionar. Primeiro, porque eles sabem que, se fizerem isso, vão perder a cama quente e a comida farta. Depois, porque jamais nos frustraremos porque não vamos sonhar que eles sejam o primeiro da classe, façam faculdade, arrumem um bom emprego, se casem com uma pessoa legal e... nos deem netos.

Por último, se olharmos a decisão de não ter filhos sob a perspectiva das grandes mudanças demográficas, aí, sim, vamos sentir o impacto no futuro da humanidade.

Espera-se que, nas próximas décadas, o Brasil diminua de tamanho. Até o fim do século, mais de 20 países, segundo pesquisa da Universidade de Washington citada pela revista "Superinteressante" em julho de 2020, vão precisar importar moradores se quiserem se manter do tamanho atual - com gente jovem trabalhando, pagando impostos e gerando renda. Ou, como já fazem agora a Rússia e a Itália, vão ter de incentivar jovens a se reproduzir em um ritmo mais parecido com o dos avós. Até os anos 50 do século passado, nossa média de reprodução global era de quase 5 filhos por mulher. Hoje, está em menos de 2. Então, é conta de padeiro. Com 2 filhos por casal, já não estamos repondo a população.

O que me leva a pensar que, de fato, deixamos muita coisa nas costas dos nossos filhos. Eles vão precisar lidar com o resultado das decisões que nós e nossos pais tomaram no passado - e o resultado é preocupante. Estudo publicado na revista científica "The Lancet" em setembro mostrou que, no Brasil, quase cinco em dez jovens entrevistados hesitam em ter filhos por causa das incertezas climáticas do futuro do planeta. Foram ouvidos 10 mil jovens de 16 a 25 anos em dez países.

Portanto, com todo respeito pelo papa, que eles possam ter o direito de ser mãe e pai de plantas, se quiserem. Essa não é mais uma decisão nossa.

Blog Nós