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'A Filha Perdida' e o dilema: mães amam, mas também odeiam seus filhos

A atriz Olivia Colman vive Leda, a protagonista de "A Filha Perdida", da Netflix - Reprodução
A atriz Olivia Colman vive Leda, a protagonista de "A Filha Perdida", da Netflix Imagem: Reprodução
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Brenda Fucuta

Brenda Fucuta é jornalista, escritora e consultora de conteúdo. Autora do livro "Hipnotizados: o que os nossos filhos fazem na internet e o que a internet faz com eles", escreve sobre novas famílias, envelhecimento, identidade de gênero e direitos humanos. Além de entrevistar pessoas incríveis.

Colunista do UOL

07/01/2022 04h00

A atriz Olivia Colman não é magra, não é loira, não é linda. Só por essa razão seria uma alegria assistir ao filme "A Filha Perdida", em que ela atua como Leda, mulher de 48 anos que, entre outras coisas, flerta com dois homens, um aproximadamente 20 anos mais velho, outro, uns 20 anos mais novo, em suas férias de verão. Mas existem outros motivos incríveis para ver este filme da Netflix. O jeito como se aborda a parentalidade parece ser o mais importante. No longa, vemos um jovem casal, com duas filhas pequenas, vivendo diariamente a viagem que vai do céu diretamente para o inferno. Felizmente, a viagem costuma ser de ida e volta. Sim, eu disse isso mesmo: o inferno, esse destino muito conhecido e pouco divulgado para onde vão os pais na convivência com seus filhos.

Filhos nos decepcionam, especialmente quando sonhamos alto demais. Crianças, mesmo as mais amadas, nos irritam. Podemos ser apaixonados por elas, mas existem momentos em que queremos simplesmente fechar a porta de casa e deixá-las para trás. Ir embora. Nem que seja para um passeio de poucas horas. Ou para buscar outra vida, quando a experiência da maternidade se mostra além das forças que temos naquele momento.

A maternidade é cheia de culpa e de sentimentos contraditórios. Ela não é linda, embora também possa ser linda. Ela não é mágica, embora também possa ser mágica. Com a interpretação absurdamente arrebatadora de Olivia Colman e Jessie Buckley - atriz da Leda jovem mãe - eu me senti como em um bom grupo de terapia, quando a gente percebe que erros e pecados não são exclusivos, são compartilhados entre a espécie humana.

Que bom perceber que não foi só a gente que perdeu a paciência com o filho que quis testar limites. Que nem sempre as boas intenções e os manuais de como ser bons pais funcionam quando as crianças, mesmo pequenas e adoráveis, decidem chantagear, manipular e tirar o máximo que podem. "Ela me suga", diz Leda, em uma fala do filme, referindo-se a uma das filhas. Alguns filhos mamam para sempre.

É um absurdo falar isso? Será que meus filhos, já adultos, se lerem este texto (eles não costumam fazê-lo), vão ficar chocados? Ou vão entender que mães não são perfeitas e nem aquela fonte inesgotável de paciência, energia e de amor que tanto celebramos? Eles vão se lembrar dos meus momentos de choro inexplicável, que agora eu posso contar: vinha do esmagamento causado pela sensação de solidão, pela sensação de incapacidade de fazer o certo na tarefa mais difícil de todas as tarefas: criar um ser humano.

Não dizem que para criar filhos se exige uma vila inteira? Por que estamos tão sozinhos nessa ocupação? E por que falamos tão pouco disso? De volta ao filme, agradeço a oportunidade dada pelo roteiro, baseado em obra da escritora Elena Ferrante, de me reconhecer nele. De identificar os momentos de maravilhamento e de frustração que marcam a convivência com os filhos. Que alívio saber que eu não estava sozinha.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

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