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Ensaio de newborn, smash the cake: não basta ter filho, tem que comemorar

Nas festas de revelação, mães e pais celebram a descoberta dos órgãos genitais de seus futuros filhos - Getty Images/BBC
Nas festas de revelação, mães e pais celebram a descoberta dos órgãos genitais de seus futuros filhos Imagem: Getty Images/BBC
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Brenda Fucuta

Brenda Fucuta é jornalista, escritora e consultora de conteúdo. Autora do livro "Hipnotizados: o que os nossos filhos fazem na internet e o que a internet faz com eles", escreve sobre novas famílias, envelhecimento, identidade de gênero e direitos humanos. Além de entrevistar pessoas incríveis.

Colunista de Universa

13/12/2021 04h00

Se você não faz parte dos quase 6 milhões de brasileiros que se transformaram em mães e pais em 2021, bem-vindo ao surpreendente mundo das festas de bebês. Neste post, você vai descobrir que o chá de bebê ficou cafona e que a festa de revelação perdeu um pouco de sua opulência por causa da pandemia, mas continua obrigatória.

Quero dividir com você meu espanto diante de um mercado pujante, criativo e - julgamentos à parte - cheio de emoções. Quando comecei a pensar no assunto, estava interessada nas festas de revelação, quando mães e pais celebram a descoberta dos órgãos genitais de seus futuros filhos.

"Qual o sentido dessas festas em um mundo que questiona a separação da humanidade em azul e rosa?", pensei. Esse questionamento acontece, de tempos em tempos, na comunidade mineira Mommys, com 9 mil mães no Facebook, me conta a fundadora, Mariana Bicalho. Mas mesmo com muitas mães evitando o uso dessas cores tão limitadoras do gênero humano e optando por outras mais neutras, as festas de revelação continuam acontecendo.

"Independentemente de qualquer coisa, a festa revelação é mais um momento de celebrar, de reunir a família", explica Mariana. "Na chegada de um filho, a pessoa quer comemorar tudo, todas as fases. Por isso, apesar de achar ultrapassada essa história de rosa e azul, fiquei mais positiva em relação ao assunto."

Nas festas de revelação, os casais deixam que um parente ou amigo vislumbre o resultado do exame que vai lhes revelar o sexo do feto. Esse exame, sexagem fetal, costuma se realizado próximo às 12 semanas de gestação. A festa de revelação é, portanto, a primeira celebração pública do calendário de grandes comemorações da gravidez.

Assim que essas festas foram importadas dos norte-americanos, os casais costumavam cortar um bolo no ápice da celebração. Dentro dele, a cor azul ou rosa da massa revelava a surpresa do dia. Ao se popularizar, a festa de revelação foi substituindo o bolo por outros formatos: balões de cores diferentes subindo na hora da revelação, fumaças se dissipando no ar, líquidos mudando de cor etc...

Mesmo não sendo obrigatórios, é de bom-tom que presentes sejam levados por convidados, parentes e amigos. Entrevistando uma vendedora de loja de artigos de bebê, descubro que não é fácil a vida dos presenteadores atuais, que precisam visitar a loja duas vezes. Primeiro, para escolher roupas ou brinquedos de cores neutras. Depois, ao serem notificados do gênero masculino ou feminino, para trocar os presentes.

Festa mais íntima na pandemia

Quando esse tipo de evento estava ganhando status e ostentação, veio a pandemia. Mariana Bicalho me diz que as festas se tornaram mais íntimas e que a abundância foi trocada pela praticidade. Não só as festas de revelação foram simplificadas, aliás, mas todas as que se seguem durante e após a gravidez. "Agora, bufês preparam uma caixa com bolo e um mini cenário. É a festa na caixa, só abrir e comemorar."

Mariana acha que, mesmo com a volta das comemorações em espaços menores, vai demorar um pouco para o retorno do evento ostentação. "As pessoas perceberam que é bom ser mais simples. Antes, eram obrigadas a convidar todo mundo, a gastar muito."

Bufê na maternidade e ensaio de newborn

E quais são as outras festas? O chá de bebê já era. No lugar, nasceu o chá de fraldas. Este, evidentemente, reúne amigos e familiares para abastecer de fraldas a cômoda do bebê. Aí, até que se invente uma nova festa, o ciclo de comemorações só retorna quando o bebê nasce. Mariana me conta que maternidades já perceberam a oportunidade de mercado que se apresenta. "Algumas oferecem até serviço de home fest", diz. "Você chega na maternidade e encontra um guichê de eventos."

Este tipo de recepção, fico sabendo, chega a simular um bufê dentro do quarto da nova mãe, coisa que Mariana critica. "Acho surreal. É um momento muito delicado, tanto para criança quanto para a mãe."

Vejamos: festa de revelação, chá de fraldas, bufê no nascimento. O que mais? O ensaio de newborn, que não é exatamente uma festa, mas um evento que será divulgado nas redes sociais. Fotógrafos especialistas nesse tipo de ensaio se esmeram na captação dos momentos sublimes (ou assim se espera) do relacionamento entre mãe e recém-nascido. Roupinhas de bailarina ou do time de futebol do pai são bem populares nesses ensaios, cuja regra é que os pais não esperem mais do que dez dias de idade do bebê.

Mesversários e smash the cake

Peraí, não acabou. Agora, vamos falar dos mesversários. Você talvez já os conheça, a irritante comemoração mensal do nascimento das crianças. (Coitado do parente ou do amigo de pais recém-nascidos, condenados a comer bolo confeitado todo mês.) Mariana diz que alguns desses eventos são tão grandiosos que deixam festas de casamento no chinelo.

Se você já está cansado de festa e acha que a última agora é a apoteótica comemoração de 1 ano de idade, acertou. Mas não é qualquer festa de 1 ano. Obrigatório como um brigadeiro nos aniversários dos meus filhos, é o registro fotográfico ou em vídeo da criança se lambuzando de bolo. Mais uma vez, o evento tem nome gringo: smash the cake. E é tão popular nas redes sociais que já ganhou uma variante mais saudável para pais que evitam açúcar precocemente: o smash the fruit.

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