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Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

De Marieta a Raia: não importa como envelheçam, famosas seguem julgadas

Reprodução/Instagram/Iude Richele
Imagem: Reprodução/Instagram/Iude Richele
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Brenda Fucuta

Brenda Fucuta é jornalista, escritora e consultora de conteúdo. Autora do livro "Hipnotizados: o que os nossos filhos fazem na internet e o que a internet faz com eles", escreve sobre novas famílias, envelhecimento, identidade de gênero e direitos humanos. Além de entrevistar pessoas incríveis.

Colunista de Universa

15/11/2021 04h00

O que pensaria o inventor da coloração de cabelo, o químico alemão August Wilhelm von Hofmann, se viajasse na máquina do tempo e pousasse no Brasil no mês de novembro de 2021, durante a pandemia? Será que repensaria seu investimento na criação da tintura que, desde 1863, esteve à disposição das pessoas como principal ferramenta para esconder a velhice? Porque, no mínimo, se ele ligasse para tendências de beleza, ficaria desapontado com a moda dos cabelos brancos entre as mulheres.

Sim, von Hofman, falar de novas formas de envelhecer está na moda no Brasil. Finalmente, criamos coragem para debater um dos mais difíceis tópicos entre as mulheres brasileiras: o abandono do ideal jovem, magro, liso e loiro que perseguimos por toda a vida. E mesmo Marieta Severo, que até os 74 anos foi fiel às tinturas, tem dado entrevistas sobre cabelos brancos e conquistas femininas. (Ela acabou de fazer 75 e estreia de cabeça grisalha na novela Um Lugar ao Sol.)

Por falar em Marieta Severo, várias outras atrizes estão na linha de frente desse debate acalorado, entre elas, mais recentemente, Glória Pires, 58 anos e Claudia Raia, 54. Podia ser diferente? A antropóloga Mirian Goldenberg, 64, está há décadas pesquisando o assunto - a relação das brasileiras com o envelhecimento -, mas as redes sociais pegam fogo quando Glória Pires mostra seu novo penteado, com os cabelos brancos, ou quando Claudia Raia passa a defender a ideia de que mulheres com mais de 40 não são passadas.

Eu disse que, com as celebridades, o debate sobre o envelhecimento é acalorado. Temos uma relação de amor e ódio com as mulheres que nos representam. Amamos as celebridades porque elas são as deusas que nos guiam, nos dão esperança, nos contam uma história melhor do que a nossa. As odiamos quando nos sentimos traídas e enganadas. Segundo Daniela De Bonis Coutinho, criadora da comunidade Grisalhas Assumidas e em Transição, Glória Pires foi esculachada por muitas de suas seguidoras. Elas, as seguidoras de uma comunidade com dicas para o período de transição dos cabelos tingidos para a cor natural, não aceitavam que uma atriz famosa fizesse o mesmo. Muitas não perdoaram Glória por abandonar o estandarte da juventude que a atriz carregou por quase 60 anos. Isso não é muito louco? Eu posso deixar meu cabelo ficar branco, mas, se a famosa faz o mesmo, vou criticá-la por parecer desleixada.

Claudia Raia, que andou publicando fotos de lingerie para mostrar o corpo treinado a vida toda nas barras do balé, tem dito que luta contra a velhofobia.

Bacana, precisamos de gente influente na batalha contra o preconceito. Mas por que, então, boa parte dos comentários que ela recebe tem um tom ácido de crítica? Por falta de coerência, aparentemente. Claudia Raia, aos 54 anos, não tem cabelo, cara nem corpo envelhecidos. Atualmente, é representante de uma marca de bebida que vem mirando no público mais velho. Essa mesma marca, inclusive, acaba de lançar uma pesquisa com homens e mulheres de 25 a 60 anos, sobre a relação das pessoas com o envelhecimento.

Na base das críticas à Glória e Claudia, no entanto, residem dois pontos importantes. O primeiro é a confusão das pessoas diante de um momento novo. Gostamos ou não dos cabelos brancos? Até que a gente assimile, de fato, uma nova imagem das mulheres com mais de 40 anos, vamos ficar na dúvida, precisaremos de um tempo para nos acostumar a ideia de uma nova beleza.

O segundo ponto é o julgamento fácil: julgar as pessoas em redes sociais é o novo esporte da humanidade. Segundo este novo esporte, existe um jeito certo de envelhecer. Mulheres podem deixar o cabelo ficar branco agora, mas só se não forem famosas. Mulheres podem criticar a velhofobia, mas só se não fizerem tratamentos estéticos para retardar os sinais de envelhecimento. Mulheres podem envelhecer felizes, mas só se não namorarem homens muito mais novos. Mulheres mais velhas podem se vestir de acordo com a moda da temporada, mas só se não usarem shortinhos curtos. A lista é grande (contribua, eu te convido).

Lembra da pesquisa da marca de bebidas, a Ketel One Botanical? Pois é, ela concluiu que, de acordo com seus entrevistados, a maturidade é um

momento de muita liberdade e transformação. Lembra da antropóloga, minha musa no tema envelhecimento, Mirian Goldenberg? Em recente vídeo-entrevista, ela disse: "Eu aprendi, pesquisando o envelhecimento, que é preciso deletar. Um segredo meu: não tenho nenhum grupo de WhatsApp, porque todos têm vampiro. Aqueles que não dá para deletar, porque fazem parte da família ou do trabalho, é preciso se proteger, dizer não e ligar o botão do foda-se. Foda-se o que eles querem de mim. Eu preciso saber qual é a minha prioridade. O que eles mais sugam é o nosso tempo, o nosso bem mais precioso. Eu não posso gastar minha vida com vampiros." Concordo 100%. Se tem uma coisa que conquistamos com o envelhecimento, é a liberdade. Só se formos livres podemos envelhecer do jeito certo

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

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