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OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Compartilhar lembranças numa carta é como andar de mãos dadas

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Imagem: Getty Images
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Brenda Fucuta

Brenda Fucuta é jornalista, escritora e consultora de conteúdo. Autora do livro "Hipnotizados: o que os nossos filhos fazem na internet e o que a internet faz com eles", escreve sobre novas famílias, envelhecimento, identidade de gênero e direitos humanos. Além de entrevistar pessoas incríveis.

Colunista de Universa

23/10/2021 04h00

A carta chegou com vinte dias de atraso porque o CEP estava com dois números trocados. Ao recebê-lo do porteiro, olhei o envelope dos dois lados, frente e verso, entrei no elevador com uma ansiedade antiga, vinda dos tempos em que uma carta, por ser mais barata que uma ligação telefônica, era a emissária de notícias das pessoas queridas. (Sim, isso existiu pelo menos até os anos 90, quando linhas de telefone eram luxo e a internet ainda não era acessível a todos.)

A obsolescência não roubou os encantos de uma carta. Escrita à mão, ainda por cima, pode ter coisa mais charmosa? Em folhas pautadas, finas, dobradas três vezes. Uma carta que não traria notícias, traria palavras importantes, criadas por alguém que perdeu (perdeu?) parte do dia para pensar no que dizer e como dizer.

Não falo deste episódio para louvar o passado. Gosto do presente. Se fosse possível escolher, iria preferir esta época, aliás, a qualquer outra — com exceção talvez dos anos 20 do século passado, um suspiro de alegria, criatividade e libertação espremido entre duas guerras.

Mas gostaria de falar do tempo, de qualquer maneira. O ritmo dele, que se acelera e desacelera conforme a mídia com a qual interagimos. Uma carta diante de um tweet? Uma carta diante de uma mensagem de voz acelerada? Semana passada eu flagrei um dos meus irmãos usando o recurso de dobrar a velocidade do áudio do WhatsApp. Achei medonho, como se ele estivesse ouvindo o Pato Donald. Mas logo que testei, fui abduzida e seduzida. De fato, quando a pessoa demora demais para chegar ao ponto, é quase impossível resistir...

Mas voltando à carta, o tempo é importante nesta história. O tempo que Cynthia Almeida, jornalista e escritora, decidiu gastar, no confinamento da pandemia, enviando cartas às amigas. O tempo que dedicou à escolha de palavras para lembrar de histórias que vivemos juntas. O tempo que eu levei para lê-las, deliciada e emocionada. O tempo que a carta levou para chegar às minhas mãos — um atraso irônico, totalmente por acaso, que serviu para forçar um novo ritmo à comunicação. O tempo que a carta ecoou em minha cabeça e em meu coração depois de lida. Todo esse tempo forçando um novo ritmo nessa vida tão corrida que nos engole em uma ilusão de alta produtividade.

O outro aspecto do tempo é o da memória. Da mesma maneira que estamos sem tempo para pensar, sentir, curtir, estamos sem tempo para falar das lembranças que compartilhamos. Assim como as fotografias em papel que minha mãe espalha nas paredes de casa — para não esquecer de vê-las, ela me diz —, a carta da Cynthia me faz lembrar de situações que vivemos juntas e que eu havia empurrado para o fundo da caixinha da memória.

Compartilhar lembranças é tão emocionante quanto compartilhar histórias em volta da fogueira. Enquanto a contação de história garante que continuemos a jornada como humanos, o compartilhamento de lembranças garante que continuemos de mãos dadas.

Eu chorei com a carta — embora ela fosse leve como uma brisa de outono. Elas, a carta e a amiga, diziam o que precisamos ouvir mais vezes: sim, eu me lembro, e você estava lá comigo.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

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