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Por que é tão assustador falar de homossexualidade para crianças?

Propaganda da lanchonete Burger King - Reprodução / Internet
Propaganda da lanchonete Burger King Imagem: Reprodução / Internet
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Brenda Fucuta

Brenda Fucuta é jornalista, escritora e consultora de conteúdo. Autora do livro "Hipnotizados: o que os nossos filhos fazem na internet e o que a internet faz com eles", escreve sobre novas famílias, envelhecimento, identidade de gênero e direitos humanos. Além de entrevistar pessoas incríveis.

Colunista de Universa

10/07/2021 04h00

No dia 25 de junho, ao meio-dia, Arley parecia indignado porque o Burguer King estaria usando crianças "para poder promover esse festival de indecência". Pelo menos este foi o comentário dele junto ao vídeo publicado na página do BK no Facebook. O vídeo mostra crianças explicando aos adultos a visão delas da homossexualidade e da convivência com familiares homossexuais. Comercial pró-diversidade na semana do Dia Internacional do Orgulho Gay.

Arley não estava sozinho. O comercial ganhou 12 mil dislikes (versus 13 mil likes, é verdade), 17 mil comentários (entre críticas e elogios), mais de 5 milhões de visualizações no Youtube.

Entre os que não gostaram, estava Diego, que ameaçava deixar de ser cliente do BK; o Sandro, que achou o comercial imoral; o Beto, que achou a peça publicitária bem forçada. "Que depto de marketing MEDÍOCRE. Todos têm que ser aceitos e respeitados sim, mas envolver crianças na causa LGBT pra vender sanduiche NÃO PASSA DE APELAÇÃO."(sic). Achei que o Beto tocou no machucado duas vezes. Na primeira, quando ele falou de crianças. Na segunda, quando falou de empresas adotando causas sociais. Vamos às crianças, o cálice sagrado no debate da defesa dos costumes.

Para a maior parte dos homofóbicos, a homossexualidade - assim como a diversidade de identidades de gênero -, é coisa obscena e contagiosa. Contagiosa: se a gente falar muito no assunto, vira gay, trans, assexuado, bissexual etc.

Por esse raciocínio, as crianças deveriam ser protegidas, desde cedo, de conversas sobre o tema para que não se contaminem e não sejam expostas a um mundo depravado. Então, se uma criança demonstrar disforia de gênero (inadequação com o gênero com o qual nasceu), devemos ficar quietos e fazer de conta que nada está acontecendo. Quem sabe, passa? (Não, não passa.)

Se outra criança conviver com tio gay, mãe lésbica, vó bissexual, ela deve ser trancada em um quarto para não testemunhar nenhuma cena de carinho à mesa da cozinha, nenhum comentário sobre um afeto em um churrasco da família, nada sobre o amor não tradicional? A ela, deveria ser negado o conhecimento sobre o que está vendo e vivendo?

Vou fazer uma comparação esdrúxula, mas pode ser educativa. Seria como nunca falar que a mãe está triste, nunca comentar que o pai machucou o joelho ou revelar que a avó está com diabetes - coisas que não têm nenhuma relação com o que estou falando, mas que são tidas como negativas, certo? Assim como a homossexualidade, a transexualidade, a bissexualidade e várias outras questões que não entendemos e crucificamos por absoluta ignorância e medo.

Concluindo o raciocínio: se não falarmos de diabetes, tristeza, machucado, homossexualidade e até educação sexual - que previne abuso de adultos e gravidez indesejada, por exemplo - as crianças crescerão puras e sem dores? Claro que não. Crescerão sem capacidade de entender o que está a sua volta. Porque, querendo ou não, a diversidade existe. Deve, inclusive, estar escondida dentro de algum armário da família dos homofóbicos.

Este sentimento de que as crianças não devem ser contaminadas com a temática LGBT+ é tão forte que até um cliente gay do BK se manifestou contra o comercial. Diz Sergio: "Eu sou gay mas essa situação eu discordo totalmente!!! Não é bom ensinar as crianças sobre LGBTSQAI isso!!! Absurdo." (sic)

Por que Sergio? Outra comparação. Vamos supor que o comercial falasse da heterossexualidade. Teríamos crianças explicando que heterossexualidade é quando meninos gostam de meninas, em vez de "meninos gostam de meninos" para explicar a homossexualidade. (Veja, a criança, no comercial da BK, explica o que é homossexualidade, não receita a homossexualidade. Até porque ninguém escolhe ou vira homossexual. Nem se você, hétero, quisesse muito, ia conseguir tal proeza.) Na outra cena, teríamos uma criança dizendo que nunca pensou que teria padrasto, até saber que a mãe estava namorando sério. No comercial da BK, a menina diz que tem uma madrasta porque a mãe namora uma mulher. Seria melhor para esta menina que a mãe namorasse escondido? Que ela não entendesse o afeto de duas mulheres importantíssimas na vida dela? Por que, Sergio, isso seria melhor? Os gays existem - e você é a prova disso -, crianças em famílias gays existem e são felizes, e, pasmem, crianças gays também existem. E, se depender de nós, também podem ser felizes.

Por fim, quero falar das empresas que adotam causas sociais. Pode ser até que o Beto tenha um ponto. Vamos supor que o comercial faça parte de uma estratégia de marketing da empresa, que quer, como tantas outras, ser reconhecida como moderna e legal. Empresas bacanas defendem as mulheres, criticam o racismo, empregam as pessoas com deficiência, possuem comitês LGBT+, apoiam a transição de funcionários transexuais. Nem sempre o fazem por acreditar que é o certo, é o justo, já que mulheres, negros, pessoas com deficiência, gays, lésbicas e transexuais costumam enfrentar mais barreiras sociais e econômicas do que homens brancos.

De algum tempo para cá, as empresas realmente passaram a enxergar esses públicos como estrategicamente importantes para seus negócios. O argumento costumeiro: uma empresa com diversidade em seus quadros é mais rápida, mais inteligente e compreende melhor o mercado. Pode ser. Mas também sabemos que mulheres, negros, pessoas com deficiência, LGBT+s e simpatizantes são clientes potenciais. Quanto mais valorizados pela sociedade, mais dinheiro eles ganharão. Mais dinheiro, mais poder de consumo. O que significa mais clientes para o negócio. Isso se chama expansão de mercado.

De uma maneira ou de outra, adotar uma comunicação pró-diversidade, embora ainda exija coragem, é um caminho sem volta. Os que não gostarem, vão precisar mudar de lojinha e de lanchonete, como o Arley, que terminou seu comentário no Facebook dizendo que "Bora comer no McDonald's pelo menos lá eles se preocupam apenas em vender lanches." Epa, peraí Arley. Em 2017, o McDonalds criou embalagens de batata-frita com as cores LGBT+. Foi uma ação tímida e talvez ele demore mais que seu concorrente menor, o BK, para divulgar um vídeo como este que te irritou tanto. Mas, se eu fosse você, já ia buscando receitas caseiras de hambúrguer.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

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