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OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Casamentos até diminuíram na pandemia, mas a paixão é força irrefreável

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Brenda Fucuta

Brenda Fucuta é jornalista, escritora e consultora de conteúdo. Autora do livro "Hipnotizados: o que os nossos filhos fazem na internet e o que a internet faz com eles", escreve sobre novas famílias, envelhecimento, identidade de gênero e direitos humanos. Além de entrevistar pessoas incríveis.

Colunista de Universa

03/07/2021 04h00

Na semana em que meu irmão mais novo se casou, minha sobrinha Juliana estava procurando seu vestido de noiva. Mesmo sem comemorações ruidosas, porque não estamos em época de aglomeração, os casamentos não deixaram de acontecer. Não só na minha família, aliás. O número caiu, principalmente nas fases mais restritivas da pandemia, mas não a ponto de zerar, longe disso.

A união do meu irmão foi o que, antigamente, chamávamos de singela. Duas pessoas, o funcionário do cartório, testemunhas e nada mais. Às 9 da manhã. Em vez de convite, uma foto em preto e branco dos noivos foi publicada nas redes sociais. Minha sobrinha convidará apenas sua família (e a do noivo, que é bem pequena) para uma celebração incrivelmente menor do que ela sonhou. Eu não poderei estar com eles, uma distância de 3 mil quilômetros e a ameaça de um vírus altamente contagioso nos separa. É assim que as uniões acontecem agora. Pequenas, acanhadas.

Em vez de anúncios com muitas trombetas, muitos repicares de sino, música e fogos de artifício, hoje são comunicadas de um jeito tímido, envergonhado. "Como assim, estamos casando quando tem tanta gente morrendo?" "Como assim, estamos felizes quando tem tanta m*rd* acontecendo?" "Como assim? Como podemos nos dar ao luxo de nos apaixonarmos?"

Paixão é uma força irrefreável. Se fosse uma super-heroína, seria a mais poderosa delas. Ninguém consegue deter uma paixão em seu auge, ela é barulhenta, farta, exuberante. E egoísta. Os apaixonados, mesmo sendo pessoas legais e empáticas, estão arrebatados por eles mesmos, não conseguem se deprimir com o resto do mundo. Quem já se apaixonou alguma vez sabe que nenhuma festa, nenhum vício, bombom ou qualquer outra coisa que estala o prazer no corpo, se equipara a uma paixão de verdade.

A primeira vez em que me apaixonei para valer, tive um estranho efeito colateral, o de me reprimir para não me sentir tão feliz, sabendo que um dia, quando a paixão passasse, ia ser triste demais para suportar. Então, bobamente, tentei abafar a alegria, viver em meio êxtase, para não sofrer quando ele (o êxtase) fosse embora. Como já disse, foi uma bobagem. Quando a paixão foi embora, sofri do mesmo jeito.

Às vezes, me pergunto o que acontece com a paixão alheia que, mesmo sendo tão egoísta, é tão tolerada e celebrada pelos que estão de fora.

Pensando bem, se tem algo injusto no mundo é a distribuição da paixão. Desigualdade abissal. Olhe em torno. Quantas pessoas você conhece estão loucamente apaixonadas? Possuem saldo milionário nos fundos da paixão? Quantas, por outro lado, têm apenas uma poupança minguada? Um relacionamento morno, que já viveu dias melhores?

Poucos que são, os apaixonados ostentam sua riqueza diante da massa faminta por fortes emoções. Mesmo assim, não odiamos os apaixonados, não desejamos que eles percam seu tesouro. No máximo, rola uma invejinha (mas não do meu irmão e da minha sobrinha, tá?). Reconhecemos nos apaixonados uma condição especial. Acima do bem e do mal, eles são como anjos que foram presenteados com um prêmio da loteria. E é melhor que alguém leve o prêmio do que ninguém, certo? Parabéns aos noivos, que sejam mais sábios do que eu e vivam a paixão em toda a sua plenitude, sem medo e sem culpa.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

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