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Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Vacinaço já: precisamos de uma revolta da vacina ao contrário

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Imagem: Pexels
Brenda Fucuta

Brenda Fucuta é jornalista, escritora e consultora de conteúdo. Autora do livro "Hipnotizados: o que os nossos filhos fazem na internet e o que a internet faz com eles", escreve sobre novas famílias, envelhecimento, identidade de gênero e direitos humanos. Além de entrevistar pessoas incríveis.

Colunista de Universa

20/02/2021 04h00

Há um ano, no dia 19 de fevereiro de 2020, o UOL informava que 500 passageiros de um navio japonês, o Diamond Princess, tinham sido liberados de uma quarentena. Eles integravam um grupo de quase 4 mil pessoas confinadas no navio por duas semanas, depois que um vírus misterioso, aparentemente vindo da China, infectara mais de 600 passageiros. Em pouco tempo, a disseminação do vírus provocaria a decretação de estado de calamidade em boa parte do mundo, incluindo o Brasil.

Bem, você conhece a história: caos, medo, morte, recessão, colapso nos hospitais, na educação. Meses e meses de incerteza. Gente criando redes de solidariedade, gente estocando papel higiênico e comprando todo o gel da farmácia. Os malandros de sempre aplicando golpes e espalhando notícias falsas. Feio, mas era de se esperar. Somos humanos, imperfeitos, egoístas. A maioria de nós, diante de uma ameaça, se comporta como se estivesse em uma corrida de sobreviventes, onde vale tudo para se salvar.

Um ano depois dessa notícia, vivemos uma realidade que nem os cientistas mais otimistas se arriscaram a prever.. Sim, feito histórico, laboratórios de várias partes do mundo conseguiram acelerar seu processo de fabricação e entregaram à humanidade a possibilidade de se imunizar contra um vírus em tempo recorde.

Notícia maravilhosa, mas que nem deu tempo de comemorar. Afinal, as vacinas existem mas não são suficientes. E, no Brasil, parecem brigadeiros de festa de criança: só servem os que estão em volta do bolo.

Nesta semana de 19 de fevereiro de 2021, o UOL noticia a falta de vacinas em vários locais do país. Nem os brasileiros com mais de 80 anos nem os profissionais de saúde nem os indígenas - os grupos prioritários - foram vacinados em sua totalidade. A fila de espera é enorme, mais de 200 milhões de pessoas.

Nesta mesma semana, o governo de São Paulo cria multa para quem furar a fila da vacina. Vídeos mostrando idosos recebendo injeções sem o imunizante circulam nas redes sociais. No resto do mundo, vacinas são roubadas e falsas vacinas são vendidas na dark web, por emails e até em aplicativos de mensagem. A pilantragem continua. Somos humanos, imperfeitos, egoístas etc?

Temos vacina, mas não temos vacina. E isso é tão frustrante quanto o pós-final feliz dos contos de fada. No nosso conto, versão brasileira, mais de 200 mil pessoas morreram em consequência da contaminação. Milhões perderam renda. Centenas de milhares estão de luto.

Uma parte de nós faz de conta que nada está acontecendo. Tamanha é a vontade de viver que talvez valha a pena arriscar a própria vida? Outra parte de nós está acuada, escondida em casa. Por que não nos revoltamos? Por que não exigimos vacina? Por que estamos amortecidos, conformados com um cronograma que não tem forma nem compromisso?

Comecei este texto com uma história recente, a de um ano atrás. Termino com uma história mais antiga, de 1904, quando a população do Rio de Janeiro foi às ruas para protestar contra a obrigatoriedade da vacina contra a varíola - além de duvidar da eficácia da vacina, as pessoas acusavam os agentes de saúde de invadirem suas casas para a Injeção forçada do imunizante. Esses protestos acabaram sendo conhecidos como a Revolta da Vacina. Hoje, o cenário é diferente, claro, já que as pessoas querem ser vacinadas, nem de longe precisam ser obrigadas. Mas, de lição dessa triste história, fica algo que nos serviria muito bem agora: a coragem de nos inconformarmos. Se não dá para protestar nas ruas, no mínimo podemos bater algumas panelas. Vacina já. Para todos nós.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

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