PUBLICIDADE

Topo

Blog Nós

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

"Eu quero uma casa no campo": turismo na pandemia muda a cabeça das pessoas

Gilsimara Caresia é dona de uma descolada empresa de turismo feminino e criadora do maior grupo de mulheres viajantes do Facebook - arquivo pessoal
Gilsimara Caresia é dona de uma descolada empresa de turismo feminino e criadora do maior grupo de mulheres viajantes do Facebook Imagem: arquivo pessoal
Brenda Fucuta Brenda Lee

Brenda Fucuta é jornalista, escritora e consultora de conteúdo. Autora do livro "Hipnotizados: o que os nossos filhos fazem na internet e o que a internet faz com eles", escreve sobre novas famílias, envelhecimento, identidade de gênero e direitos humanos. Além de entrevistar pessoas incríveis.

Brenda Lee

Colunista de Univeresa

06/02/2021 04h00

Tenho uma amiga tão urbana, tão apaixonada por São Paulo que, desde que a conheço, pedia que suas cinzas fossem jogadas no Rio Tietê, depois que morresse. Em 2020, no auge da pandemia, esta amiga colocou roupas, computador e itens básicos em duas malas e se mudou para a casinha dela na roça, onde tem rede de internet, quintal com plantinhas e não precisa usar máscaras o tempo todo. Nunca mais voltou para São Paulo. E nem pretende voltar.

A história da minha amiga, que considero incrível, não é rara, pelo jeito. Já em março do ano passado, o portal Imovelweb divulgava o seguinte dado: a busca por imóveis rurais tinha dobrado em relação ao mesmo mês no ano anterior. A empresa Airbnb, que estava em crise no começo da pandemia, se recuperou graças ao aluguéis de curto prazo em pequenas cidades próximas às metrópoles.

"A liberdade de trabalhar de qualquer lugar criou um nicho de mercado que não existia", conta Gilsimara Caresia, especialista em turismo, dona de uma descolada empresa de turismo feminino e criadora do maior grupo, no Facebook, de mulheres viajantes. Abaixo, as explicações de Gilsimara sobre a migração para a segunda residência e o turismo de isolamento, que surgiu com a pandemia.

Com a pandemia, as viagens foram reduzidas, mas você me disse que houve uma transformação na área de turismo em direção a um turismo de isolamento. Como foi isso?
Com a possibilidade do home office, houve uma maior liberdade para viagens, mas diante das dificuldades do momento, essas viagens deixaram de ter como objetivo ir a vários lugares, conhecer gente, passear por atrativos, ir para festas etc. No lugar, surgiu uma nova categoria, o turismo de isolamento, onde as pessoas alugaram casas ou foram para suas segundas residências em lugares próximos à natureza, para passar um período longe das cidades grandes, que tiveram todas as suas atividades de lazer canceladas. Alguns hotéis, hotéis fazendas e resorts também passaram a oferecer pacotes de longa estada e se adaptaram para proporcionar ambientes de home office.

Você acha que as pessoas que passaram quase um ano em segunda residência vão se acostumar com a volta às grandes cidades?
As pessoas que conseguirem manter o home office com certeza terão uma flexibilidade maior de adotar um estilo de vida fora das grandes cidades. Para os que puderam usufruir dessa liberdade, foi um momento significativo de experimentação. Mas ainda não sabemos se, quando a pandemia estiver sob controle, haverá um retorno por parte das empresas para os escritórios. Algumas já sinalizaram adotar esse modelo em definitivo, enquanto outras preveem um modelo híbrido, com dias presenciais na empresa para alinhamentos e trocas. Vale lembrar, que durante o ano, as escolas também atuaram de maneira online e, com o retorno das aulas, pode haver a necessidade ao retorno à cidade de origem. Isso para quem ainda não mudou definitivamente para suas segundas residências.

Que outras tendências a pandemia trouxe ao turismo?
Saímos do macro e fomos para uma busca mais minimalista. Em vez de pegar avião, preferimos o carro. Chegou a faltar carro de aluguel nas locadoras. Outra tendência foi o aluguel de motor homes, que possibilitam um maior isolamento aos viajantes. As estadas ficaram mais prolongadas. Se antes as pessoas esperavam um final de semana ou feriado para viajar, agora podem passar mais tempo em hotéis, casas alugadas, casas emprestadas de amigos e parentes, segundas residências. Além de outros efeitos mais conhecidos: aumento da busca pelo campo e praia, busca por passeios virtuais, diminuição das excursões.

Com a vacinação, você acha que o turismo de pandemia vai deixar algum legado? Ou vamos voltar a viajar exatamente como fazíamos?
Alguns dos maiores atrativos do mundo estão fechados: museus, monumentos, teatros, galerias de arte, cinema. Quando for possível reabrir, haverá um retorno do turismo para as grandes cidades, mas, por hora, não sabemos quando isso deve ocorrer e deve acontecer de maneira gradativa e com número reduzido de pessoas. Então passaremos por um período de transição. Até lá as alternativas serão principalmente lugares abertos e relacionados à natureza. A velocidade das viagens também pode mudar. Se antes o objetivo era conhecer o maior número de lugares no menor tempo possível, a tendência de slow travel ganha força, com experiências mais lentas e significativas.

Que perfis de viajantes estão mais ansiosos para voltar ao turismo tradicional?
Recebo contato de pessoas de todas as idades. Vejo que algumas pessoas mais jovens já estão retomando com cuidados, viagens individuais ou pequenos grupos de amigos ou famílias. Já as pessoas mais idosas em isolamento estão ansiosas pela vacinação para poderem viajar. Tenho três clientes com mais de 60 e de 70 anos, por exemplo, que estão com uma grande expectativa para podermos retomar uma viagem que faríamos à Índia, antes da chegada da pandemia.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Blog Nós