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Assédio e violência sexual não podem ser encarados como trama de seriado

Marcius Melhem como Seu Boneco - Globo/Estevam Avellar
Marcius Melhem como Seu Boneco Imagem: Globo/Estevam Avellar
Brenda Fucuta

Brenda Fucuta é jornalista, escritora e consultora de conteúdo. Autora do livro "Hipnotizados: o que os nossos filhos fazem na internet e o que a internet faz com eles", escreve sobre novas famílias, envelhecimento, identidade de gênero e direitos humanos. Além de entrevistar pessoas incríveis.

Colunista do UOL

12/12/2020 04h00

Antes de mais nada, vou responder à pergunta do título para não haver mal-entendido: claro que as mulheres ganham quando situações de assédio passam a ser denunciadas e condenadas. Além disso, em termos de ativismo, uma bandeira não deveria eliminar a outra ou enfraquecê-la. O fato de a defesa do fim das queimadas criminosas ser de extrema importância não diminui a relevância da defesa do fim da violência contra animais. As bandeiras são muitas e igualmente válidas.

Por outro lado, fico um pouco chocada com o jeito que uma pauta séria como esta vem sendo tratada, como se estivéssemos na antiga arena das humilhações públicas, jogando pedras para arrancar sangue de quem está embaixo —e indo embora depois do anúncio do espetáculo seguinte. Óbvio que não estou criticando a atitude das vítimas, que tiveram coragem de denunciar um comportamento inaceitável do chefe. Nem da imprensa, que deu espaço para essas denúncias.

Me preocupa, porém, o momento em que as denúncias caem no grande tribunal das redes sociais, um tribunal que atropela direitos básicos de defesa e conceitos essenciais de justiça e privacidade (inclusive das vítimas). Este tipo de tribunal não analisa, não julga, apenas destrói. Ele não está preocupado com a violência contra as mulheres. Seu foco é mais um escândalo picante envolvendo pessoas famosas. Neste tribunal, o assédio moral ou sexual fica no mesmo nível do divórcio de um cantor sertanejo.

O assédio e a violência não deviam ser encarados como uma trama de seriado, onde os elementos narrativos —poder e sexo, crime e castigo, vítima e vilão— chamam mais a atenção do que os crimes em si. Denúncias de violência só servem à causa da defesa dos direitos das mulheres quando passam pelo processo correto de julgamento das instituições adequadas, construídas para este fim. Ah, mas as instituições são machistas, pode lembrar alguém. Verdade, elas são. Mais um motivo para que o público seja responsável e vigie o processo em vez de tentar substituí-lo. Além do mais, se a nossa justiça é machista, o que dizer dos nossos usuários de redes sociais?

É verdade que as bandeiras pelos direitos iguais nunca foram tão populares, graças a uma nova geração de meninas feministas e, claro, às redes sociais que deram voz às minorias. Em muito pouco tempo, a defesa dos direitos femininos saiu do quartinho dos fundos para um lugar de destaque na sala. A conquista foi grande demais. Precisamos honrá-la. Devemos tornar as denúncias públicas, porque são educativas, mostram que é possível fazer algo a respeito de uma violência. Mas não podemos despedaçá-las com julgamentos em que o escândalo é mais importante do que a consistência da apuração.

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